José Afonso: A busca da utopia


A 28 de Fevereiro de 1987, 5 dias depois da morte de José Afonso, José A. Salvador publica uma longa biografia do cantor no «Expresso». Aqui fica:

«Mandei-lhes um telegrama. Podes pôr isso lá no jornal?»
Olhei José Afonso ainda surpreso pelas suas palavras ciciadas quando o visitei em finais de Junho de 1986. A doença avançava a olhos vistos e fitei-o de novo sem perceber totalmente o alcance da sua pergunta.
Instantes depois tudo se esclarecia: o cantor desejava publicitar que enviara ao Presidente da Guiné-Bissau Nino Vieira um telegrama de apoio para que não fossem fuzilados os seis condenados à morte envolvidos no caso Paulo Correia. Ao tomar esta atitude, José Afonso invocou razões de humanidade e as tradições humanísticas do PAIGC fundado por Amilcar Cabral.
Mesmo aqui, na aparente dissonância em relação ao Partido no poder em Bissau, José Afonso não questionava o processo político guineense nem o apoio que mantinha em relação a todos os movimentos de libertação africanos das ex-colónias portuguesas.
De resto, a realidade colonial que conheceu de perto, sobretudo em Moçambique, foi marcante na sua formação política e até na sua música.
Sempre de costas para o poder, apenas se lhe reconhecem dois períodos, ou situações, em que lhe concedeu o seu apoio: [Ler mais ...]