elogio de Humphrey Bogart

Foto: Yousuf Karsh

Cada vez gosto mais do Bogie. E olhem que pode ser complicado a gente gostar dele. Quando se cresce a levar com Tom Cruise a fazer coquetéis (é assim que se escreve?) não é fácil afirmar a preferência por tipos de tez acinzentada pelo tabaco e mortos há mais de 30 anos. Tipos que, reparem bem, nasceram em 1899 (!), coisa espantosa para um galã de cinema. Não é por ele fumar como um carroceiro e não ser o Tom Cruise que eu gosto dele, embora ambas sejam características que me podem levar a simpatizar com uma pessoa, mas porque o Bogart tinha aquela aura (conquistada em grande medida, mas não em exclusivo, com o seu Rick Blaine) de tipo generoso, incapaz de virar a cara ao sofrimento alheio, mas sem pachorra nenhuma para as lamechices. E eu acho que o mundo está a precisar urgentemente de gente dessas.

Já não há sais de frutos suficientes para tantas criaturas que querem dar-nos abraços grátis (como se habitualmente eu pagasse por eles), que nos entopem as caixas de correio electrónico com imagens de cãezinhos, gatinhos e outros bichinhos em poses Walt Disney, ou de criancinhas angelicais,  ou que nos dedicam chi-corações (é assim que se escreve?) e “beijos no coração” (argh!), ou que acreditam que a existência dos pobrezinhos é necessária para que possamos exercer a cristandade, e nos saturam com a descrição inflamada da sua própria generosidade, e outras coisas abomináveis. Por mim, a regra é simples: se tenho dúvidas quanto à lamechice de alguma coisa, basta perguntar-me: “O Bogart faria isto?” [Read more...]

Já não há maus da fita como antigamente

As figuras lendárias e românticas dos grandes vilões perderam-se no tempo. Ficaram os registos históricos e os mitos cinematográficos feitos à medida da grandeza de James Cagney, George Raft, Humphrey Bogart, Edward G. Robinson e outros, nas suas interpretações de maus da fita.

Nos dias de hoje, não há estrela da sétima arte que consiga dar corpo e voz aos grandes maus da fita da actualidade. Porque estes não têm propriamente um rosto: são corporações cujos bairros e cartéis que dominam são nações inteiras, onde estabelecem as regras de jogo por ratios, taxas, indexes, cotações e notações, e traficam aquilo que tornou o mundo inteiro dependente: financiamento.

O domínio das mortes sangrentas a tiros de metralhadora num beco, ou em ambientes de fumo e devaneio do jogo ou da prostituição, acabou. Agora assassina-se identidades nacionais com séculos de história, esmaga-se a dignidade de um povo, instiga-se à escravidão e à fome.

Com todo o brilhantismo que se lhes reconhece, como poderão Robert De Niro ou Al Pacino marcar na tela a sua representação dos grandes maus da fita de hoje?

Não podem. Porque já não há maus da fita como antigamente.