Sobral de Monte Agraço já tem um parque infantil.

Odorico de Paraguaçu ou o modelo de um edil.

Não sei se recordam este chavão publicitário que passou na televisão durante a década de 1990. Ele é, ainda hoje, bem revelador da «mentalidade paroquial» e municipalista que grassa na sociedade portuguesa desde, pelo menos, o Liberalismo. Nessa altura, profundas modificações foram operadas na divisão administrativa do país e vários foram os municípios levados à extinção. Choveram cartas nas Cortes. As velhas elites que diziam falar pelo povo, clamavam que estavam ameaçadas as liberdades daquelas antigas e venerandas terrinhas. Estavam era ameaçados os tachos oligárquicos onde as velhas famílias comiam e que agora, rotos e vazios, lhes eram retirados.
Contudo, o liberalismo teve mão para por no lugar esses rincões do Antigo Regime, oferecendo lugares novos aos velhos e criando novos lugares para os novíssimos. Hoje, tal seria impossível. As oligarquias deixaram de ser consanguíneas e passaram a ser partidárias. O dinheiro comanda. Apenas se falou em reduzir o número de municípios o caciquismo local tremeu. Mais depressa caía outra vez o Carmo e a Trindade do que se acabavam com concelhos. Alguns presidentes, daqueles da velha guarda, mestres e doutorados em eleições, vieram dizer que nunca, que as liberdades das antigas e venerandas terras, etc, (os tachos), etc, bastiões, etc, desenvolvimento, etc, progresso, etc., NÃO & etc.
É óbvio que a III República jamais conseguiria acabar com um munícipio que fosse e virou-se para as freguesias. Como a maioria dos presidentes da junta não tem sequer o quarto ano de escolaridade, nem o mestrado em argúcia política como os edis municipais, é fácil manobrá-los. Os municípios rejubilaram. Menos juntas, menos dinheiro, menos patetas a quem pagar jantaradas para servir nas campanhas. [Ler mais ...]

Outra vez os tontinhos do pouca-terra.

Várias vezes o Henrique Pereira dos Santos, do blogue Ambio, tem atacado a ferrofilia, traçando um perfil pouco simpático em relação aos entusiastas do caminho de ferro que, segundo ele parecem ser uns tontinhos capazes de se atarem a um carril para salvar o comboio. Porquê? Simplesmente porque o comboio é giro e os pobres coitados enfermaram, na infância, de um défice de atenção.
Volta agora à carga com a questão Porto-Vigo ou a sugestão (que por acaso também me me parece estapafúrdia) do aproveitamento do canal Lisboa-Corunha. Segundo ele «o facto de haver muita gente num sítio não quer dizer que haja muitos utilizadores de comboio. O facto de haver muita gente só quer dizer que há potencialmente muitos utilizadores de comboio. Mas que esse potencial só se transforma em bilhetes vendidos em algumas circunstâncias.». Caso para dizer: elementar, caro Henrique. Esta paliciana asserção serve para tudo o que tenha rodas e ande e mesmo para alguns quadrúpedes.
Porém, ao contrário do que HPS pensa, nesta altura do campeonato, a questão não é tanto um caso de procura-oferta. Isso era há uns anos, durante a gloriosa década de 1980, quando se começou a fechar em vez de modernizar. Hoje é uma questão de: vale a pena ter comboio que não seja do tipo suburbano, em Portugal? [Ler mais ...]

O Dão já tem uma ecopista!

Abençoado país este este!
Primeiro acabam com o caminho de ferro, com a desculpa de que é custosa a sua manutenção. Arrancam as linhas e extinguem a mobilidade transversal, ou seja um meio de transporte que servia a maioria dos cidadãos, dos 8 aos 80.

Depois aterram o canal da linha e asfaltam-no. Pagam 5 milhões de euros e dão-lhe o nome de ecopista. Tudo limpo e arrumadinho. Escondido o que outrora foi o progresso, aguarda-se a enchente de ciclistas.

Falta é algo importante. No interior desertificado e envelhecido, nem todos têm ou bicicleta ou saúde para percorrer quilómetro segundo o life style destes amorosos e idiotas técnicos que vêm o mundo a partir do gabinete das comissões de coordenação.

Ofereçam-se, pois, uns velocípedes a esta gente! Encham-se as aldeias do Dão com veículos de duas rodas!

O que pensam presidentes das câmaras acerca disto? ah! para esses tantos lhes faz que exista caminho de ferro ou asfalto, que os munícipes andem de bicicleta ou carroça, desde que haja, no final disso tudo, um larguinho jeitoso para instalar o palanque e a fitinha vermelha para cortar.

E assim pedalamos nós (os do Dão e todos os outros, menos os técnicos e os políticos) alegremente para o fim.

A resprivada.

Não sou linguista.
Não apoio o Acordo Ortográfico.
Passo a explicar. Como cidadão crítico e informado não aceito que, a nível ético, seja obrigado a fazer algo que não compreenda. O Estado, essa entidade abstracta gerida por sisudos técnicos e burrocráticos amanuenses que veneram contas, gráficos e quadros, não me pode obrigar a executar funções que não me são devidamente explicadas.
Como cidadão letrado e minimamente informado também sei que o Acordo Ortográfico na sua essência teórica está mal explicado. Que vem quase 20 anos depois de ter começado a ser delineado, que a sua utilidade educacional é quase nula e que no seu teor existem inúmeras contradições ao nível da linguagem e da gramática. Mas nem vou por aí. De resto há opiniões mais abalizadas que a minha para discutir estas questões científicas.
Mas o que irrita verdadeiramente é que coisas como a Língua, a Saúde, a Educação, a gestão do Território e do Tesouro público sejam alvo de decreto sem que os cidadãos sejam ouvidos. Num referendo, por exemplo. [Ler mais ...]

