Para NÃO Acabar de Vez com a Cultura

Nem sempre concordo com Daniel Oliveira. Esta é uma das vezes em que concordo absolutamente e assino por baixo.

Não há indústria do calçado, do têxtil ou do mobiliário que sobreviva sem bons designers. E não há bons designers sem bons artistas plásticos. Não há desenvolvimento das telecomunicações, dos novos media e do entretenimento sem conteúdos. E não há conteúdos sem desenvolvimento das artes. Não há turismo competitivo sem atividades culturais. E não há atividades culturais, incluindo as do puro entretenimento, sem cinemateatroliteratura. Não há cinema comercial sem o experimentalismo do cinema de autor. Não há marketing sem publicidade, não há publicidade sem realizadores e guionistas.

Tobis

Temos sido bombardeados de más notícias. Desde o aumento brutal dos combustíveis, aos raides surpresa as reformas antecipadas, aos zigues zagues da reforma administrativa, à perda do poder de compra, à instabilidade laboral na função pública, ao encerramento anunciado de unidades hospitalares, empresas, fundações e associações públicas.

Desculpem ocupar o nosso tempo com algo de menor importância quando há pessoas que passam dificuldades e não conseguem ver a luz no final do túnel.

No meio desta tempestade pouco tempo há para falarmos de políticas culturais, de língua portuguesa – salvo acordo ortográfico – e da salvaguarda da nossa identidade cultural.

É de crucial importância a publicação, em Diário da República, da designação do acervo da Tobis como património de natureza arquivística e audiovisual.

Que os angolanos fiquem com os estúdios mas estes arquivos tem de ser devidamente tratados e disponibilizados ao público como o verdadeiro Tesouro Nacional que são.

Basta ler parte do preambulo para sabermos que nesse arquivo temos alguns dos mais importantes filmes dos anos trinta e quarenta. Desde Maria Papoila, (Leitão de Barros, 1937), O Pai Tirano (António Lopes Ribeiro, 1941), Aniki-Bóbó (Manoel de Oliveira, 1942), O Costa do Castelo (Arthur Duarte, 1943), ou O Leão da Estrela (Arthur Duarte, 1947).

Ser Gente

adão cruz

Quando eu era criança, diziam-me os meus pais que eu tinha de fazer tudo para ser gente. Ser gente? Mas o que é ser gente? [Ler mais ...]

IVA na cultura

Não tenho nada contra a cultura, até acho que a cultura, como a restauração, os artigos de vestuário e os refrigerantes (ou a Coca-Cola) deveriam estar sujeitos à taxa mínima, se possível isentos de IVA. Também sei que as receitas da cultura não devem representar muito em termos de receitas fiscais, talvez seja esta a principal razão de o Governo ter cedido, mas não percebo por que é que se criam exceções quando sabemos que há aumentos que serão bastante mais injustos e destrutivos para algumas famílias portuguesas.

Sei perfeitamente que estamos a atravessar um período em que a racionalidade e/ou a justiça das medidas não são os pontos de discussão mais importantes, mas impõe-se o mínimo de coerência.

A publicidade das atividades culturais já é patrocinada com o nosso dinheiro na televisão pública; os atores, realizadores e afins já têm tempo de antena mais do que suficiente para promoverem os seus espetáculos (o que não acontece com as outras áreas), por que motivo continua a haver tamanha descriminação positiva em relação a estas atividades?

Texto de João Pinto / Cortesia de Criticamente Falando

Gente Burra

Voz – Diga nomes de países da América do Sul.

Cátia – América do Sul não sei, voz, por acaso não sei.

Voz – Nem um?

Cátia – Hummm… (longa pausa)… áfrica? não sei.

Oh Cátia, qualquer dia acabas o 12º nas novas oportunidades…

A psicanálise da homossexualidade

divã de Freud

O divã de Freud

Após lançar rascunhos sobre a psicanálise, o que era dito pelo cientista em questão sobre a homossexualidade? Bem sabia ele quais eram as suas preferências. Era casado com a sua mulher Marta, com a qual tinham já quatro filhos. Ela já não queria mais e solicitou separar quartos.

