Saudades do império

Augusto, o menino guineense  Exposição Colonial Portuguesa 1934

Os colonialistas sem colónias querem os brasões imperiais que rondam o mamarracho de Cottinelli Telmo viçosos e tratadinhos. Indignam-se as bestas, que querem apagar a História, valha-lhes o deus em que acreditam.

Apagar a História é esconder séculos de genocídios e escravidão que não orgulham um país civilizado, são pelo contrário a sua vergonha. É esquecer que aqueles brasões insultam quem nos visita e é natural dos países que sofreram a nossa ocupação. É também a ignorância dos que metem no mesmo pacote os Jerónimos e a Torre de Belém (uma mera fortificação defensiva), que não provocam ninguém. É fingir que a memória dos impérios europeus ainda hoje mata, através das fronteiras traçadas a regra e esquadro nas conferências coloniais.

Este revisionismo cultural mostra como a arrogância dos antigos colonizadores e a sua auto-desculpabilização permanecem. É ver como em Oslo causa protestos uma bem engendrada recriação de uma daquelas expos em que os europeus visitavam os pretinhos em suas jaulas. Saudade do pretinho Augusto, que terá deliciado os portuenses, saudade da divisão dos humanos entre supostos civilizados e selvagens a quem tratavam como animais. Os canalhas restam saudosos de si mesmos, e convinha percebermos porquê.

Este post

é gesnial!

A História do Banco do Meu Avô

Carlos Paz

jose maria e filhos

Vamos IMAGINAR coisas…

Vamos imaginar que o meu avô tinha criado um Banco num País retrógrado, a viver debaixo de um regime ditatorial.
Depois, ocorreu uma revolução.
Foi nomeado um Primeiro-Ministro que, apesar de ser comunista, era filho do dono de uma casa de câmbios. Por esta razão, o dito Primeiro-Ministro demorou muito tempo a decidir a nacionalização da Banca (e, como tal, do Banco do meu avô).
Durante esse período, que mediou entre a revolução e a nacionalização, a minha família, tal como outras semelhantes, conseguiu retirar uma grande fortuna para a América do Sul (e saímos todos livremente do País, apesar do envolvimento direto no regime ditatorial).

Continuemos a IMAGINAR coisas…

Após um período de normal conturbação revolucionária, o País entrou num regime democrático estável. Para acalmar os instintos revolucionários do povo, os políticos, em vez de tentarem explicar a realidade às pessoas, preferiram ser eleitoralistas e “torrar dinheiro”.
Assim, endividaram o País até entrar em banca-rota, por duas vezes (na década de 80).
Nessa altura, perante uma enorme dívida pública, os políticos resolveram privatizar uma parte significativa do património que tinha sido nacionalizado.
Entre este, estava o Banco do meu avô.

E, continuando a IMAGINAR coisas…
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Vírus na campanha

auschwitz-concentration
O Paulo Rangel, em vez de ficar muito abespinhado com a referência feita por Manuel Alegre, devia ir estudar, já que as palavras do seu discurso que motivaram este confronto podem, de facto, ser lidas como uma séria provocação. Nas habilidades retóricas não cabe tudo. A ignorância em História ostentada por incontinentes verbais como Paulo Rangel leva-os a este tipo de situação.

Isto não é novo. Não esqueçamos a proclamação, há tempos, de Paulo Portas, segundo a qual “o trabalho liberta”, palavras, como se sabe, inscritas no portão de Auschwitz. É inteiramente legitimo, da parte de quem ouve, duvidar da inocência deste tipo de afirmações, sobretudo vindas de quem quer convencer o auditório de que é muito culto e inteligente, como acontece com estas duas personagens. Quem semeia palavras ao vento, arrisca-se a colher a tempestade das respostas.

A economia dispensa a história

Já dizia o pequeno comentador do economiquês nacional que os professores de história em nada contribuem para o crescimento e o certo é que vamos confirmando que, nesta nova Europa utilitarista, as humanidades são entretenimento para inúteis. Os resultados nem estão a demorar muito a aparecer. Desmemoriada e cega pelos números, a Europa condena-se a repetir os seus horrores.