Carta aberta à Junta da Galiza.

(c) Dario Silva , 2010 em Aventar

Há exactamente 125 inaugurou-se a ligação ferroviária entre Portugal (Minho) e a Galiza. Inaugurada a 25 de Março de 1886, a ponte internacional de Valença ditou mais de um século de viagens. Acaba a 10 de Julho deste ano essa união com a «supressão do trajecto Valença/Vigo/Valença». Segundo a CP «não [estão] reunidas as condições para a continuidade da exploração».

O que eu pergunto é: o que pensa disto a Junta da Galiza? O que pensam aqueles que têm inscrito nos seus planos estratégicos a famosa máxima de que o Norte de Portugal só pode aproximar-se à Galiza? Como é que neste clima de euforia institucional e regionalista se pode enquadrar esta decisão? Mais: como é que se pode querer justificar um comboio de alta velocidade quando, pelos vistos, a falta de passageiros actualmente força o encerramento dos serviços entre duas das maiores cidades do Noroeste da Península? (E, repare-se estamos a falar de uma distância de menos de 150 km que numa linha devidamente modernizada e electrificada poderia ser feita em menos de 2 horas). [Ler mais ...]

Assunções precipitadas.

Acabo de ler, via Cinco Dias, que um grupo de feministas do qual eu nunca na vida tinha ouvido falar, chamado UMAR, veio fazer um longo discurso laudátorio sobre a eleição de Assunção Esteves ao cargo de Presidente da Assembleia da República (para o cargo pode dizer-se presidente, para a titular é que não, pelos vistos, dizem os linguistas da praça).
O texto que começa com a pomposa arenga «UM SÉCULO PARA QUE UMA MULHER CHEGASSE A PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA» seria inofensivo e até engraçado se não fosse de uma ignorância atroz. As senhoras chegam efectivamente a comparar tão solene ocasião com o «do voto pioneiro de Carolina Beatriz Ângelo».
Não vou perder tempo a explicar a estas cabecinhas toldadas pela ignorância corporativista e ideológica que o que voto de Carolina Beatriz Ângelo significou, que foi o mesmo que nada, dado que a mulher até 1974 foi sempre tratada como menor, quase mentecapta, pela república portuguesa. Aliás, até os animais ganharam mais direitos depois de 1910, do que a mulher (excepção feita à mulher de Afonso Costa, claro).
Mas o mais ridículo é aplaudirem uma eleição que, de acordo, com a cartilha republicana é tudo menos democrática. Para além de ter sido a segunda escolha, depois de Nobre, Assunção Esteves apesar de se tornar a 2.º figura de Estado a nível protocolar, não passa de uma individualidade apagada cujo estatuto é semelhante ao de uma secretária de direcção, lugar outrora ocupado por senhoras de saia abaixo do joelho, óculos e muita moral. E não foi eleita directamente pelos cidadãos!
Bom mesmo seria que uma portuguesa tivesse alcançado o lugar da presidência da República. Mas isso,como sabemos, não depende de nós. Depende deles, do regime, dos políticos e dos partidos. E enquanto eles não quiserem, a democracia não funciona. É assim desde 1910. E tão cedo não muda.

Guerras do alecrim e da manjerona.

Jornal de Notícias de hoje (21-6-2011)

Ainda bem que se fala abertamente da maçonaria e da opus dei. Para que não se pense que são teorias da conspiração. E compreender que estas sociedades secretas são cancros que convinha eliminar dos corredores e gabinetes. Uma coisa é fazerem os seus rituais e brincar às irmandades, outra é influenciar os destinos de um país pelo capricho de tomar e distribuir o poder a bel-prazer pelos amigos.

Pilar-José-Saramago

Eu gosto dos livros de Saramago. Regra geral: são bem escritos, imaginativos e bem estruturados. Têm, contudo, dois defeitos notáveis: são ideologicamente repetitivos e francamente pobres em imagens (simbólicas). Ou seja, quer os romances quer os ensaios de José Saramago não são eruditos e talvez seja esse um dos componentes principais da fórmula do seu sucesso. De resto a maioria das pessoas que disser que adora Saramago, pode ter lido antes a National Geographic, 2 Paulos Coelho e, eventualmente, António Lobo Antunes. Compará-lo a Jorge Luís Borges, por exemplo, – autor que o supera largamente em estilo, erudição e gramática – é inútil. Não se comparam estrelas de grandezas tão diferentes. Mesmo apesar de cada um ter tido uma fiel guardadora. Mas, e daí, também não se pode comparar a simplicidade de Maria Kodama, com a boçal extravagância de Pilar del Rio…

Um outro aspecto do seu sucesso foi ter ganho o Prémio Nobel, atribuído, não pelo valor da obra em si, como sabemos, mas pela ideologia do autor e das suas palavras. Saramago foi um cínico. Cínico dos cínicos, príncipe dos cínicos. Não acreditava em Deus, nem na virgem, nem nos anjos e santos, não acreditava nas religiões, mas acreditava menos ainda nos Homens, na humanidade em geral. Depois de ter sido nobelitado, tornou-se semi-deus no mundo e deus no seu país que entretanto tinha abandonado (juntamente com o português, que castelhanizou). Acreditava em si e na Pilar, às vezes.