Como judeu, o Talmude proibia a masturbação e o amor entre pessoas do mesmo sexo. No entanto, como diz na sua auto análise, sentia uma certa paixão pelo seu cunhado, casado com a irmã da sua mulher. O livro de Didier-Ansieu, de 1959, L’Auto-analysede Freud, Payot, Paris, traduzido ao luso-brasileiro em 1990, confirma esta asserção. Ninguém diz que Freud teve opções pelo mesmo sexo, mas o seu celibato obrigatório, levava-o a procurar sentimentos de acolhimento, por causa da sua mulher o ter mandado ao quarto vizinho. Como analisava no texto sobre resiliência, todo o ser humano precisa de afectividade e Freud tinha apenas a sabedoria dos seus discípulos e as queixas dos seus doentes e a [Ler mais ...]

A religião como teoria da reprodução social

casal namoradosUm ensaio com semelhante título deveria constituir um debate alargado e aprofundado de várias centenas de páginas. Os conceitos de religião e de reprodução social são, por si só, controversos, estando a proposta de trabalho que o título encerra em desacordo com as melhores hipóteses de estudo do campo religioso. Desde que Tylor (1871) e Frazer (1887), na perspectiva evolucionista e positivista (racionalista) do século XIX, decidiram que a religião era o preâmbulo da ciência, o tema tem sido debatido no campo do ideológico. As próprias contribuições de Marx e Engels (1844, 1846, 1867, 1878, 1892) abordaram geralmente a religião enquanto um conjunto de representações que desaceleram a passagem de uma a outra forma de trabalho na história dos povos. Durkheim e a tradição que fundou, prolongada em Malinowski, Radcliffe-Brown, Mauss e Lévi Strauss, separam do campo do quotidiano os assuntos que constituem matéria de acções e pensamentos que são criados mas não entendidos.

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E se privatizássemos a ideia de Ministério da Cultura?

 

 O ministério da Cultura é, como todos os outros, apenas a extensão de um governo. Independentemente de quem está à cabeça, se existe ou não, não passa de uma filial político-partidária. É certo que existiram consulados ministeriais mais activos do que outros. O de Manuel Maria Carrilho, apesar de muitas críticas, conseguiu dinamizar a  cultura pública e os seus múltiplos organismos. Mas por muito que se discuta, discute-se o irrisório, a banalidade. Gabriela Canavilhas desfila pelos salões, sorri, distribui gracejos. Umas pianadas. Talvez isso faça dela uma excelente ministra: o existir, apenas. Como até há bem pouco, o ser-se directora de Museu, para cujas habilitações concorriam, em primeiro lugar, aquelas damas que sabiam tocar piano e falar francês, Canavilhas encarna o papel na perfeição. O resto são fait-divers. O Ministério da Cultura é, antes de mais, a sopa dos pobres: para quem circula lá dentro como cliente de um partido ou, cá fora, dos artistas que aceitam todo o tipo de subsídios, desde que isso os mantenha a trabalhar. O MC não passa de uma extensão da Segurança Social.
E, por isso é que se discute uma banalidade: para quê tanta tinta sobre se irá existir, ou não, um Ministério da Cultura, se tudo o que se passa neste Ministério é, isso sim, e no mínimo discutível?
Por que não privatizar a ideia do Ministério? Por que não, traçar uma estratégia de verdadeira dinâmica nas extensões que dele dependem? Conferir estatuto de verdadeira independência a certas organismos como ao Igespar ou aos Museus Nacionais, por exemplo. Como é possível que o Igespar, cuja função é superintender e salvaguardar o património nacional esteja submisso aos interesses político-partidários frequentemente financiados pelos favores da construção civil e do asfalto? O património e o ambiente (outro ministério aberrante) deviam reger-se por fundos próprios, na directa administração de instituições público-privadas com poderes muitos específicos que o próprio Estado só pudesse contestar a nível judicial. Caso contrário, as situações como as do Tua, em que alguns arqueólogos, pressionados pelas chefias, chumbaram o interesse histórico e patrimonial de uma linha férrea centenária, continuarão a suceder-se.
A ideia de um ministério meramente formal, que exista para cortar fitas, distribuir benesses e prémios a uma elite endogâmica é que devia ser discutida, e não se o PSD vai extinguir o ministério. Nós sabemos – conhecemos muito bem, aliás -, qual são as estratégias do PS e do PSD para a cultura. Ambos os partidos estão no poder há tempo suficiente para perceber que qualquer um deles e cada dos seus apaniguados encaminhados para o MC não entendem, nem precisam entender o alcance e o valor da cultura. Bom, e talvez tenham alguma razão.
Os livros e o teatro não dão votos, nem passam cheques. Mas aí já teríamos que discutir os gostos do “povo”. E o povo, afinal, é quem mais ordena.