Leia-se esta reportagem de Maria João Guimarães, em Marselha, acerca do clima de rejeição aos estrangeiros, sobretudo em zonas multiculturais, e de como os partidos nacionalistas estão a capitalizar o descontentamento face à situação económica e a desconfiança em relação à diferença. Quem tem memória de um passado não tão longínquo, como o reformado Auguste Olive com quem a repórter falou, não pode evitar as comparações: [Read more...]

Leitura recomendada a retornados   mentirosos

Uma “descolonização exemplar” teria sido possível?

Hitler descobre que manuais escolares dizem que comunismo e nazismo são a mesma coisa

Chegou aos manuais, nem por isso às novas metas educativas do 9º ano, nem é por isso que se justifica este vídeo:

mas porque realmente virou moda, a partir de uma taxonomia das ditaduras que mede mais o horror e menos a natureza social, e económica, misturar uma ideologia que nasceu para combater a outra fazê-la igual à que a derrotou, coisa tão tola como esquecer que a Rússia em geral tem uma certa experiência nas vitórias contra a Alemanha, e esqueceram-se agora mesmo muito em Berlim.

Texto (não concordando com tudo, é um bom todo) do Bruno Carvalho.

Vive la Révolution

Este artigo de Pedro Cardim é das coisas mais pertinentes que já li nos últimos tempos no que diz respeito à questão dos nacionalismos ibéricos. A questão da Catalunha é secundária, apesar de começar por ser a razão do texto. O que interessa verdadeiramente são as considerações do autor sobre o chamado “nacionalismo” português. Infelizmente, alguns comentários ao artigo são, como sempre, mostras de alguma ingenuidade e anacronismo.

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A confrangedora ingenuidade dos revisionistas

mulheres policia 1972

Há na Helena Matos historiadora (tomo aqui a palavra no sentido amplo, de quem investiga mas também daquele que divulga) uma candura e uma habilidade que me encantam. Ouço-a ainda ensonado na Antena 1 nos Sons de Abril, que nas metáforas mais poéticas dos meses tresanda a Sons de Dezembro, e apetece-me voltar para a cama, readormecido nos sonhos de uma realidade imaginada.

Talentosa, não se lhe escuta um erro, antes qual discípula do cientista político Rui Ramos nos enreda com palpitantes omissões, e o que não se conta é como se nunca tivesse acontecido.

Ouça-se a croniqueta  de hoje sobre as primeiras mulheres na PSP.  Saltita sobre a fonte (onde se disse que algumas tinham o actual ensino secundário brotam miraculosamente licenciadas) e explica tudo nada explicando: “como praticamente não havia desemprego…

Ah que saudades do Marcelo Caetano e seu  presidente de Deus Rodrigues Thomas. Bons tempos, os do anterior milagre económico ainda mais beato que o actual, faltou apenas reforçar que desemprego jovem, desse nem vestígios. A mobilização obrigatória para a guerra, a deserção e o emigrar massivo e maciço (em recorde que pouco falta para alcançarmos) são meros detalhes, uma vaga poeira que não pode estragar o retrato. Estava tudo tão bem como estava e só poderia ter ficado pior, era, não foi?

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Coimbra não é vossa

rapanço

Para quem não está a ver como é a vida na cidade que viu nascer a tal de praxe, passo a  narrar. Quinze dias do ano em particular, e muitas das terças e quintas em geral, as leis por aqui não são iguais para todos.

Hordas de bêbados atravessam as ruas a qualquer hora da noite berrando, no intervalo de elas  em coro exigirem mais caralho que as foda e eles mais cona que os satisfaça, Coimbra é nossa. Todas as regras sobre ruído e manifestações públicas são mandadas às malvas com a cumplicidade amedrontada da PSP, Polícia Municipal e Ministério Público.

Este estado de excepção leva a que o sono dos indígenas e aqui emigrantes seja um direito perdido num território com  uma constituição à parte, a que podíamos acrescentar  a esterqueira em forma de vómitos e detritos vários que temos de suportar na manhã seguinte. Mas é considerado normal numa cidade onde por exemplo o saque e a vandalização não são perseguidos, um longo historial de burlas nas contas  das festas académicas não é investigado, um simples roubo no Museu Académico é narrado ao contrário. [Read more...]