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Mais uma moedinha, mais uma voltinha…

As próximas acampadas são em:

AngraRock 2011 (Angra do Heroísmo)
Barco Rock Fest 2011 (Barco – Guimarães)
CoolJazz Fest 2011 (Cascais)
Delta Tejo 2011 (Lisboa)
Ecos da Terra 2011
Energie Music (Vilar de Mouros)
Entremuralhas 2011 (Leiria)
Festa do Avante 2011 (Amora – Seixal)
Festival Azure 2011 (Ilha Terceira – Açores)
Festival do Crato 2011    (Portalegre)
Festival Med 2011 (Loulé) [Ler mais ...]

A frase mais ouvida em Portugal durante o mês de Junho.

Foge estupor, que te fazem comendador! p’ra que lado se me fazem secretário de estado?!

Ou julgam que, por mudar o regime, mudam as benesses?

Serões da província.

Arriscando-me a ser crucificado pela opinião internauta, claramente anticlerical, gostaria de comentar um caso que se passou em Valpaços e que a comunicação social, ávida por escândalo, noticiou recentemente.
Ao que parece, o pároco local recusou a comunhão a uma menina (com 16 anos) que trazia um generoso decote. Seguiu-se uma ofensiva à tia da decotada, que viu negada a pretensão de ver celebrada uma missa pela memória de um parente. A tia queixou-se e acha que o padre é retrógrado.
Os comentários à notícia, repartidos por vários órgãos de comunicação social, são bestiais. Os do costume apedrejam o padre, atirando-lhe com a pedofilia, a homossexualidade, a impotência, a Idade Média, tudo conceitos e razões válidas para se discutir um assunto como este.
Esta gente razoável, não frequenta a missa e grande parte assume mesmo o seu ateísmo. E, claro, como não são religiosos, nem católicos, nem frequentam a missa, são os que estão mais aptos para opinar. O seu julgamento é sempre com base num facto muito simples: tudo é mau no catolicismo (embora existam milhares de religiões e seitas no mundo) e que dentro desta maldade existem sempre umas coisas piores e imensamente más, como o facto da pobrezinha não poder conter os seios dentro do top e ir assim tomar a comunhão. Segundo alguns, os direitos dos seios deviam ser tidos em conta.
I dont give a shit for atheísm. Da mesma maneira que os ateus deviam preocupar-se com o catolicismo. Dar importância é favorecer, lembram-se? Não conhecem a célebre máxima de Óscar Wilde? [Ler mais ...]

Nota 10?

Ocasionalmente aparecem umas virgens ofendidas quando rebenta um escândalo como o dos futuros magistrados, presentemente cábulas. Não se ofendam. Há anos que o país forma pessoas preguiçosas, falsas e incompetentes. Reparem como é tão fácil chegar a primeiro-ministro: o curso é um acessório, basta adquirir um cartão de partido e militar alguns anos, decorando chavões e frases feitas. Convém ter bom aspecto, mas o que conta são os amigos.

Ao longo desta III República foram colocados jotinhas, boys e toda uma plêiade de indivíduos medíocres em cargos intermédios e de topo, não pelo mérito curricular, mas apenas por terem um cartão partidário ou serem amigos, filhos, sobrinhos, netos, primos ou enteados de políticos. A função pública, do Presidente da República aos varredores de rua, está inçada de autênticos degenerados. Basta visitar as repartições de uma Câmara Municipal, dos técnicos superiores aos administrativos, tudo tem aquela aparência entre o indolente e o arrogante mas, se rasparmos um pouco o verniz, o nosso interlocutor é uma profunda nulidade, desconhecedor dos fundamentos para aquilo que trabalha, vivendo os dias como um vegetal.

Mas não duvidem que a questão do “copianço” dos futuros magistrados é um escândalo. Num país menos habituado aos compadrios isto seria motivo para despedimentos e sanções. Sobretudo para aqueles que desculpabilizaram o acto e ainda o premiaram com a nota 10. Por cá relativiza-se tudo. Por cá, a CUNHA, esse velho recurso social, é visto, por todos, como normal. Quem, como eu, várias vezes concorreu a lugares públicos, sabe a farsa que está por detrás das escolhas. Ainda há dias, num concurso para um lugar na Câmara Municipal da Maia, houve exclusões por falta de assinatura do curriculum vitae… Mas o CV é último documento que interessa numa candidatura, se o telefonema, o “toque” já não tiver sido dado. Informaram-me recentemente que existe um sistema hierárquico de “cunhas”, em que a palavra do presidente da câmara é a mais forte. Seguem-se as dos vereadores, técnicos, etc. Abençoada sociedade que assim se organiza! [Ler mais ...]

Os Donos do Regime.

Agora sim, começamos a ter uma percepção mais nítida do quadro intitulado “Centenário da República”. Aos poucos, primeiro com a ajuda da Fundação Mário Soares, depois com a colaboração de alguns académicos, a Maçonaria foi-se apresentando como principal obreira da República em Portugal. Hoje escancara as portas, não é só obreira. É dona. Em Mafra até já se comemoram os 100 anos da dita associação. Como historiador, nada tenho a questionar sobre os fins e a utilidade de uma agremiação secreta, que existe, como muitas outras, com objectivos bastante claros mas sob posições nem sempre honestas. Já cidadão e indivíduo crítico, não consigo compreender para que serve este género de ajuntamento, às escondidas, com rituais francamente apalhaçados. É que para mim, a solidariedade ou o bem pratica-se às claras e a fraternidade deve ser uma qualidade inerente a todos, não apenas a um restrito grupo de iluminados que se consideram donos da liberdade. A solidariedade num grupo como a maçonaria, restritiva através do seu código e dos juramentos, em que só os irmãos partilham de uma sabedoria metafísica, causa-me muitos engulhos. É que quase sempre, nestes casos de redes ideológicas e partidárias, etc, uma mão lava a outra e as duas lavam muita coisa, desde dinheiro à honra. E vem à lembrança casos como o das Binubas, na I República, do Ballet Rose na Segunda e hoje, nesta III República, o famoso enredo Casa Pia. Ou ainda, mais recentemente, em França, o caso Jack Lang, ao que parece abafado graças a uma rede de solidariedades várias…

A revelação abrantina!

