falar de crianças


as crianças sabem e entendem

Retirado do meu livro de 2008: A ilusão de sermos pais.

Falar de crianças, é uma temática complexa. Primeiro, porque o conceito, às vezes, é usado como substantivo para definir um comportamento, outras vezes como adjectivo se queremos denegrir indivíduos do nosso grupo social dos quais não gostamos, revelando assim a existência de um pensamento negativo sobre pessoas do nosso grupo social. Por outras palavras: é um conceito manipulável. A definição de criança pode ser complexa: não é um conceito que faça referência sempre á mesma idade, porque pode-se ser denominado criança ao nascer, nos cronológicos quatro anos, ou, como definem a lei positiva e canónica no caso português pode-se tornar a ser criança por diminuição da capacidade de entender o real ou desenvolvimento da capacidade de usar a razão E, finalmente, o conceito criança muda conforme é empregue nas várias ciências que falam dos mais novos, no senso comum – o mais usado – e na cultura que é referida, é dizer, muda conforme seja permitido agir dentro dum Estado, uma Nação, Etnia, ou Grupo Social tout court. Apenas pode entender-se, neste ponto, que ser criança é estar sujeito a adultos com capacidade de optar e gerir recursos que rendem lucro e mais valia, o cerne da nossa interacção social, a corrida, a concorrência entre seres humanos, ao demonstrar que se sabe mais pela maturidade da capacidade de pensar. A lógica dos mais novos, parece-me ser, como tenho definido em outros textos, uma estrutura de ideias em processo de formação, de acumulação de ideias, experiências e formas de pensar: uma epistemologia em crescimento. A relação adulta – criança começa pela simpatia dos mais velhos ao festejar, com encorajamento e carícias, essa primeira vez que um ser humano pequeno pronuncia um som que parece palavra, ou a começar a distinguir entre os mais próximos que ama e desdenhar esses que aprende a não gostar ou dos que, emotivamente, sabe ter medo e afastar. Todos estes sentimentos, são o objecto científico do meu interesse para analisar, entender uma emotividade em crescimento, uma epistemologia em formação e assim a amar ou colocar a prudente distância. Ou, simplesmente, para a ensinar a reproduzir a nossa cultura, os nossos pensamentos, língua, costumes, amostra de amor permanente para os mais pequenos. Ou, ao contrário, desenvolver um processo educativo que permita a sua liberdade de entender, desenvolver livremente o seu imaginário, criar uma fantasia, entender disciplina, carinho, emotividade sedutora, formas de comportamento para ser pessoa com identidade própria entre tanto ser humano diferente. Comportamento com a criança na base de processos diferenciados de tanta forma diferente de ser que existe, entre tanta cultura de várias gerações em coexistência a partir de contextos históricos diferenciados. Em síntese, a criança é uma entidade desconhecida que pensamos saber orientar porque nasce, ou, melhor dizendo, porque a concebemos na base da paixão. O tal senso comum que referia.

Eu próprio fiquei de boca aberta no dia que fui pai e adorei a minha própria criação, com um certo tremor no meu comportamento ao não saber muito bem como fazer para desenvolver uma capacidade de amar e de entendimento. Cada mês ou ano que passava, era preciso pensar e organizar uma estratégia diferente a ser empregue na minha interacção com eles, a minha cônjuge, os parentes, amigos e vizinhos e comigo próprio, processo de estrutura emotiva e material mutável dia após dia. O trabalho de sermos pais, a ilusão de sermos pais. Não esqueço factos que apoiam esta dificuldade da omnipotência humana, esse agir que nos faz deuses perante os nossos, mas deuses de pés de barro: ás vezes as crianças não queriam almoçar ou jantar por se terem fartado de guloseimas durante o dia. Guloseimas que dão conta do apetite, mas não de alimentação ao longo do dia. Fiquei preocupado. Qual o milagre a aplicar? Solução: íamos juntos as compras, juntos a seleccionar o que íamos comer e, se bolachas, chocolates, rebuçados eram escolhidos, eu lembrava docemente, com palavras simples por causa da idade, que a seguir íamos ter um debate sobre a compra…sem chicotadas, bem entendido, mas á distância que o carinho pela nossa criação, permite e por causa da alimentação. Perante palavras firmes, explicativas e comportamento militante do crescimento livre mas bem nutrido, os meus pequenos decidiam não escolher, começando assim a exercer domínio sobre si, a pensar, a optar. A trocar o prazer efémero por um crescimento sustentado para um futuro de adulto que sabe ser e dizer. Em troca, nós próprios aprendemos a ter prazer ao fazer o nosso pão, batatas esmagadas com azeitonas, pratos de comida decorados com o imaginário, desenhos nas cascas dos ovos, tudo a ser engolido enquanto analisávamos a colaboração ou a preguiça do outro nas artes culinárias, voir, na interacção afectiva entre progenitores, obra humana os pequenos, e temas interessantes para falar, conforme a idade. Os presentes de guloseimas ficaram proibidos de ser aceites, em troca de bolos feitos em casa por todos nós. Eu diria, perante essa queixa que eu sofri também, pura aplicação de senso comum.

É assim que entendemos as crianças? Com esse trabalho de imaginação do adulto, que nem sempre está feliz consigo próprio e os outros por causa da estreita economia que devemos aplicar para viver ou as impaciências amorosas que acontecem dentro de um grupo em permanente movimento de crescimento dentro da História? é dizer, grupo social em permanente mudança emotiva ou abstracta e material ou simbólica. Serão esses mais novos os anjos prometidos e sonhados pela paixão e a cultura social? Anjos silenciosos e submetidos aos seus adultos, que sabem cantar e recitar? Que desenham, gatinham com a baba a escorregar da dentada a nascer? Sermos pais, é brincarmos? Ou ver, ouvir e calar até a necessidade de falar para alimentar o crescimento de filhos e, especialmente, de pais.

