Não é o fim nem o princípio do mundo

Passaram três meses e o Manuel António Pina já nos fez falta muitas vezes. Já não me acontece pegar no JN e virá-lo para começar pela última página, mas andei semanas a fazê-lo. Imagino que não fui a única. Depois chega uma manhã em que nos lembramos e o jornal fica intocado sobre a mesa. Resignamo-nos às ausências. Se todos os grandes poetas fazem falta, o MAP cronista não o faz menos. Ele sabia que tudo é política e não voltava às costas a nenhum tema. Foi um crítico mordaz e lúcido deste e de outros governos, escreveu sobre economia, direitos sociais, educação, desemprego, crise, desigualdade. E quando lhe apetecia, enxotava a política para fora da sala, e sentava-nos ao lado dele para contar-nos coisas que realmente importam, como a notícia de que haviam nascido três melros na trepadeira do muro do seu quintal.  [Ler mais ...]

Medalha de ouro

Para Ferreira Fernandes por esta crónica olímpica .

Vulcão como Nós

A relação entre certo Poder e certa Corrupção atingiu a proverbial razão directa entre a cavadela e a minhoca. Mas não faz mal, porque já não somos povo mas público apenas. Não é isso porém o que hoje aqui me move.
Para entreter o público, e nem de propósito, tivemos aquela maluqueira do vulcão com sua nuvem de cinza à escala multicontinental. Julgo que foi providencial, a gireza do fenómeno. Pela primeira vez, e só porque encurralados nos nossos aeroportos de feira popular, os estrangeiros turistas perceberam o que os Portugueses sofrem há coisa de cinco anitos: não poderem sair daqui nem terem alternativa de ir a nenhures.
Só pela graça de Deus é que o nevoeiro vulcânico não coincidiu com a visita próxima do chefe de vendas máximo do mesmo alegado Deus. Sua, dele, Santidade, em o Maio que aí vem, já poderá imitar o voo dos anjos com escala na nuvem que quiser. E reforçar em Fátima que a pedofilia é coisa dos homossexuais, não dos padres irlandeses, norte-americanos, alemães, canadianos ou da nossa viática e viriática Beira Alta etc.
Com ou sem vulcão, quem não há-de voar longe é o poeta Alegre, esse grande Exilado de Argel, esse Bardo de Águeda, essa vítima recorrente do Marajá das Seychelles, vulgo Mário Soares. Há-de ser tão próximo Presidente para o ano como o Sporting campeão este.
Tudo isto, afinal, é justo e bom. E o público agradece, até por vingançazita daquela meia dúzia de meses que o poeta Alegre esteve na folha de pagamentos da Emissora Paroquial, ou Nacional, a ponto da reforma de uns milhares de tostões dos novos que só por isso lhe cabe. Quando, e se, chegar a votos, há perceber que há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que diz vulcão.
Deixando o senhor por ora em paz, tenho algum receio do dia seguinte ao do levantamento da tal nuvem do tal vulcão. O meu receio provém da certeza-certezinha de que, por mais límpida e solar venha a próxima manhã, nos continuaremos a não enxergar como Povo nem um palmo à frente do nariz.