Na onda das mais recentes e sensacionais descobertas sobre mulheres que gostavam de mulheres, mas são homens, Eduardo Pitta desmascarou os Abrantes. Com fotografia! Eu confesso-me honestamente desiludido. Julgava-os de avental…*

P.S.: Era ao Câmara Corportativa que o Eduardo Pitta se referia quando disse: «com o putedo que para aí anda, não quero imaginar as personas de certos bloggers portugueses», não era?

O que nós precisávamos era de 3 Afonsos Costa!

Não, o estado não é laico. Se o fosse, não havia escolas, instituições, ruas, aldeias ou mesmo cidades com nomes de santos, feriados religiosos, nem excursões a Fátima pagas com o dinheiro público. Nem se comemoraria o Santo António, o São João ou o São Pedro. O Estado não é laico porque, embora os governos oscilem a partir de um braço de ferro entre maçonaria e o catolicismo, a maior parte dos políticos favorece a Igreja. Seria impossível não fazê-lo: cerca de 75% do património nacional é de origem católica e os púlpitos, embora não se usem são ainda um canal privilegiado de comunicação. Um Estado absolutamente laico nunca atribuiria dinheiro para o restauro, promoção e estudo de igrejas, capelas, ermidas ou património móvel ao serviço do culto, como (ainda que timidamente) tem feito. Se o Estado fosse absolutamente laico, reprimiria ou não autorizaria o culto fora dos templos, proibindo as procissões, por exemplo.

Por isso, definitivamente não estamos perante um estado laico, nem, como muitos querem, uma Primeira República, anti-clerical e ferozmente positivista. Talvez se resolva isso mudando, a “barroca [eu diria bacoca] e anacrónica constituição” como bem referiu e oportunamente sublinhou António Barreto. Então aí sim podemos dar azo às nossas frustrações em relação ao peso da religião na sociedade portuguesa. [Ler mais ...]

A História não é do Povo, nem de Moscovo.

Não existe História asséptica, nem imparcial. Existe coerência, interpretação e bom senso. Infelizmente ainda não possuímos um código deontológico para Historiadores, pelo simples facto de que não existe, também, qualquer instituição que superintenda a escrita da História ou (superintender é capaz de ser inadequado) zele pela boa historiografia em Portugal. O panorama é comum a muitos países, embora em Portugal seja mais confrangedor, dado que a facilidade com que qualquer um toma para si a denominação de historiador, desacredita a boa história, a História com H grande, escrita segundo o método científico que esta disciplina exige. Por outro lado, como a História é pedagogia e a escola tornou-se um laboratório de conceitos fúteis, aplicados a pressupostos de progresso social e meta-social (o que quer que isso seja), o lugar das humanidades foi sendo substituído por «ciências» realmente «verdadeiras», por «números», por «conceitos» galicistas e anglo-saxónicos inventados por alguém, num gabinete esterilizado mas pouco ventilado, lá longe, em Bruxelas. A História tornou-se um adereço difícil de justificar. De tal forma que o Passado se torna, dia após dia, uma montra de clichés que perduram enquanto existirem a wikipédia e os humoristas. [Ler mais ...]

Os eleitores-fantasma.

Eu não votei. Já tinha esclarecido aqui porque o não ia fazer e, honestamente, não gosto de ser confundido com os que não votam por razões metereológicas ou de ócio. Não votei porque não estou de acordo com o sistema eleitoral, com a prevalência partidária, com os seus lobies e estratégias de poder. Não votei porque não me revejo no discurso estereotipado dos partidos. E não admito que um político de carreira como o Professor Cavaco Silva venha insinuar que, por não ter votado não terei doravante legitimidade para criticar. Logo ele, que foi eleito com 25% dos votos e se arroga ao título de presidente de todos os portugueses.

Antes de ser um eleitor, sou um cidadão e quero ser tratado como tal. Não aceito, portanto, a euforia clubística com que se celebrou ontem a substituição de um partido por outro ideologicamente semelhante, como se o poder fosse um torneio de futebol. O país vive esta mentalidade partidária como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. Mas não é. A tal democracia representativa e directa que aqueles meninos e meninas mimados reclamam no Rossio é obtida através do voto, mas de um voto em ideias e não em ideologias. Por isso acho que ficamos todos a perder enquanto as eleições para o Poder Central ou Local estiverem minadas pelo clientelismo partidário, cujo desejo último não é servir o cidadão, mas arrigementar eleitores apenas para alimentar a sua máquina e manter o poder. Só um sistema como o actual, favorece homens cuja vida é dedicada, não em prol de uma causa ou de um ofício, mas de uma carreira, como é o caso de José Sócrates, P. Passos Coelho, Paulo Portas ou Francisco Louçã. Para acabar de vez com a ideia de que a res publica é um emprego e não uma causa. [Ler mais ...]