São os temas que trato no livro que lê. Mas, trato de duas temáticas, no meu ver, bem mais interessantes. No meu pensamento, para entendermos criança, esse “subentendido”, como refiro mais á frente, esse ser que….está ai…anda por aí…berra por aí….é preciso saber ser adulto que, com serenidade e sabedoria saloia ouve, vê, cala e fala quando perguntado,… E nada mais para fazer e ser progenitor. Escolas de pais, até hoje, existem apenas as que frequenta a descendência e só para acompanhar a subordinação dos futuros cidadãos a uma lei que obriga a um comportamento regulamentado pela lei codificada e pelo costume que vive na nossa mente. Sermos pais, é passar os nossos “concebidos” pelo saber social, com carinho e certas palavras estritas de disciplina, com compreensão que não se confessa pelos actos cometidos pelos pequenos, para comentar na mesa de jantar com calma e sinceridade aberta. Sermos pais é uma obrigação que dura apenas os anos que decorrem entre a concepção e o desenvolvimento da capacidade de entender, na inteligência dos mais novos, no seu imaginário jamais recalcado. Até esse dia em que a criança é o adulto que nos substitui enquanto nós ficamos a reorientar a nossa vida de ser pais sem filhos, quer na nossa casa, quer num lar. Nunca em casa deles: é a sua família a ser criada, a crescer, a entender e continuar a nossa obra durante gerações vindouras. Até ao dia em que os nossos pequenos preencherem, adultos anciões, o nosso lugar vago porque o corpo não resiste até á eternidade.

Mas, um segundo ponto me interessa definir e entender: essa descoberta de Sigmund Freud em 1885, sobre a existência de vida libidinosa erótica no corpo e mente das crianças. Como diz um autor moderno, do nosso Século – Boris Cyrulnik, estamos em frente de pequenos patinhos vilãos. Que manipulam, que gritam, que trocam beijinhos por um objecto do seu desejo, que nos fazem correr. E, entre a concepção e o começo do entendimento, que acontece entre nós na estudada e analisada idade dos quatro anos, a paternidade/maternidade transpira, corre, cala, amua, dá carinho, tudo talvez durante o mesmo dia, ou por épocas. Às vezes, especialmente nos Séculos XX e XXI, um dos adultos pensa que este comportamento é por causa do outro cônjuge e vai-se embora e abandona sua ninhada, ás vezes, para sempre. Faltou-lhe saber o que Freud andava a dizer e a desenvolver a partir de 1909[2]. Este não apenas analisa o caso do pequeno Hans, como toma emprestado ou é-lhe dado por Ferenczi o caso da criança australiana Arpád[3], ou ainda a psicanálise de Richard que faz a discípula de Freud, Mélanie Klein, como a de tantos outros que ela relata na sua obra, toda citada dentro deste livro, como a troca de ideias entre Freud e Ferenczi, começada em 1900 e que leva Freud a escrever um livro específico sobre o erotismo das crianças, especialmente sobre aberrações sexuais[4]. O livro analisa o nascimento da libido erótica na criança, o seu desenvolvimento ao longo da infância e as aberrações cometidas por adultos com a dita pequenada. Temática de toda actualidade nestes dias e que me levara a escrever este difícil texto. Difícil, pelo debate entre autores e correntes, especialmente conductistas ou do comportamento, que Malinowski usou em Antropologia, ou de abstracção psicanalítica, a escola de Freud contra a qual Malinowski e outros Antropólogos, se haviam rebelado. Até ao dia de hoje, em que aparece um autor de importância dentro da análises dos símbolos, ideias, conceitos, que pretende, e consegue, converter a pesquisa de Freud sobre a procura do prazer em procura de verdade, e a fugida de Freud de Thanatos, ou á morte, em aceitação da realidade dura e dolorosa que vivemos, a aceitação do sofrimento como maneira de entender a verdade de forma religiosa – religiosa, é dizer, com ideias éticas, rituais, míticas, sem necessidade de uma divindade que intervenha no comportamento, muito embora seja analisada pelos Antropólogos e Terapeutas como forma de estratégia perante o sacrifício que é a vida. Este autor é Wilfred Bion, exaustivamente analisado neste texto.

O texto não é fácil. Freud, Klein, Miller, Bion, Malinowski, Godelier, eu próprio, somos os poucos que dentro de um texto com este objectivo, é possível estudar. Como os casos de Hans, Arpád, Richard e os que eu próprio tenho estudado entre o povo Picunche que analiso no meu trabalho de campo, bem como os estudados dentro da Europa.

É o livro que entrego para o debate entre todos nós e para sabermos, finalmente, que a vida erótica existe desde o primeiro dia de um ser humano, que é um processo em diversos contextos, factos entre nós crime, entre outros rituais. E que muitas de denominadas “birras” das crianças que, conforme Bion, ainda não entraram no desenvolvimento da razão, pelos 4 anos de idade, são devidas a insatisfação sexual, emotiva, de sentimentos da libido. O anjo é preparado pelas Igrejas, porque é preciso tomar conta do facto mais complexo entre nós: o incesto, actividade existente faz séculos e, hoje em dia, analisada e julgada na praça pública…por nós, os encarregados de orientar a vida além do incesto do nosso lar. Sermos pais disciplinadores e educadores, é uma ilusão. Sermos pais atentos aos factos eróticos do nosso lar e especialmente á pedofilia, masturbação, violação, adultério, é, em conjunto com o incesto, o objectivo da paternidade de todo progenitor.

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