O Historiador.

V. Magalhães Godinho (C) José Ventura / Expresso

 O ofício de Historiador já foi respeitado em Portugal.
Alexandre Herculano era ouvido pelos políticos, Oliveira Martins constituiu uma espécie de decano da sabedoria oitocentista e, mais recentemente, a perda de A. H. de Oliveira Marques originou um irremediável vazio na cultura portuguesa. Bem sei que José Mattoso assume ainda o papel de uma mítica figura, a que se recorre, de quando a quando, para questionar sobre o esplendor do Passado e honrar a intelectualidade a partir da ideia do velho sábio, entretido entre alfarrábios, a compilar dados inúteis que ninguém lê ou lerá a não ser ele próprio. Mas os últimos anos têm levado o resto do valor da figura do Historiador. E agora mesmo desaparece Vitorino Magalhães Godinho, um homem inconformado, como todos o deveriam ser.
Vendo bem, o grande problema na forma como se olha para o ofício de Historiador é o de nunca o considerarmos como um inadaptado, como alguém que ousa falar contra. O Historiador, para o público comum, é um ser inerte, acomodado, bibelot decorativo de arquivos e bibliotecas. Em último caso, um animador de palestras ou de comemorações de centenários, às vezes agitador de intelectuais ou entretenimento ligeiro para telespectadores curiosos. E a culpa deste cliché acaba por ser dos próprios.
Primeiro, porque os Historiadores, aqueles que acreditam que fazem ciência, que escrevem para o desenvolvimento do conhecimento colectivo, admitem que a História seja mal tratada. Todos os dias as Câmaras Municipais publicam “monografias” redigidas a título gratuito por amadores. Desde logo, o Historiador passa a ser um estoriador, um carola que vive de ar e vento e escreve uns artiguelhos por simples diversão. Aliás, qualquer indivíduo minimamente instruído parece mais do que qualificado para escrever História, desde o comentador político ao jornalista. E para um Presidente de Câmara cujo objectivo maior é encher o seu município com rotundas, chafarizes e sinais de trânsito, e exaltar estas hediondas obras, qualquer livro com fotografias e alguns textos laudatórios é passível de constituir edição maior da História Local.

Pois nenhum historiador clama contra isto. Nem a Academia Portuguesa da História, cujo objectivo principal devia ser o de zelar pela preservação da Memória nacional é capaz de se insurgir contra esta “deseducação” massiva que alimenta bibliotecas escolares, como se fosse possível levar a sério a prosa de um médico ou de um operário só porque leram meia dúzia de verbetes no dicionários do Pinho Leal!
Depois, o Historiador escreve quase sempre de si para si. [Ler mais ...]

a religião é a lógica da cultura


Für Elisen    Beethoven

A religião é a lógica da cultura*
Para a nossa filha Camila Iturra- González de Isley, no dia do seu Aniversário.

Retirada do livro Em nome de Deus. A religião na Sociedade contemporânea, livro escrito a partir do Seminário sobre Sociologia da Religião, coordenado pelo docente de UBI, Donizetti Rodrigues, Afrontamento, 2004- O texto tem sido reescrito com a data de hoje.

1. Introdução.

Falar da religião como lógica da cultura, é uma hipótese ou proposição que nem sempre é entendida com facilidade. Por vários motivos. O mais evidente, penso eu, é o processo

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Peidódromo Nacional

Ontem, a noite de Prós e Contras (contra quê?) atingiu o seu pleno e Fátima Campos Ferreira não teve de poupar cordas vocais, coisa que honra lhe seja feita, raramente faz.

A RTP convidou umas tantas sumidades que nos betões daquilo a que se designa por “universidade”, fazem render a faina da recolha do seu marfim. A palavra universidade é por esta gente tida como uma espécie de condomínio medieval e a posse de um testemunho de uma passagem por esse purgatório, permite o mastigar entre risos escarninhos, de nomes com Y, Th, K e citações a bel-prazer.