Não se escreve “acampada”, escreve-se “acampamento”.

Já percebemos que discutir a questão das acampadas (a propósito, acampada é termo que não se regista nos dicionários portugueses) é questão ingrata. Os que estão a favor, estão a favor, os que estão contra, estão errados. Não são admitidas contradições (até Torquemada era mais tolerante). A democracia gerida das escadas de uma estátua, ou das cadeiras do parlamento pode ser tão ou mais opressora consoante a habilidade oratória ou literária dos tribunos. A única coisa que os distingue mesmo é a água de colónia. Ou a falta dela. Que o diga Daniel Oliveira que acha anedóticos os 136 debates partidários exigidos pelo tribunal. Vejam lá o topete! A mudança operada nesta criatura, outrora sentada num frio degrau da praça (no tempo em que a liberdade era para todos) até ao assento de pele das tribunas parlamentares é de espantar. Quando o BE (ou aquele grupo heterógeneo de barbudos e oculizados trotskistas) precisava de apanhar beatas do chão para saciar o seu vício de poder, os pequenos partidos eram as forças oprimidas do sistema capitalista neoliberal. Hoje, já gordo e bem fornecido de todos os carregamentos de charutos habaneses acha que os pequenos partidos são um engodo do sistema capitalista neoliberal. O que chateia não são as acampadas em Lisboa, em Madrid e o diabo a 4. É que esta gente, ao fim de um ou dois banhos está igualzinha aos outros.

E a democracia, does it really matter?

A partidarização da Democracia tem turvado uma ideia essencial: é que o Homem, enquanto ser pensante, crítico, activo, antes de se enquadrar numa ideologia, possui as suas próprias ideias. Ora a principal função das ideologias é anular as ideias. Os partidos são sempre sectários. Transformam os indivíduos em militantes que devem acatar, submissos e acríticos, as directivas do conjunto ideológico. Em Portugal, porém, e ao contrário do que se esperava numa sociedade que há 37 anos conhece o valor da Democracia, a ideia de partido continua viva. Cada vez mais viva, aliás. Todos os anos surgem vários partidos e cada um deles cada vez mais sectário: dos Animais, do Norte, da Esperança, dos Trabalhores, da Extrema-Direita, etc, etc. A ideia de que cada um de nós pensa e age aos bochechos ou sob impulsos parcelares é, para mim, insultuosa e mesmo incompreensível. Como é que alguém pode pensar que, por ser de um de um partido de Esquerda, deve, obrigatoriamente, ser contra a NATO, apoiar o casamento entre pessoas do mesmo sexo e querer salvar as baleias e os golfinhos? Ou os que não votam no Partido dos Animais são, invariavelmente, a favor de Touradas ou não gostam dos bichos? O mesmo se aplica à Direita, supostamente xenófoba, conservadora e liberal. Devem ser todos os eleitores de direita, ser xenófobos, conservadores ou liberais? E porque é que eu hei-de ser pelo Norte, se é tudo uma questão meramente geográfica e de latitude? [Ler mais ...]

O DNA dos principais partidos políticos portugueses.

O "DNA" dos partidos políticos portugueses a partir da análise vocabular dos seus memorandos e programas políticos

Durante a vida política, fora e dentro do Parlamento, antes, durante e depois das eleições, há sempre um discurso muito semelhante entre os partidos: todos se culpam e ninguém tem a culpa. Nesse sentido, a classe política, da Esquerda à Direita, acaba por acoitar-se sob um manto de desresponsabilização que caracteriza a Partidocracia. Numa democracia especificamente controlada por partidos, é natural que os partidos se defendam entre si, depois os seus clientes e eleitores e só depois, no final, os cidadãos, votantes e não votantes.
Para perceber até que ponto o discurso político-partidário não só é inócuo como semelhante, elaborei uma análise vocabular dos programas e compromissos eleitoral para as eleições que se aproximam. Recorrendo a um programa informático muito simples (o Polaris word count), contei os 20 substantivos mais vezes referidos pelos 5 partidos com assento parlamentar: BE / CDU / PS / PSD e CDS-PP. O resultado foi muito interessante e revela, de certa forma, como o discurso partidário se aproxima em forma e estilo de uma ponta à outra do espectro parlamentar nacional. É esquemático, pobre em conteúdo e pouco imaginativo. [Ler mais ...]

São cravos, senhor, são cravos. E apodrecem.

A única coisa que me atrai nas revoluções, é a carga anímica. É o romantismo! É o imaginar que o colectivo tudo consegue, quando sai à rua! Vejo o Maio de 68, os combates nas ruas de Paris, os estudantes e aquela bela aristocrata francesa (a Caroline de Bendern) encavalitada, envergando a bandeira da libertação. E sonho com revoluções diárias, com o uso daquela extraordinária força para, todos os dias e todas as horas, construirmos um mundo melhor, mais justo e mais solidário. Infelizmente, uma multidão tão facilmente usa os punhos para depor governos, como para linchar “criminosos”. E o romantismo acaba aqui. Pior, só sai à rua por egoísmo, quando se acaba o emprego, tem fome ou lhe falta dinheiro para comprar o novo modelo de telemóvel. As revoluções são como os cravos que estão outra vez em moda: ou se plantam num vaso e se regam ou, cortados, murcham, apodrecem e deixam de ser importantes.

E se privatizássemos a ideia de Ministério da Cultura?

