Cabidela com Jidungo – na mesa com Passos Coelho -

Notas de um almoço, onde marquei a presença do Aventar num encontro de ilustres representantes da blogoesfera (liberal, por sinal)  com o candidato a futuro presidente do PSD e talvez quiçá primeiro-ministro de Portugal, e com quem entabuei (é assim que se escreve?) numa animada conversa acerca de muitos e variados assuntos que a todos nos preocupam. O que não é todos os dias,  nem está ao alcance de todos (refiro-me ao candidato, é claro).

Ora bem, dos comensais, o candidato foi o único que comeu sopinha.  Depois veio a cabidela (eu fiquei-me pelo ensopado de borrego) , que acompanhou com uma pitada de jidungo pedida expressamente para o efeito. Não há dúvida que lhe confere um  toque exótico e multiculturalista, muito a propósito nos dias de hoje em que os negócios com Angola vão de vento em popa.  Tem pinta e presença de galã. Voz de barítono, mas um pouco disperso no discurso. Aliás ele próprio o reconheceu, curiosamente num longo e disperso aparte.  O Miguel Relvas, que o acompanhava, pareceu-me um pouco cínico e enfadado. Aliás, foi o primeiro (e único) a abandonar a mesa. Não gostei, confesso.

A plateia era constituída por bloguistas liberais a vociferar contra o Estado. O candidato parecia estar em casa não fosse eu,  o único que destoava no uníssono, não tanto por discordar mas porque parecia mal tanto pensamento único. O vinho era bom e o ensopado de borrego não estava mal. O candidato também não. O homem tem, apesar de tudo, um projecto para o país. E que projecto é esse? Muito simples. Consiste em três coisas:  primeiro liberalizar, segundo liberalizar, terceiro liberalizar. Aqui vosso amigo perguntou-lhe se não achava má ideia apresentar-se assim a um eleitorado de um país totalmente dependente do Estado. Ele assegurou-nos que está aí para o que der e vier. Boa.

Cultiva uma postura de impoluto, mas sem exagerar. Trata-se,  segundo o próprio, de um homem que não depende , nem nunca dependeu da política, apesar dos trinta anos da dita. Fiz-lhe notar que tem mais anos disto que a Manela Ferreira Leite, e no entanto, tem idade para ser filho dela. Ainda bem  que não o é, dificilmente teria saído tão bem parecido, disse-lhe.  Saiu do parlamento ao fim de oito anos sem pedir a reforma. Eu agradeci-lhe em silêncio. Nunca pediu empregos nem  favores ás inúmeras amizades que entretanto fez.  Esqueci-me de lhe dizer, que por outro lado,  não tem qualquer tipo de experiência governativa, o que é chato, sobretudo se lhe for apontado em tempos de eleições. Fica para a próxima.

Mas trata-se de um homem que pretende contar ao país toda a verdade. E a verdade é que estamos fodidos, segundo ele e o FMI, que citou.  Devemos dinheiro como merda e não sabemos como pagar. Solução que apresentou? Não percebi muito bem, mas ouvi, não garanto que tenha sido ele,  coisas como: cortar no salário do funcionários públicos, vá lá dez por cento, para a malta se recapitalizar, ou despedir metade dos ditos.  Senão, há que fazer como FMI  recomenda, sair do Euro e desvalorizar a moeda em trinta por cento. Acho bem.

Falou-se na RTP e respectiva privatização. Que não pode ser, que é controlada politicamente, que custa muito dinheiro. Fiz-lhe notar que se é pelo dinheiro ainda vá lá que não vá, mas se é por causa do controle não vejo porquê. Os grupos privados também são controlados.  Respondeu com as entidades reguladoras e mais não sei o quê, mas, sinceramente não percebi peva. A tal tendência para dispersão de que vos falava, que revela alguma falta de total domínio dos dossiers. Tem que se pôr a pau neste capítulo, se quiser chegar a algum lado.