Precioso

Um mapa histórico animado  com 3000 anos da Península Ibérica, ou de como iberos nos arrumámos no nariz da Europa, e arrumaremos, num universo de séculos nenhuma fronteira é imutável.

Mapas originais em diapositivos podem ser vistas por exemplo nesta História de Espanha em 8 minutos:

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A História não voltará a ser a mesma

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A partir de um texto de Manuel Loff (no Público), e que por acaso tem uma afirmação muito discutível sobre o fado, fica para outro dia, Vítor Cunha decide desbravar os caminhos da História. Intrépido, arrasa toda a historiografia que consensualmente define a criação dos estados modernos vulgo nações nos últimos 200 anos, como banalissimamente Loff refere.

Nada disso, com o entusiasmo de quem pega num algoritmo complexo sem saber a tabuada, e a sabedoria de quem na semana passada demoliu o cálculo de probabilidades tal como era conhecido na véspera, Vítor Cunha quer a Padeira de Aljubarrota metida ao barulho, e manda um doutorado tomar chá de malvas com a ” sua tese dos 200 anos que não explica nada excepto vergar a construção de uma nação ao tempo necessário para incluir Marx“. A teoria da conspiração no seu melhor. [Read more...]

Porque o que é Justo é Justo

Relação das duas dinastias de Correios-Mores do Reino[4]

Pedro Passos Coelho preside a um governo singular. Um governo que transporta a bandeira na lapela. Um governo que descartou o 1º de Dezembro. Um governo que clama pela nossa situação de protectorado. E, para não entediar com mais «pormenores», um governo que privatizou o serviço de Correios. Mas, o serviço postal, criado como serviço público por D. Manuel I, já passou por uma fase privada, até ser «re-estatizado» por D. Maria I. E quem foi o governante que procedeu à sua privatização? Filipe III (sim, III, de Espanha, claro!). Ora que surpresa tão esclarecedora… faz sentido agora toda a actuação deste governo. Tem como Musa Inspiradora a Infame Dinastia. Mas, nisto espero congregar a acção dos justos, não precisamos de concordar com os nossos adversários para exigir que lhes seja feita justiça. Como tal urge premiar toda uma coerência de actuação (mesmo não concordando).

Petição Prémio Filipe III para Passos Coelho (em espanholês/portunhol) [Read more...]

Astérix de saias?

Tenho o Aventar em boa conta e creio que não podemos continuar a ver esta casa como a melhor da Blogosfera sem uma35pt referência ao Astérix. Apesar da enorme quantidade de historiadores que por cá habitam, Astérix não é um tema com muitas referências, mas está na hora de alterar isso.

Chegou a hora do Aventar se render aos baixinhos e aos gordos, pelas mãos do puto da Escola do Cerco. Lembro-me de subir aquelas escadas em caracol até à biblioteca. Lá conseguia encontrar umas almofadas mesmo à medida para umas horas de leitura.

Confesso que gostava especialmente dos piratas e não resistia a ir à última página ver o que acontecia ao bardo

Com a publicação de um novo álbum ficamos a saber que Astérix e Obélix viajaram até à Escócia. Ainda não tive tempo de verificar se as risquinhas tripeiras do Obélix e o vermelho do Astérix foram trocadas por umas saias, mas já me disseram que o monstro da Escócia anda por lá.

Fica a sugestão de leitura a que junto uma outra.

As manifestações Vasconcelos, uma tradição anal portuguesa

Defenestração de MigueldeVasconcelos

Não entendo algum espanto pela realização de uma manif designada por “Obrigado Troika promovida pela Senhora Dona Rita Ferreira de Vasconcelos. Trata-se de uma tradição nacional, a nossa aristocracia, mais tarde a burguesia, nunca se sentiu muito bem na pele portuguesa e adora ser protectorada, sobretudo se for por trás e sem vaselinas.