 

 O ministério da Cultura é, como todos os outros, apenas a extensão de um governo. Independentemente de quem está à cabeça, se existe ou não, não passa de uma filial político-partidária. É certo que existiram consulados ministeriais mais activos do que outros. O de Manuel Maria Carrilho, apesar de muitas críticas, conseguiu dinamizar a  cultura pública e os seus múltiplos organismos. Mas por muito que se discuta, discute-se o irrisório, a banalidade. Gabriela Canavilhas desfila pelos salões, sorri, distribui gracejos. Umas pianadas. Talvez isso faça dela uma excelente ministra: o existir, apenas. Como até há bem pouco, o ser-se directora de Museu, para cujas habilitações concorriam, em primeiro lugar, aquelas damas que sabiam tocar piano e falar francês, Canavilhas encarna o papel na perfeição. O resto são fait-divers. O Ministério da Cultura é, antes de mais, a sopa dos pobres: para quem circula lá dentro como cliente de um partido ou, cá fora, dos artistas que aceitam todo o tipo de subsídios, desde que isso os mantenha a trabalhar. O MC não passa de uma extensão da Segurança Social.
E, por isso é que se discute uma banalidade: para quê tanta tinta sobre se irá existir, ou não, um Ministério da Cultura, se tudo o que se passa neste Ministério é, isso sim, e no mínimo discutível?
Por que não privatizar a ideia do Ministério? Por que não, traçar uma estratégia de verdadeira dinâmica nas extensões que dele dependem? Conferir estatuto de verdadeira independência a certas organismos como ao Igespar ou aos Museus Nacionais, por exemplo. Como é possível que o Igespar, cuja função é superintender e salvaguardar o património nacional esteja submisso aos interesses político-partidários frequentemente financiados pelos favores da construção civil e do asfalto? O património e o ambiente (outro ministério aberrante) deviam reger-se por fundos próprios, na directa administração de instituições público-privadas com poderes muitos específicos que o próprio Estado só pudesse contestar a nível judicial. Caso contrário, as situações como as do Tua, em que alguns arqueólogos, pressionados pelas chefias, chumbaram o interesse histórico e patrimonial de uma linha férrea centenária, continuarão a suceder-se.
A ideia de um ministério meramente formal, que exista para cortar fitas, distribuir benesses e prémios a uma elite endogâmica é que devia ser discutida, e não se o PSD vai extinguir o ministério. Nós sabemos – conhecemos muito bem, aliás -, qual são as estratégias do PS e do PSD para a cultura. Ambos os partidos estão no poder há tempo suficiente para perceber que qualquer um deles e cada dos seus apaniguados encaminhados para o MC não entendem, nem precisam entender o alcance e o valor da cultura. Bom, e talvez tenham alguma razão.
Os livros e o teatro não dão votos, nem passam cheques. Mas aí já teríamos que discutir os gostos do “povo”. E o povo, afinal, é quem mais ordena.

Dominique.

A comunicação social e os blogues não falam de outra coisa, da prisão de Dominique Strauss-Kahn presidente do FMI, acusado de abuso sexual. A excitação e os trocadilhos sucedem-se na habitual azáfama comentadeira. Mas o que eu acho mais frustrante e até triste é que o presidente de uma instituição internacional, poderosa, como é o FMI consiga ser acusado e preso devido ao testemunho de uma empregada de hotel e os nossos políticos, nomeadamente o Primeiro-Ministro, sobre quem pendem tantos rumores e acusações, permaneçam impunes e ainda sejam várias vezes reeleitos. A ver vamos se a maçonaria ajuda este socialista francês.

De Assange à Fontinha.

Vivemos num período, à escala global, em que infringir as regras, ser desonesto ou não cumprir obrigações individuais ou colectivas torna a ser algo de heróico, de divino. Subitamente milhares de Robin Hood sobem aos palcos e recebem medalhas.

Obama, presidente do país mais conflituoso do mundo foi galardoado com o prémio Nobel da Paz e Julian Assange, que noutros tempos se consideraria um mau espião, foi recentemente premiado. E hoje leio que Richard Stallman, um hacker informático dos anos 80, vai ser recebido na Universidade do Porto com honras de catedrático. De resto nada disto é novo. Antes de ser o ícone que hoje é, Mandela, por exemplo, foi bombista e um perigoso reaccionário. É é impossível não pensar o quão esquizofrénico é tudo isto. O mundo pende, perigosamente, sobre uma ideia de punição: uma punição que extrapole a justiça, a ética, o bom-senso. Os mesmos que aplaudem os heróis como Assange, aplaudem-nos porque eles são o instrumento do seu ódio, não pela acção ou finalidade do acto em si (de resto, a criação de Stallman, o software livre, é louvável, mas não pela destruição de todo o outro).

Um caso recente e mais próximo de nós: a okupação na escola da Fontinha, no Porto.

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História à moda de Hollywood.

“Na última semana beatificámos um Papa,
casámos um príncipe,
fizemos uma cruzada e matámos um mouro.
Bem vindos à Idade Média.”

Chegou-me esta “pérola” de humor cínico, via um fórum de discussão de História (!), concebida, certamente, pelo mesmo género de pessoa que me me enche a caixa de correio electrónico de power-points musicais com aforismos sobre a arte de viver.

O melhor sentido de humor é o que demonstra mais inteligência. Por isso pouca gente gostará de Monty Python e a maioria prefira a vulgaridade de um Fernando Rocha. E no que toca a História, em que todos têm opinião, sempre é preferível o chavão à verdade, um José Hermano Saraiva a um José Mattoso. Aquela arenga sobre um Papa, um príncipe, a Cruzada e o mouro é uma sucessão de preconceitos ideológicos. O pior deles, que a Idade Média é a época das trevas, do atraso social e mental. O que dirão, disto, os meus amigos medievalistas?