Refastelado no meu sofá e com a Luna ao colo, fui trincando umas bolachas ricanela, atentamente seguindo um concurso de basófias mais ou menos circunspectas. Abundaram os sobrolhos carregados, os esgares indignados e os sorrisos de contentamento pelo imaginado sucesso da auto-complacente empáfia. Uns tantos remoques “pró do lado” – José Reis e João Salgueiro – e um longo empanturrar de “sonhos, ousadias, quereres e paradigmas”. É claro que não entendi patavina e o rebuscado das receitas era de uma ordem tal, que não se descortinava o peixe da carne, nem os nabos dos alhos e tudo isto condimentado com doses cavalares daquelas bem conhecidas especiarias descobertas algures no século XIX e que tão bons resultados deram nos ruminantes ocidentais. A prova disso, é o constante avolumar de gasosas barrigonas que de vez em quando convém desaustinar através do pipo bocal que na melhor das hipóteses, evita a mais óbvia e usual válvula terminal do sistema digestivo. Para isso, temos as tv’s da “tudoemaisalgumacoisalogia” actual. [Ler mais ...]

"Aquilo" *

Deve estar radioso António Mexia; hoje, acolitado pelos prestimosos ministérios do Ambiente e Cultura, várias autarcas locais (em estado de euforia), e vária outra dessa gente progressista que nos governa (a nós, não a eles), foi iniciar a construção de uma barragem inútil para, dizem, produzir electricidade!…

O Vale do Tua perece assim face aos interesses da Nação que, esses mesmos interesses, tornaram os municípios do Douro os mais pobres de todo o Reino Maravilhoso de Trás-os-Montes, precisamente desde que as salvadoras barragens começaram a chegar;

Depois a salvação de Trás-os-Montes era o IP4, essa desastrosa estrada pejada de cadáveres lançada por Cavaco, o mesmo que, falando ainda recentemente de comboios, se manifestou seu adepto mas que, entre 1988 e 1992 tratou da tosse a cerca de 25% da rede ferroviária.

Tudo isto acontece num pequeno país que gasta o dobro do petróleo** per capita da Dinamarca, que tem o maior rácio de km de auto-estrada por habitante, o único em que a rede de auto-estradas é mais extensa que a rede de vias férreas, e com das piores taxas de salário e mobilidade da Europa.

Portugueses, se morrerdes todos embrenhados numa bola de petróleo em fogo, electrocutados e afogados logo a seguir, será pequeno castigo… aplaudirei de pé.

* sou imparável…

** o nosso problema – diriam iluminados tudólogos lisboetas – é mesmo esse, a falta de produção energética, não o excesso de consumo…

A religião é a lógica da cultura

Sir Eward Burnett Tylor, pai fundador da Antropologia-1

pai de ciência antropológica, define em 1871 o conceito cultura

De entre os fundadores da Antropologia, é preciso salientar ao cientista que dá título a este texto e a obra que os fez famoso, ao definir o conceito mais usado pelos praticantes da nossa ciência, o de cultura. Conceito que não refere pessoas que saibam mais de ópera, leitura, ciência, não, é apenas uma definição de hábitos costumeiros para realizar as suas actividades, rituais, magia e definir a moral dos acontecimentos sobre a base das ideias referidas e analisadas neste texto. [Ler mais ...]

marx, durkheim e a teoria da infância

As crianças no devem ser punidas, devem ser ensinadas

Para os meus discentes do Curso de Antropologia do ano académico 2001-2002, que me motivaram para a pesquisa destas ideias. Estou agradecido, mudaram os meus pensamentos…

Não é à infância de Marx e Durkheim que eu me refiro. Refiro-me ao que eles afirmaram sobre a infância: meu tema preferido.

Pouco se sabe do facto de Émile Durkheim ter usado, conjuntamente com a sua equipa, o método do materialismo histórico para a análise da vida social. E, no entanto, no seu livro escrito em 1888, publicado como obra póstuma em 1928, Le Socialisme, Durkheim, faz uma apreciação da obra de Marx, editada em Dezembro de 1897, na Revue Philosophique, sob o título Essais sur la conception materialiste de l’histoire.

Que Durkheim saiba de infância, é um dado adquirido. Que Durkheim se baseie na obra da Marx, é desconhecido.

No seu livro, também póstumo de 1925, L’Education Morale, Durkheim diz que o filho de um filólogo não herda um único vocábulo. O que a criança recebe dos seus pais, são faculdades muito gerais (…), há uma considerável distância entre as [Ler mais ...]