Remonta a 1128, quando tivemos o movimento “Obrigado, Teresa, amamos-te Galiza” que mais tarde deu origem ao “Amamos-te Afonso VII, és um Leão“, durando este até 1143.

Em 1383-85 foram frequentes os desfiles sob o lema “Gracias Castilla, Gracias Juan“, onde pontificava Pedro Álvares Pereira.

A partir daqui ocorreram com  frequência manifestações mais matrimoniais, que culminaram em 1580 com o vitorioso “Gracias, Filipe“, vitorioso até 1640, quando Miguel de Vasconcelos, grande patrono destes movimentos cívicos, enfrentou a lei da gravidade. [Read more...]

A condição do académico

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Há uma semana fui ver o filme sobre a Hannah Arendt. Estava à espera de gostar e não saí desapontada. Hannah Arendt é uma filósofa e académica admirável e o filme demonstra algo que me é caro em vários sentidos. A coragem de um académico em publicar algo que vai ser polémico ou que pode constituir uma polémica é uma situação que hoje em dia tem vindo a ser diminuída porque chegou-se a este estado em que a polémica para ter dimensão tem que ser escandalosa. Actualmente, parece-me, é difícil existir polémica no mundo académico – e que esta passe para o mundo não-académico – sem um certo sensacionalismo.

 

Mas não é isso que acontece com Hannah Arendt. Arendt faz o seu trabalho como académica: ela tem um objecto de estudo, ela examina-o, estuda-o, pesquisa, pensa e chega a conclusões. Tenta fazê-lo com a maior honestidade intelectual possível e fá-lo sempre como académica, como alguém que foi treinada desde muito cedo a pensar e a raciocinar e a ser crítico. A academia é isto. Arendt no filme personifica aquilo que a intelectualidade e a academia têm de melhor. Não põe de lado as suas opiniões pessoais mas elas são suportadas. Não põe de lado a emoção porque é isso é necessário a um trabalho académico, mas utiliza a emoção para amplificar a qualidade da sua escrita e do seu trabalho.

 

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Um morto?

Helena Matos descobre um morto que não morreu. O MRPP teve um morto, mas assassinado por gente da UDP. Respeitemos os defuntos.

Silly Season mas não tanto

Gostaria que alguém me explicasse o que raio passou pela cabeça da VISÃO e do jornalista Luís Almeida Martins, para escrever um artigo laudatório sobre o Marquês de Pombal a comparar o que não é comparável (a situação do Portugal no século XVIII com a situação portuguesa hoje em dia) e repleto de todo o tipo de banalidades. Esperava-se mais da VISÃO, especialmente num artigo que faz a capa da revista (Nº1066, 8 a 14 de Agosto).

As banalidades sucedem-se e lamentavelmente verifica-se que o senhor jornalista não deve ter lido um único livro (para além do Memorial do Convento que é tão válido como a Hilary Mantel a escrever sobre o Thomas More) sobre o que está a escrever: O Convento de Mafra foi uma inutilidade, D. João V foi o pior rei que Portugal teve, o Marquês de Pombal salvou o país. O Marquês de Pombal salva o país porque há um para salvar  porque é D. João V que consolida a posição de Portugal na Europa depois do país ter passado 60 anos integrado numa Monarquia compósita porque se não fosse a política diplomática das embaixadas ao Papa, da construção do Convento de Mafra, num século onde a diplomacia se mistura com o poder absoluto dos monarcas, com o despotismo iluminado, com Luís XV e Versalhes, em que a política vivia das aparências e do poder não só que se tinha, mas que se devia parecer ter, era necessário o Convento de Mafra, tal como era necessário o Patriarcado (isto porque o Papado só reconheceu Portugal como reino independente da monarquia Hispânica vários anos depois de 1640). Tratar isto como um capricho de um rei para que a rainha ficasse grávida é de uma simplicidade estupidificante que fica francamente mal à VISÃO.