Basta olhar para o século XX, para perceber que a Idade Média, com os seus papas prepotentes, os seus monarcas autoritários e as Cruzadas empalidecem perante os actos de Hitler, de Estaline ou do Império Britânico e que a História não se divide em períodos nem em indivíduos bons e maus. Isso é para Hollywood. A principal função da História é pedagógica. Se isso não está a funcionar, como se depreende pelo anónimo discurso citado, então talvez devêssemos ter mais historiadores e menos engenheiros. Porque de mentirosos está o mundo cheio.

Tudo o que os finlandeses não querem nem precisam saber sobre Portugal.

Estou em crer que os Finlandeses se estão a marimbar para Portugal. Como, aliás, a maioria dos portugueses. Há muito tempo que os autóctones deixaram de gostar do país, dos governantes, das instituições e de si próprios. Somos, com certeza, um dos países com a menor auto-estima da Europa. Ou mesmo do mundo. Em nações mais pequenas, mais miseráveis e mais periféricas luta-se pela manutenção da independência. Por cá, entregaríamos de bandeja o território à Espanha, abdicarímos em qualquer momento da nossa cultura e venderíamos (vendemos) o nosso património a quem der mais. De resto, já nos entregámos de corpo e alma a políticos ávidos. Há 37 anos que os barões de dois partidos repartem entre si os despojos de um navio que só não naufraga porque depois não haveria o que saquear.
Um país onde uma maioria  ainda cospe para o chão, onde certos indivíduos constroem a casa maior do que a do vizinho apenas por vaidade, que desrespeitam todas as regras elementares da sã convivência e ainda se gabam disso é um triste exemplo da falta de amor-próprio. Os psicólogos o explicarão melhor, mas quem não gosta de si, dificilmente terá força e vontade para singrar, para vencer desafios ou para produzir o que quer que seja.
Depois, um país onde as pessoas consideram a corrupção como um salutar e normal truque para ultrapassar a legalidade e contornar obrigações sociais elementares (como respeitar o mérito) diz muito sobre a forma como nos vemos ao espelho. Somos, aliás, os primeiros a dizer mal de nós, a rebaixarmo-nos e a reprovarmo-nos perante o Outro. Somos capazes de fazer graças com todos os assuntos, por mais tétricos ou vulgares que sejam, como se o humor fosse um lenitivo. E é, de facto. Enquanto rimos, esquecemos que a maioria da população se divide entre uma pequena elite pedante, um conjunto de aspirantes (os doutores) e uma vasta massa de iletrados, cuja ambição maior é a de que o seu clube de futebol some vitórias. Enquanto os nossos humoristas ridicularizam os governantes, desculpabilizam a gravidade dos seus actos, transformados em burlescos gracejos que se esquecem com uma risada.
Dirão: mas cada uma destas enunciações são chavões comuns a muitos paises. É certo, por exemplo, que um país como a Finlândia terá os seus maus políticos, os seus ladrões e os seus santos, os seus reality-show e público que os aplauda.
Mas esse país, tão novo, sem o peso dos 800 anos de história, sem praias nem sol, sem ter inventado a via verde ou sequer ter levado novos mundos ao mundo, não está na bancarrota, nem precisa de convencer o mundo que, apesar da desgraça, já foi grande. Efectivamente já fomos grandes. Mas tudo isso que interessa, quando hoje somos pequenos – pequenos territorialmente e pequenos geopolíticamente?
Olhando para o gráfico acima, que assinala já a vitória a um, ou ambos, dos/os responsáveis pelo estado em que estamos, nem vale a pena questionar a democracia, nem a sua validade num país mal habituado a liberalidades. Apenas perguntar: mediante aqueles valores, e o estado em que nos encontramos, valerá a pena voltarmos a ser grandes se sendo pequenos já nos infligimos tão grande mal?

A chapelada dos media.

A ideia de que a Comunicação Social existe para salvaguardar a Liberdade, para defender os Direitos Humanos, cai por terra quando se percebe a dimensão do logro da manipulação da imagem sobre a morte de Bin Laden. A Comunicação Social existe para isso mesmo, para manipular, para especular, para enganar. E por detrás de uns tontinhos que saem das escolas de jornalismo a pensar que vão salvar o mundo pela notícia, está o bonecreiro que idealiza um outro mundo, mais de acordo com as suas regras e com as regras de um ou outro grupo de homens bastante mais inteligentes do que os aprendizes de frases feitas. De resto, o dito jornalismo “independente” é tão ou mais independente consoante sobem ou descem as audiências.

O que é o povo, pá?

