Uma bica e uma factura, ófaxavor

Noutros tempos era uma bica e um bagaço, para inebriar. Agora, é a bica e uma factura, o que também produz êxtase a qualquer amante de Kafka. Há um detalhe que me escapa neste avanço governamental. Porque é que se opta pelo aumento da complexidade papelárica em vez se simplificar? Vem isto a propósito deste dual conceito talão de caixa/factura, tão contrário ao declarado objectivo objectivo de se reduzir a economia paralela. Para contextualizar, vou contar um episódio que vivi.

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Não, obrigado, não quero recibo

Não sou fiscal do Estado, nem este me paga para andar à cata de impostos alheios. Nem sou assim tão lorpa que vá voluntariamente pagar por um bem ou serviço mais 23% do que ele me custaria sem recibo. Não, não peço recibo. E mesmo que pague o mesmo, só peço recibo se tiver alguma vantagem nisso. Caso contrário, não, não peço recibo.
Se querem que eu peça recibo, aprendam a ser justos. Aprendam a governar. Caso contrário, não vou pedir recibos para ajudar a pagar os motoristas de 21 anos do Francisco José Viegas que recebem 1600 euros por mês; ou as 1097 nomeações de Passos Coelho; ou as trocas de boys e respectivas indemnizações; ou os Grupos de Trabalho criados pelo Relvas; ou os benefícios fiscais da Banca e das SGPS; ou os salários milionários dos Catrogas deste país; ou os inúteis Planos Nacionais de Barragens; ou os Subsídios de Férias e de Natal do Cavaco e dos demais reformados do Banco de Portugal. Ou para andarem a cortar apenas aos mais pobres
Não, enquanto não houver justiça e equidade fiscal em Portugal, não tenho qualquer motivo para pedir recibo.

A eterna paralelidade dos sacanas

Um quarto da actividade económica em Portugal é paralela. Paralela em economês é o eufemismo para gajos que fogem aos impostos, mas usufruem dos impostos. Tipos porreiraços que não alcançando o supremo usufruto da parceria público-privada (desde a Lusoponte ao colégio sustentado por todos nós) roubam ao estado não pagando ao estado, mas utilizando os serviços que o estado nos presta a todos (da saúde à estrada). A versão mais esperta do chico, desde o pequeno biscateiro ao grande Dias Loureiro.

Tipos a quem roubar não tira o sono, porque na sua moral muito sua não gamam nada, desenrascam-se como diria o velho Soares, Mário.

Canalhitas, portanto. Que contam com o teu vá lá, que se lixe, quando não lhes exiges a factura (e menos pagas).

Um quarto da economia de um país em crise dava para mandar a crise passear para a sua mãe alemã num instante. Num mundo onde o offshore é lei, confesso o meu relativo desinteresse pelo biscateiro. Hoje, dia Dia Internacional contra a Corrupção, prometo que  a partir de 1 de Janeiro não me esquecerei de vós, pequenos e enormes trapaceiros: por cada cêntimo que me vai ser roubado não me esquecerei do Manel, do António, da Constância, de cada um dos que nos roubam (que o estado também é nosso), e me fazem ser roubado.

Ir-vos ao focinho seria um prazer. Na impossibilidade de o fazer, sois muitos e maiores que eu,  alguma coisa se há-de arranjar.