Depois vem a historieta de ai-ai a Inquisição do D. João V como se o Marquês de Pombal tivesse sido um revolucionário, um modelo de virtudes democráticas e defensor do Estado Social. E não há neste artigo uma única referência a um livro ou a um historiador. Não me admira. Eu sei que isto é Verão e a malta não aprecia ter muito trabalho no Verão mas isto faz capa. Já estou como dizia o David Starkey aqui há umas semanas a respeito do livro da Hilary Mantel: “ela escreve muito bem, eu é que não a consigo ler porque sou um historiador Tudor.”

Coimbra não é uma lição

coimbra

Mais emblemática e conhecida, a demolição de todo um bairro, incluindo diversos colégios universitários, para construir uma obra prima do mamarrachismo chamada universidade do Estado Novo, não é filha única de uma cidade cuja história se caracteriza por isso mesmo: demolir.

Tivemos uns séculos de presença árabe: não sobra um calhau. O espaço mais simbólico da fundação de Portugal, o Mosteiro de Santa Cruz, levou no século XVI com um camartelo que destruiu, por exemplo, o espaço onde o primeiro rei se quis sepultar. Outra torre, já no século XX, foi derrubada antes que caísse em cima de um passante.

Do castelo procuram-se vestígios entre o casario que levou em cima. Igrejas arrasadas, ou transformadas em mau gosto revivalista como S. Tiago, são ao pontapé.

A cidade que nasceu de uma ponte sobre o Mondego, e recebeu nome de um bispo foragido, é agora, em parte, património mundial, diz a Unesco. O nosso melhor edifício universitário, o Colégio da Sapiência, de S. Agostinho ou dos Órfãos não conta, o maneirismo deve ficar mal nas fotografias.*

A parte chama-se Universidade de Coimbra. Às vezes gosto de imaginar como seria um sossego a minha aldeia, sem a dita ter vindo para aqui de vez num dia em que João II se vingou sabe-se lá de quê.

Mas nada  iguala o Mondego, rio da minha aldeia, muito menos o Tejo, nem a aldeia chamada Coimbra. É a minha aldeia, e a partir de agora património mundial,  vai dar-lhes mais trabalho dar cabo dela. E sim, estou contente, parabéns a todos os que se esforçaram por isso, e vou fingir que não me lembro de todo o seu património destruído.


* Afinal dizem-me que está, embora não conste de um folheto distribuído à população.

Conversa de moucos

Mário da Costa
A relação dialógica de uma Companhia de Teatro com uma Direção Regional de Cultura

E assim ficam registados estes factos para descarga fisiológica da minha consciência e memórias vindouras.

A meu pedido, fui recebido pela Directora Regional da Cultura do Centro, em Coimbra.

Estranhou ver-me, alegando como saudação que se faziamos 25 anos de existência e nunca tinhamos pedido nada à Secretária de Estado da Cultura, estando a fazê-lo agora só podia ser sinal de estarmos a perder qualidades.
– Como assim, perder qualidades?
– Se vocês como Companhia de Teatro se conseguiram “desenrascar” durante tanto tempo, sem precisarem de “pedinchar” e agora o fazem, só pode significar que já não têm o mesmo talento.
– Talento artístico, quer a senhora dizer?
– Não, talento para se safarem. Encontraram um nicho de mercado que vos satisfez e agora que as câmaras estão “tesas” é que nos vêm apoquentar. [Read more...]

Revisionismos

a grande porca politica

Vasco Pulido Valente, um historiador da I República que se reformou antecipadamente escrevendo excelentes romances históricos, reduz hoje no Público o segundo séc. XIX português a dívida investida nas obras públicas da Regeneração, e cobrada a doer em 1891.

Omitir que no entretanto se construíram as grandes fortunas sempre à pala do estado e suas rendas, onde avultavam as concessões do tabaco, já para não falar de uma cobrança de impostos eternamente favorável aos homens do progresso, ou como os bens nacionais a seu tempo devidamente expropriados aos que os haviam saqueado durante séculos, clero e nobreza, foram de imediato transaccionados em favor da burguesia empreendedora, o caso da Companhia das Lezírias é exemplar, omitir a Inglaterra onde hoje se repete a Alemanha, omitir a realidade ajuda sempre à construção ficcional de um mundo tal como nos dá jeito que tivesse sido.