A educação e a cultura no OGE de Sócrates

Passo a passo, a proposta de OGE do governo de Sócrates vai-se perfilando no horizonte dos portugueses. Trata-se, efectivamente, de perspectiva medonha para centenas de milhares de famílias. A ser viabilizada, grande parte dos cidadãos viverão 2011 como o “annus horribilis” do pós-25 de Abril – e vá lá saber-se quantos anos mais se seguirão. Ou então, o FMI o ditará. Estamos encurralados, sem cápsula que nos retire do aterro.

Sócrates e as suas equipas conduziram o País a situação muito complexa, em resultado de lemas  de  incompetência e de falta de honestidade política – fiquemos por aqui. Hoje, a credibilidade internacional de Portugal está, de facto, deteriorada, como alegam os nossos banqueiros. Todavia, estes omitem terem sido dos principais impulsionadores da crise financeira com que nos debatemos. Convém lembrar-lhes o fortíssimo protagonismo na estruturação dos chamados ‘consórcios’ para obras faraónicas, em simultâneo com a destruição do tecido económico; ou seja, as políticas seguidas desde Cavaco Silva. Sócrates acabou por desferir o golpe fatal e diria inevitável, mesmo que o PSD renuncie.

Regressemos, entretanto, à proposta governamental do OGE. Por ora, detenhamo-nos, apenas, na redução das deduções de despesas de educação no IRS . Esta “simples” medida constitui outra mácula do ataque disparatado ao sistema educativo, já vitimizado pelas ‘Novas Oportunidades’. O jornal ‘Público’, em título, ainda chegou a anunciar o aumento do IVA dos livros de 6% para 23%. Se assim sucedesse, seria mais um atentado ao papel da literatura na formação cultural dos portugueses, em acréscimo ao que já se verifica nos programas escolares e é denunciado por Maria do Carmo Vieira em “O Ensino do Português”.

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os amigos

mãos solidárias e recíprocas, símbolo de que dá e nada solicita

Amigo é um substantivo muito usado nas conversas do dia-a-dia. Apesar de estar definidos en todos os dicionários, acaba por ter uma séria de significados. O que me parece menos meigo, é quando a palavra é usada em detrimento de outras pessoas: oiça meu amigo, é melhor ir embora e deixar-nos em paz. Ou, se o substantivo é usado como apelativo: hei amigo, ande cá…. Ou, mais grave ainda, se referimos alguém de importância na vida social, na sua ausência: esse deputado é muito meu amigo, confie em mim… Ou o candidato a Presidente da República, o Primeiro-ministro, o nosso chefe, são incluídos na conversa como pessoas da nossa intimidade. Durante uma época da minha vida, fui enviado ao Chile pelo meu Catedrático da Universidade inglesa onde estudava e ensinava, houve um alçamento militar e o nosso Presidente foi assassinado, como tenho referido em outros ensaios de este sítio de debate; o meu Chefe, sabia o que era um campo de concentração, tinha passado quatro anos em Auschwitchz, (Auschwitz-Birkenau é o nome de um grupo de campos de concentração localizados no sul da Polónia, símbolos do Holocausto perpetrado pelo nazismo. A partir de 1940 o governo alemão comandado por Adolf Hitler construiu vários campos de concentração e um campo de extermínio nesta área, então na Polónia ocupada. Houve três campos principais e trinta e nove campos auxiliares). Bem sabia Sir Jack Goody o que eu [Ler mais ...]

o crescimento das crianças – Tempo e ciclos (3.ª parte – I)

nativo Mapuche,Chile-Argentina, membro do clã Picunche, Chile

B- Tempo

 