Rafael Bluteau, enciclopedista português do século XVIII afirmava que povo era a “plebe, o vulgo, a gente baixa de qualquer povoação, cidade ou vila”. E acrescentava, “é próprio do povo obedecer com vileza, ou dominar com arrogância”.
Posto este intróito histórico e linguístico, o que é, hoje em dia, o povo? Nunca se falou tanto nesta palavra como nos últimos anos, em Portugal. Toda a gente fala, grita, exulta, em, de e sobre povo – essa entidade abstracta que parece saber descrever, nem quais são os seus limites, dado que todos se lhe referem de forma indirecta e impessoal. O povo são sempre os outros, nunca nós.
De resto, os políticos dizem defender o povo, mas demarcam-se dele, para obstar a enganos de teor demagógico; a classe média, agora agastada pela crise económica, fala no povo quando reivindica alguns direitos, mas sempre que pode vinca a sua distância ao dito pelas conotações negativas que isso acarreta. Ao certo ninguém sabe se pertence, nem quem pertence ao dito povo.
Se, segundo as lógicas marxistas, (sempre em voga em sociedade mais dadas a impulsos biológicos do que ao pensamento crítico) povo é aquele que trabalha, logo o mundo divide-se de forma maniqueísta entre povo e não povo. Será o povo a gente baixa do Bluteau, que usa os braços para trabalhar, por oposição a uma “gente alta”, que o não faz?
Como não vivemos naquela sociedade tripartida que o enciclopedista conheceu, nem hoje se distinguem os oficios mecânicos para efeitos de classificação social (muito menos existe a velha ideia de nobreza) povo somos, afinal, todos nós, do político ao pobre, do trabalhador ao patrão, do desempregrado ao ocioso profissional. E dado que a Revolução Francesa e o conceito de democracia nos nivelou ao nível mais baixo da concepção de indivíduo, o de cidadão (ligado à ideia de um peão da cidade), povo enquanto fatia da nação, diluiu-se ou pura e simplesmente desapareceu.
Por isso, falar em povo, é uma falácia e querer aplicar o termo a uma parte da sociedade, um engano. Se falarmos em elites e não-elites, talvez compreendamos melhor como a sociedade se organiza hoje em dia: ou seja, entre aqueles que detêm o poder económico, político, social, cultural, e os que o não detêm.  Mas mesmo assim deixaremos de fora certas franjas marginais, os não alinhados com esta organização.
O povo existe e não existe. É transitório, falso. Não é homogéneo, não se pode representar, e está sempre em contradição a sua própria ideia. Porque como bem referiu Bluteau, ou obedece com vileza, ou domina com arrogância.

O Historiador.

V. Magalhães Godinho (C) José Ventura / Expresso

 O ofício de Historiador já foi respeitado em Portugal.
Alexandre Herculano era ouvido pelos políticos, Oliveira Martins constituiu uma espécie de decano da sabedoria oitocentista e, mais recentemente, a perda de A. H. de Oliveira Marques originou um irremediável vazio na cultura portuguesa. Bem sei que José Mattoso assume ainda o papel de uma mítica figura, a que se recorre, de quando a quando, para questionar sobre o esplendor do Passado e honrar a intelectualidade a partir da ideia do velho sábio, entretido entre alfarrábios, a compilar dados inúteis que ninguém lê ou lerá a não ser ele próprio. Mas os últimos anos têm levado o resto do valor da figura do Historiador. E agora mesmo desaparece Vitorino Magalhães Godinho, um homem inconformado, como todos o deveriam ser.
Vendo bem, o grande problema na forma como se olha para o ofício de Historiador é o de nunca o considerarmos como um inadaptado, como alguém que ousa falar contra. O Historiador, para o público comum, é um ser inerte, acomodado, bibelot decorativo de arquivos e bibliotecas. Em último caso, um animador de palestras ou de comemorações de centenários, às vezes agitador de intelectuais ou entretenimento ligeiro para telespectadores curiosos. E a culpa deste cliché acaba por ser dos próprios.
Primeiro, porque os Historiadores, aqueles que acreditam que fazem ciência, que escrevem para o desenvolvimento do conhecimento colectivo, admitem que a História seja mal tratada. Todos os dias as Câmaras Municipais publicam “monografias” redigidas a título gratuito por amadores. Desde logo, o Historiador passa a ser um estoriador, um carola que vive de ar e vento e escreve uns artiguelhos por simples diversão. Aliás, qualquer indivíduo minimamente instruído parece mais do que qualificado para escrever História, desde o comentador político ao jornalista. E para um Presidente de Câmara cujo objectivo maior é encher o seu município com rotundas, chafarizes e sinais de trânsito, e exaltar estas hediondas obras, qualquer livro com fotografias e alguns textos laudatórios é passível de constituir edição maior da História Local.

Pois nenhum historiador clama contra isto. Nem a Academia Portuguesa da História, cujo objectivo principal devia ser o de zelar pela preservação da Memória nacional é capaz de se insurgir contra esta “deseducação” massiva que alimenta bibliotecas escolares, como se fosse possível levar a sério a prosa de um médico ou de um operário só porque leram meia dúzia de verbetes no dicionários do Pinho Leal!
Depois, o Historiador escreve quase sempre de si para si. [Ler mais ...]

Sorry, old republican chaps!

Royal Wedding Posting

Pode ser um exagero, pode ser uma lamechice, pode ser excessivo em tempos de crise. Mas a euforia não se esconde, só os mais tristes não gostam de uma história de amor e dinheiro gera dinheiro. Lamento muito pelos republicanos que nos dias que correm espumam mais raiva do que o habitual mas, caros amigos, a cerimónia vais ser transmitida a biliões de pessoas, milhões vão estar presentes e, provavelmente a maior parte do mundo (que é feminina) queria estar no lugar da Kate. É certo que segundo as últimas sondagens 10 por cento dos britânicos queria ter uma república, mas acho melhor não passarem pelo vexame republicano da Austrália que viu negado os seus “democráticos” intentos pelo referendo de 2005. E certo é também que nestes dias aumentam os clamores moralistas sobre os gastos daquela gente que vive o conto de fadas. Porém, no país de Oscar Wilde, toda a publicidade, mesmo a má, é boa. Sugiro aos que nunca sonharam que no próximo dia 29 desliguem a televisão, a rádio e que nos dias a seguir não leiam jornais. Vai ser doloroso.

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