Hoje, como sempre, revisita-se a História ao sabor do discurso dominante.

De 75 a 100 em menos de 25

O Benfica nasce de uma diversidade social, onde podemos encontrar pessoas de classe média alta, classe baixa e até órfãos

Conto a muita gente uma história que vale o que vale:

- Em tempos, no antigo estádio das Antas, a Bancada dos Cativos tinha a sua entrada virada para o local onde hoje temos a loja do cidadão. Recordo-me de lá passar centenas de vezes e ver uma novidade no topo da cobertura da entrada, junto dos símbolos do clube: 75 anos.

Até aqui nada de novo, certo?

Acontece que uns anos depois, muito antes da minha idade ter chegado ao quarto de século, fiquei a saber que o tal clube dos 75 anos afinal tinha cem. Ainda hoje estou para perceber este tipo de contabilidade.

A ideia de 1893 não resulta de um trabalho historiográfico, resulta de um trabalho de uma série de pessoas que são adeptos do FC Porto e que na minha opinião carece de validade. Existiu de facto um Futebol Clube do Porto em 1893, fundado aparentemente em Setembro. Existem referências nos jornais a esse clube, fundado por António Nicolau de Almeida, e que disputou a Taça do Rei de 1894, contra o Lisbonense.

Será que os aventadores históricos e historiadores não queriam perder uns minutinhos a explicar esta situação?

A Direita e sua História

Quando apareceu esta cena do neoliberalismo no jardim da Europa à beira-mar semeado soltei um razoável desprezo pela novidade em si. Se por um lado vejo as teorias políticas mais para o lado da treta e me interessam sim as práticas (o que já me causou dissabores, nomeadamente académicos, mas sou como sou e não como eventualmente gostaria de ser), por outro encaro em consequência esquerda e direita num quase contínuo histórico e as ideologias modernaças com o mesmo desinteresse de um desfile de moda.

A prática confirma: a nossa direita que na anterior geração foi fascista (ou com ele conviveu em paz, respeito e harmonia) descende dos talassas de há 100 anos, dos miguelistas oitocentistas, esteve com Filipe I em quinhentos e com João de Castela em 1385, para não entrar em exemplos mais anacrónicos que fariam de Afonso Henriques um homem de esquerda, mui avant la lettre, e entrando inexoravelmente no disparate. Claro que quando digo isto levo porrada, da direita que se nega e da esquerda muito ortodoxa nas suas filiações. C’est la vie.

Foi pois com inebriado prazer e profunda admiração que li este artigo do Filipe Faria. Palmas, bis, encore. Haja pois coerência e alguém da direita que corajosamente saia do armário.

PS – Eu sei que isto à esquerda tem os seus esqueletos, embora pela parte que me toca não passem de uns tarsos e falangetas. O problema aqui é simples: quem não se liberta criticamente do seu passado, claro que leva. Só se perdem as que caírem no chão.

A Alemanha vai continuar a ser caloteira?

A Alemanha deve reparações de guerra, os gregos vão pedir que pague. Será que a dona de casa alemã vai nisso?

O síndroma Egas Moniz

Sempre me inquietou aquela ilustração dos antigos livros de História em que o fidalgo, com a mulher e os filhos, descalços e de baraço ao pescoço, se davam à morte na frente do Rei de Leão e Castela.
Se o Afonso Henriques rasgou o memorando, desculpem, marimbou no acordo feito porque tinha mais que ser, se estavam sitiados e quase mortos de fome tinham de prometer qualquer coisinha e nessas alturas promete-se tudo e mais alguma coisa e quem nunca o fez pode-se dar por feliz, e entrou por Galiza adentro, ele lá sabia o que estava a fazer, e se até um antigo presidente da assembleia geral da ONU já disse que os acordos entre Estados, ou condados ou lá o que nós éramos, ou ainda somos, não têm de ser cumpridos porque, infelizmente, a maior parte deles nunca passa de letra de forma, não pode ser desonra para um homem de estado dar o dito por não dito mas se o Egas se sentiu incomodado então que fosse sozinho e deixasse a mulher e as crianças em paz.
Essa é a parte que me chateia, o gajo levou a mulher e os filhos para pagarem por um suposto erro dele e de certeza, ou quase, que não lhes pediu a opinião: Vamos lá que se eu estou lixado vocês vão estar comigo que o meu senhor vai ter de perceber que sou um homem de palavra e sacrifico os meus por ela sem levantar armas ou tentar defendê-los. [Read more...]