Queira lembrar o leitor, que denomino tempo á cronologia. Esse, que era delineado enquanto expunha saber. E pense o leitor, que talvez Jack Goody (1973,1976), bem como os seus mestres Meyer Fortes (1938 e 1970) e Evans Pritchard (1962), todos eles mestres meus também-, tenham tido razão ao correlacionar o tempo e a estrutura dos grupos sociais, entre os quais, o doméstico. Como debato em outro texto (1991). O tempo é o crescimento da experiência. O tempo é a reprodução do grupo. O tempo é o ganhar saber do indivíduo. O tempo, em fim, é a entrada do indivíduo aos vários sítios sociais. Quer a sua entrada ao saber personalizado, quer ao saber do grupo, aberto como um leque. Cada momento da vida, é entendido de forma diferente, conforme a experiência pragmática que a pessoa desenvolve e incute no seu entendimento. Nas suas ideias, nas suas alianças com os outros, nas suas separações dos outros, nos seus lutos, nas suas novas alianças. Victoria é muito característica. Uma pequena Picunche, no seu tempo de criança subordinada ao lar, que vive as experiências dos seus pais, sem dar por isso. Há já dois irmãos e uma irmã, bem mais velhos do que ela, quando ela aparece na História. Germanos, como em Antropologia denominam aos irmãos. Germanos, que já

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as culturas da cultura: infantil, adulto, erudito (II parte)

continuação daqui

a cultura do adulta

adulto a se habilitar para a corrida pela vida

2ª Parte excerto um livro meu: O imaginário das crianças. Os silêncios da cultura oral

1ª e 2ª edição, Fim de Século. Uso o texto de 2ª edição, 2007

A cultura do adulto

Tal como a infância, parece-me que a vida adulta não tem idade. É verdade que há textos legais que definem capacidades, com base na cronologia; contudo, o convívio que tenho mantido com tanto ser humano ao longo da vida, nas minhas diferentes idades e em continentes diversos, assim como em trabalhos de campo diversificados e prolongados, tem-me feito pensar que a cronologia está correlacionada com uma multiplicidade de factores.

Um deles parece ser o lugar social que se ocupa: quem define o que deve ser feito e quem obedece com o seu desejo de aceitar.

Um outro factor diz respeito ao maior ou menor envolvimento e entendimento que uma pessoa tem dos valores aceites pelos indivíduos de um grupo, classe, país ou Estado. Outro ainda diz respeito à passagem do tempo histórico que, em correlação com a tecnologia, vai acumulando experiência social que constrói uma memória. A lembrança de pessoas que convivem é heterogénea, porque foram criadas em épocas diversas, ainda que necessariamente próximas. Dessa lembrança nascem a capacidade de entender contextos e a aceitação de aspectos da vida de que gostamos e que nos desagradam, assim como se desenvolvem alianças estratégicas e associações.

O ser humano, como tenho observado, é mutável, porque é resultado da história. E a ideia que temos do adulto é apenas um paradigma, uma definição, uma expectativa: o seu comportamento varia conforme os objectivos individuais e sociais. Quer nos bairros quer nas aldeias e etnias que estudei, os mitos definem expectativas e comportamentos, aparentemente hegemónicos, definindo objectivos comuns, coincidam ou não com o objectivo da construção de cada um através da sua vida. Um outro factor é, ainda, aquilo em que se acredita e o futuro que se espera alcançar.

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mis nietos

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como aprender siendo abuelo

Los vi ese día, todos ellos juntos, a hablarme por es maravillosa máquina llamada Skype. No son muchos, eran cuatro, uno se perdió al nacer, ese pequeño de una hora, que ahora vive en nuestras emociones y sentimientos. Como los otros tres, que están en nuestra presencia cuando es posible, y se pelean entre ellos para hablar con el Grand Pa, Oppa Daddy o el Abuelo, depende de su lugar de nacimiento y del idioma que hablen. [Ler mais ...]

A ministra da cultura apoia a tauromaquia!

Eu já confessei que nunca entrei numa praça de touros, e tambem já disse que há actividades económicas e tradições que aconselham a não tomar decisões apressadas, mas não estava preparado para esta decisão da Ministra.

Antes de tudo, porque parece ser a primeira decisão, ninguem sabe se temos ou não política cultural, há uns subsídios que se retiram e que depois se voltam a dar, mais do mesmo, a verba inscrita no Orçamento não se percebeu bem se cresceu ou se diminuiu, os apoios desapareceram numa primeira leva, ou não, tambem não estou certo, enfim, uma baralhada sem fim!

Gabriela Canavilhas, é uma muito meritória pianista e gestora cultural, deixou-se perder com a luz que emana da função ministerial, não acrescenta nada, como aliás, outras e outros colegas que se desaparecessem ninguem notava. Mas abriu uma secção na Comissão para a Cultura, a favor da tauromaquia, com representantes do estado, granadeiros, toureiros e, claro, com a falta de sempre, ninguem ouve os touros.

