Anónimos


                                

Dedico esta reflexão a todos os anónimos: aqueles que não assinam o que escrevem, aqueles cujo nome não é conhecido, aqueles que querem manter-se desconhecidos, a todos os outros anónimos que não cabem ou não gostam desta definição copiada do Wikcionário e, finalmente, a todos os que continuam a ser anónimos no derradeiro minuto…

São os anónimos que fazem o mundo continuar a girar apesar de tudo - e o nosso país em particular. São eles (nós) que podemos fazer a diferença. É neles que acreditamos, cada vez mais.
Não é por acaso que o Governo lançou a iniciativa «O Meu Movimento» (ver portal do governo)  que permite a cada cidadão, de uma forma “lúdica e simples” , fazer-se ouvir (saindo um pouco do anonimato!)… É só visto a quantidade de movimentos criados até ao momento -  sintoma de muitas carências no nosso país…
Os políticos já não nos convencem. Ainda temos que ler entrelinhas, perceber o que querem subentender mas não explicitam….

Claro, estou a pensar nas últimas declarações de Cavaco (que lhe marcam, pela negativa, o primeiro ano do segundo mandato) que logo tiverem defesa do seu Conselheiro e bom amigo Marcelo Rebelo de Sousa que disse que o Presidente da República teve um dia «Não» (como toda a gente) ou que foi infeliz ao dizer que não ganha para as suas despesas… 
Mas Cavaco não é «toda a gente». Tem responsabilidades muito sérias!! Esqueceu-se que todas as suas palavras são gravadas e escutadas e que têm (ou deveriam ter) um peso incomensurável. Ou temos também que fazer ouvidos moucos ao que diz o «provedor do povo»? Isto é que vai uma crise…
Vem isto a propósito da história de Ana Campos Reis dada a conhecer publicamente no JN de hoje, 23 de janeiro: enfermeira, membro da Irmandade de S. Roque, Ana acompanha funerais de quem não tem ninguém. Literalmente ninguém.
As perguntas que faz ao longo desses cortejos fúnebres – de adulto, criança ou bebé e que nunca viu antes – fazem-nos pensar na vida:

“Como te chamas?

Quem eram os teus amigos?

De onde vieste?

Preparaste-te para esta partida?

Quem é que gostavas que estivesse aqui?”

Mas as perguntas sobre «aquela criança/bebé» são terríveis:

” Onde estão os teus pais?

 O que falhou para não estarem aqui, ao teu lado?

Por que é que tiveste uma vida tão curta e acabaste assim tão só, sem ninguém?”
Ana faz estas perguntas há 9 anos, mais de 800 funerais de gente que nunca viu na vida. Às vezes, é a única participante do último momento da vida de gente que não teve sorte…
Um abraço (e força para continuar ) a todas as Anas que, anonimamente, nos fazem acreditar num mundo melhor e que acreditar não estamos sós, mesmo no fim.

P.S.: Podia colar uma foto de Ana Campos Reis (não faltam na net), mas não estariam todos os outros e todas as Anas que fazem tanto bem…

Comments

  1. ainda penso diz:

    Bem Hajam

  2. Carlos Fonseca diz:

    Excelente tema e excelente texto.

  3. A indiferença perante o outro, que não é mais do que um eu, promove a solidão no seio da multidão que alimenta o deserto do ser. Um ser que deixa este mundo sem identidade e sem pertença é o corolário de uma vida sem horizonte de sentido…

  4. marai celeste ramos diz:

    Nascer e morrer anónimo mas que triste

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