O negacionismo

Há dois anos o último governo de José Sócrates caiu, onde há muito em Portugal não caiam os governos: na rua.

Claro que para os negacionistas do PS fica bem soltar uma gargalhada, e garantir que não foi nada disso, a culpa terá sido de quem posteriormente não votou favoravelmente um PEC  criado e gerido para ser chumbado na AR, no que terão o apoio veemente dos que pensam a História uma cousa de gabinetes, reuniões, políticos, acordos, desacordos, troikas e outras ilusões. Negacionismo que alacançou todo o seu explendor nesta imagem canciana, tão bem titulada de “coisas verdadeiramente inexplicáveis“:

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Ficando a dois passos do ridículo e roçando sempre o caricato, o negacionismo entre nós teve outros esplendores:  o 25 de Abril enquanto golpe de estado não teria sido tão simples se a negação da realidade não estivesse estacionada na Pide/Dgs, que nem a avisos de congéneres estrangeiras ligou importância e viu o Março das Caldas como um ponto final na contestação de meia-dúzia de tropas acometidos de cobardia colonial. [Read more...]

Anacleto Ribeiro não aguentou

Há muitas formas de não aguentar. Anacleto Ribeiro não aguentou o desemprego, a falta de moedas para as gomas do filho doente, e escolheu a pior forma de não aguentar: fugiu com ele para a morte.

Outros têm seguido essa fuga: cada vez mais, por muito que pela válida razão de evitar o contágio tal não seja noticiado.

Mais tarde ou mais cedo alguém  tentará partir com outra companhia, a de um de tantos culpados. Nada resolve.

Há outras formas de não aguentar. Há aquela que vingará o Tiago e o Anacleto Ribeiro: demitir os mentirosos que se instalaram no governo e enrolados na própria incompetência e estupidez andam a bater recordes velhos de 38 anos. Com a grande diferença de que em 1975 se recuperavam 48 anos perdidos, séculos de redução de um povo à miséria. Agora, muito simplesmente, arrasa-se Portugal.

Os direitos conquistam-se, perdem-se, recuperam-se. É da História. A morte dos que não aguentam, essa, é um caminho sem retorno. Por isso quem com ferros mata pode ter a certeza que desta vez com ferros morre. Mais tarde ou mais cedo, às mãos de um povo.

Reviver o passado em Março (6)

Tivesse eu vinte e tal anos e circularia hoje à tarde em alguma das manifestações que se presumem inspiradas por uma musiquita com uma letra sofrível que o amargurado contexto em que subsistimos fez catapultar para uma relevância totalmente imprevista, sobretudo para quem a obrou, o grupo ‘Deolinda’. Mas, quarentão como sou, entendo essas e outras melodias com outros tons e não vou pôr lá os pés.

Carlos Abreu Amorim, Blasfémias, 13-03-2011

Reviver o passado em Março (5)

Pessoas da geração do 25 de Abril andam muito zangadas com o povo porque o povo se manifesta contra os partidos. Dizem que não pode haver democracia sem partidos. Não sei se pode. Se calhar não. Mas quando o povo se manifesta contra os partidos, não é o povo que tem que mudar.

João Miranda, Blasfémias, 14-03-2011

Reviver o passado em Março (4)

Havia de tudo. Também no tocante as gerações. E a muito mais. A tudo quanto possa distinguir a denúncia do protesto. Com maior ou menor conhecimento da origem dos nossos males. Certamente unidos no mesmo desprezo pelas palavras do Ministro Santos Silva, já tornadas públicas, insinuando a demagogia dos manifestantes.

João Afonso Machado, Corta-Fitas, 12-3-2011