No outro dia foi falar à Assembleia da República e parece que chamou ao Jorge Luis Borges, José, o que numa ministra da cultura deu azo a que o Pacheco Pereira, lá  da última fila, a tenha corrigido, com um aparte estridente.

Tudo coisas escusadas se lhe oferecessem um piano!

PS: a bem da verdade. é linda!

Barclay James Harvest em Vila Nova de Gaia

Por esta não esperava eu, Barclay James Harvest nas arribas de Gaia. É hoje às 22h, oferta gentil da autarquia. Eu vou de metro.

Como Se Fora Um Conto – O Descalabro do J

O Descalabro do J

O estrondo, enorme e contínuo, baralha as ideias, impede o pensamento e perturba o imperturbável caminhar das horas e dos dias.

As casas, os prédios e as pontes, caem como baralhos de cartas, lançando a destruição à sua volta. As estradas, as ruas e os caminhos, desaparecem, deixando no seu lugar, uma amálgama de trilhos sem sentido e sem indicação de rumo.

No meio de tanta desgraça, J sente-se perdido. Olha à sua volta e só a devastação e a ruína se encontram à vista. O desespero ameaça tomar conta das suas acções. As soluções não existem, os caminhos não se vêm, a solidão está presente.

Os familiares, mesmo que voltassem com os seus esforços e cheios de boa vontade, não apagariam a tristeza nem acalmariam a desesperança.

J é a imagem personificada do desânimo.

Ao seu lado, não tem companheiros de infortúnio. Ninguém repara no seu sofrimento, ou ao menos se importa. Cada um tem a sua própria dor. E as dores dos outros são sempre privadas. [Ler mais ...]

José Garcia Domingues

Realizou-se hoje em Silves uma sessão de homenagem ao Dr. José Domingos Garcia Domingues, considerado o maior arabista português do século XX,  na altura em que se comemora o centésimo aniversário do seu nascimento.

A sessão, organizada pelo Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves (CELAS), contou com a presença de três palestrantes, o Prof. Dr. António Rei, o Prof. Dr. António Dias Farinha e o Dr. Adalberto Alves, que evocaram a grande figura que foi Garcia Domingues e o contributo que deu para o conhecimento da história Luso-Árabe.

Durante a sessão foi lançada a segunda edição da sua obra “História Luso-Árabe”, em cuja introdução escreve o Dr. Adalberto Alves:

“Se não vivêssemos, actualmente, num tempo de total abastardamento ético, político, cultural e social, certamente que Garcia Domingues teria homenagens a nível nacional, como era seu direito e nosso dever.”

O paradigma da Grande Mesquita de Cordoba

 A história do Gharb Al-Andalus desperta sentimentos e emoções apaixonadas, discussões acesas e opiniões contraditórias. Foi um espaço de convivência de raças e etnias, de modelos de organização social e política, de experiências espirituais, de florescimento cultural. Apesar de, para muita gente, ser uma história de antagonismos e violência, para mim, quanto melhor a conheço, mais me convenço que foi essencialmente uma história de respeito e tolerância.

 Várias vezes me interroguei sobre o facto de as disputas territoriais entre cristãos e muçulmanos terminarem invariavelmente com a demolição dos locais de culto de uns e outros. Inclusivamente na chamada “reconquista cristã” (termo que repudio), as mesquitas eram inicialmente “purificadas” (este outro termo não repudio, abomino) para nelas se celebrar o culto cristão, e mais tarde acabavam por ser demolidas. Demolidas porquê? Por ódio religioso? Por intolerância? Por violência gratuita?

Ao visitar a grande Mesquita de Cordoba fez-se luz no meu espírito.

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Como Se Fora Um Conto – O Sr Adérito, Engraxador

Já lá vão muitos anos, mas as lembranças fluíam com rapidez.

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Sentado à mesa de um café da baixa Portuense, olhei os meus sapatos e pensei em quanto me saberia bem que aquele café tivesse um engraxador. Apeteceu-me ter os sapatos limpos, escovados e a brilhar.

Se ao menos ainda houvesse engraxadores! Já há muito que os não via. Os últimos estavam naquela entrada da rua Sampaio Bruno, quase em frente à Casa da Sorte. Havia também um ou dois, que paravam na Praça da Liberdade, quase na esquina da rua da ‘engraxadoria’.