Defende a privatização de muitos serviços públicos, por exemplo na saúde.  Fiz-lhe notar que no caso em apreço, um dos problemas actuais é precisamente a profusão de exames e análises que os médicos prescrevem a torto e a direito. Análises e exames feitos no privado. Pudera, é  aqui está a chicha. Concordou comigo, e invocando a sua condição de filho de médicos, da qual resulta, por inerência pressuponho, um profundo conhecimento do sistema de saúde, que o que há a fazer é  saber  quanto custa uma gripe. E um cancro da próstata, ocorreu-me, será caro? Mas não tive oportunidade. Alguém invocou o sistema americano, esse exemplo de excelência. E todos concordaram, pelo que adiante.

Defende a privatização da CGD. Acho bem. Mas comentei com o Gabriel Silva do Blasfémias (um gajo muito simpático por sinal) que hoje em dia quem não tem conta bancária não existe. Até para o estado lhe pagar o que quer que seja.  O que faz com que o um tipo que ganhe 400 euros por mês, seja obrigado a ter conta no banco, que, por sua vez, alegremente lhe debita “despesas bancárias”.  Afinal o que são dez euros por mês, ou coisa que o valha. Não seria de rever os estatutos e função social do CGD, perguntei aos meus botões?

Não responderam. São liberais, os cabrões (os botões, atenção). Estavam  embevecidos com o candidato, que entretanto debitava considerações de índole estratégica acerca de directas, congressos e outros quejandos, no meio das quais disse uma coisa muito substantiva, “não acredito em democracia directa”. O que, para mim, que nem em democracia acredito, é bastante satisfatório.

Tive de interromper a converseta, que eu apesar de, de vez em quando, votar neles, não sou militante, para cumprir com as obrigações que a chefia de redacção me impôs, nomeadamente, perguntar-lhe acerca:

TGV – respondeu que se tem de cumprir com o compromisso com Espanha no que diz respeito à linha Lisboa-Madrid. Quanto ao resto no máximo duplicava a linha do Norte, mas sem TGV, que achava estupidez, e as linhas Aveiro-Salamanca, Porto-Vigo e Évora-Faro. Foi a ocasião em que o discurso foi mais escorreito.

Regionalização – Foi um nim, mais para o não do que para o sim: “Bem talvez o melhor a fazer seja uma região piloto e daqui a dez anos logo se vê”.

E é isto, pá. Se não gostaram para a próxima mandem outro.  Mas contem sempre comigo, afinal de contas o almoço foi à pala.

19 pensamentos em “Cabidela com Jidungo – na mesa com Passos Coelho -

  1. Mereceste o almoço, a descrição é excelente. E como sei eu, que não estive lá, que é excelente? Porque com os Liberais só podia ser assim! Querem o SNS e a CGD, isso tambem eu quero. Mas já não me importo que invistam em inovação, tecnologia e bens transaccionáveis. Aí, sim, tudo e todas as ajudas.

  2. Parece-me que o 1bigo da mesa nacional esqueceu que as linhas estratégicas já não dependem dos pratos tradicionais.
    O Tratado de Lisboa numa escala europeia funciona numa dimensão progressivamente centralista que aparentemente foi esquecida!
    Quero dizer que a Europa manda e o governo local aplica. Uma relatividade familiar, entre uma Lisboa centralista e um país periférico transpostado para Bruxelas e o resto…
    Sem essa leitura de escala a refeição pareceu insustentável
    já que se esqueceram de chamar o cozinheiro à mesa para conhecer o fabricante do repasto…
    A estrutura local (nacional) do exercício de poder herdada do séc.XIX tem que dar um salto para o séc.XXI. Uma coisa que a malfadada Europa nos vai obrigar a fazer quando descobrir que essa a causa das nossas maleitas!
    Assim antes de se pensar em sair do euro, convém entrar primeiro.

  3. lá tás tu verissimo. quando te dá prá culinária e degustação não há quem te compre. Saltos não que me dói o disco. Vai ler a agenda territorial e pró ano falamos.
    Assim não, tá.