Antigamente, não havia café que não tivesse um, e havia trabalho para todos. Todo o homem que se prezasse gostava de ter os sapatos a brilhar. Hoje são raros, os engraxadores, já que sapatos a brilhar ainda os vai havendo, e homens que se prezem ainda há um ou outro.

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As mulheres não gostam de nós

mulher a mandar no seu home

Com justa razão, parece-me a mim. Se lermos o livro de Durkheim de 1893, A divisão social do trabalho, podemos de imediato reparar que o mestre fala do trabalho social sem mencionar o trabalho doméstico em nenhuma das suas hipóteses como analisei no meu trabalho de 2007: O presente, essa grande mentira social, Afrontamento, Porto). Fala, e bem, do trabalho organizado conforme os costumes ou mecânica, e em obediência à lei ou orgânica (disponível em: http://classiques.uqac.ca/classiques/Durkheim_emile/division_du_travail/division_travail.html). É verdade que escreve vários textos sobre o matrimónio, nomeadamente, no Egipto, Japão e Roma e da família conjugal. Mas a minha intenção não é a de analisar o que a ciência social diz sobre essa temática, é, antes, tentar entender o(s) porquê(s) de que a mulher pode não nos amar.

Assim, pretendo fazer falar os meus sentimentos, os dos meus colegas masculinos heterossexuais, e das felonias cometidas por nós em relação às mulheres. Fazer falar o coração e os factos sociais que tenho observado durante anos, nas minhas pesquisas e o que pensam outros autores que têm investigado a relação homem – mulher. Essa permanente subordinação da fêmea ao macho.

Estes dois adjectivos, retirados da forma de falar costumeiras nas nossas sociedades e em outras, denotam de imediato a minha ideia que dá título ao texto: as mulheres não nos amam. Eu, acrescentaria em sub-título: e com justa razão.

Porque é que me parece que as mulheres não nos amam? Pelo sítio social no qual a colocámos, sempre a servirem o homem com quem casaram, com quem vivem ou se amancebaram. Mulheres que sabem não serem as únicas na vida dos seus homens, que aceitam as traições que esse ser comete com outras mulheres ou com outros homens.

Nem todas andam com os seus homens nos sítios que são para homens.

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Sobre a transferência do Museu Nacional de Arqueologia

O que pode querer um Ministério da Cultura que estabelece o prazo de um mês para o Director do Museu Nacional de Arqueologia abandonar as actuais instalações do Museu?

Pretenderá que ele cumpra a ordem de serviço?

É óbvio que o Ministério sabe que a ordem não tem qualquer viabilidade de ser cumprida. Não teria, em condições operacionalmente rigorosas, mesmo que tivesse sido acatada em Agosto, como se alega.

Assim sendo, o Ministério sabe que a ordem não vai ser cumprida. Atira o Director do Museu para uma situação de desobediência. Deixa-o de mãos atadas, com a cabeça no cepo. [Ler mais ...]

PAI

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Vida fora tu correste

Passo lento, certo, seguro

Nunca foste uma alma errante

Eras fácil de encontrar

E agora que já morreste

De ti digo e asseguro

Nem todo o bom mareante

Se encontra no alto mar

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Agora, és rio, és calma

Nada te fere ou ofende

Já não tens frio

É branca e pura

A brisa que afaga a tua alma

E te acaricia com doçura

Transparente

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Já nada nos separa

Aguarda por mim

Tranquilamente

És eterno

Eu estou só de passagem

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Vou ter contigo

Repara

E nesse dia, por fim

Espera por mim

E, enquanto o relógio não pára

Guarda-me um lugar para a viagem

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Mente cultural

Para Manuela Raminhos

Crianças brincam enquanto a sua mente cultural trabalha

Parecia-me que começara o texto com uma gralha. Todo o cabeçalho ou definição deve começar por um artigo. Mas, como se trata de um conceito, retirar o artigo não é gralha, é apenas reduzir o campo de pesquisa do que se quer falar do conceito e não a universalidade do fenómeno, que acaba, assim, por nada definir. Se disser a mente cultural, falo de actividades múltiplas; se digo mente cultural, reduzo a ideia a um fenómeno que pode acontecer universalmente. E falar de Antropologia de forma hermenêutica, é aprofundar no campo do significado do conceito e não da acção do conceito, que varia de sociedade para sociedade. [Ler mais ...]