  4. … e depois o anarquista sou eu, do you feel me ?
    … vai-te lá chegando à direita, vai, que vens cá parar, yo !
    … gostei do pormenor dos «botões» – apesar de saber que não são de punho – e do impoluto elogio do bem parecer (o contributo desviante para a época, eh eh)
    … não restam dúvidas: à direita, és U maior, pá !
    …. se na próxima ação (isto do novo acordo ortográfico não é para mim, porra!) for o louçã – outra proeminente figura da direita à esquerda da esquerda que, por sua vez, quer nacionalizar, nacionalizar, nacionalizar – visto a batina e vou como teu criado …
    … já agora o verbo é «entabular» (vai buscar!)
    … espero pela jenna j. , eh eh !

    ass: o gajo da rua abaixo !

    Abraço

    ps: há sempre aquela do grande joão césar monteiro: adorei, adorei, adorei !

  5. Grande Rua de baixo: o corrector automático é um filho de puta.
    Mas confesso, o meu sonho sempre foi ter um vallet de rouen.

  6. Nao sei quem foram os outros convivas, mas parece-me que o do Aventar foi o melhor: Corre pela blogosfera que PPC ficou impressionadissimo com o nosso Miguel e que esta mesmo a pensar em coloca-lo no lugar do outro Miguel, o Relvas.

  7. A mim não me engana ele. Gostei da descrição, o Aventar esteve bem representado.

  8. Ao ler este blog tive uma ideia para resolver o problema do deficit,é simples, basta levar ao extremo o conceito de subsidio, de ferias e de natal, na função publica decretando a sua igualdade, há semelhança do subsidio de refeição, indexando estes dois subsidios ao salario minimo. Seria uma medida socialmente equilibrada e iria ao encontro da necessidade de diminuir a despesa publica.

  9. Gonçalo, se explicar por forma a que eu entenda, prometo que vou pensar no assunto. E o que é que leu neste blogue que o levou a pensar nisso?

  10. O salario medio da função publica é cerca de 1100 €, o subsidio de ferias e de natal somam 2200€ , se for substituido pelo salario minimo representa uma diminuição de 1250€ per capita , sensivelmente um corte de +- 8% na despesa dos salarios com o pessoal do estado , é uma medida que o PPC pode sugerir “responsavelmente”

  11. Pois, isso é, só que os funcionários públicos, com as respectivas famílias, podem fazer perder ou ganhar eleições…

  12. Ó Gonçalo, o salário médio é de 1100 euros se contar com as chefias, que ganham milhares de euros. Olhe que há milhares de funcionários públicos que ganham o salário mínimo. E ainda há bem pouco tempo, o salário mínimo da Função Pública era inferior ao salário mínimo nacional.

  13. Quem tem um salario de 500€ recebia 500€ de subsidio de ferias, quem tiver um salario de 2000€ recebe 500€ de subsidio de ferias ou seja esta medida socialmente é aceitavel em virtude do estado das finanças e seria muito menos penosa do que , por exemplo, cortar 10% dos salarios da FP como se fez na Irlanda

  14. Pois, e já estou a ver os patrões a aproveitarem para fazer o mesmo. O Estado dá o exemplo.

  15. cont..e mais , tambem se podia estender a medida aos reformados da caixa geral de aposentações e da segurança social e penso que facilmente as entidades patronais iriam aderir no privado( o mesmo não digo dos sindicatos) e isto tudo na pratica teria o mesmo efeito que desvalorizar a moeda, coisa que neste momento não podemos fazer por estarmos no euro, mas com alguma proteção social

  16. Gonçalo, o problema é que ninguem está disposto a isso!

  17. Pingback: Transformemos Portugal numa nova Grécia (ou como Passos Coelho anda de cabeça perdida) | cinco dias

  18. Aprpenatly this is what the esteemed Willis was talkin’ ’bout.

  19. 5bWyIM yjdkktiysfef

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