A esquerda e a fossilização do homem pelo homem

A alma de paleontólogo do meu amigo Joaquim permite-lhe descobrir fósseis com uma aparente facilidade. Diz ele que a esquerda portuguesa é, toda ela, um fóssil babando uma revolta e uma ira anacrónicas.

Apesar de eu ser de esquerda, tenho de concordar que o Joaquim parece ter razão: a esquerda continua a defender as mesmas causas de há dezenas ou centenas de anos. No entanto, se analisarmos mais de perto, acabamos por descobrir que o fóssil é outro.

O problema é que a história que deu vida à esquerda está longe do fim. A esquerda existe e age, porque continua a selvajaria dos que, há milhares de anos, se alambazam com o trabalho alheio, negando-lhe, o mais possível, valor, considerando-o apenas despesa, ao mesmo tempo que usa a globalização para levar uma maioria a considerar que um emprego é uma benesse, mesmo que implique apenas direito a sobreviver, que viver é outra coisa. [Ler mais ...]

Uma ponte contra o esquecimento

Ponte 25 de Abril
© Nuno Saldanha

Há uns quinze anos ou coisa que o valha, a propósito das pontes sobre o Tejo (a Vasco da Gama acabara de ser inaugurada), escrevi um texto defendendo que os nomes das grandes obras de Estado não deveriam mudar de nome com a mudança dos regimes. Fui muito atacada, e o editor fez questão de se livrar de toda e qualquer responsabilidade relativamente ao que escrevi, publicando uma caixa de texto dizendo isso mesmo. Defendia eu que não se deveria ter renomeado a ponte anteriormente designada por Ponte Salazar, não para celebrar a obra do ditador, Deus me livre, mas para que a memória de quem foi e do que fez ao povo português durante perto de 50 anos não fosse assim apagada, por renomeação decretada por impulso revolucionário, e pudesse dessa forma sobreviver ao esquecimento.

Continuo a pensar que estava certa, embora hoje não me passasse pela cabeça assinar semelhante texto, porque tenho sobre a memória histórica dos portugueses uma outra ideia, que deriva do que aprendi sobre a sociedade portuguesa. [Ler mais ...]

Vamos mesmo espingardar

Troca de nome da ponte Salazar

Há textos belíssimos na sua forma, escritos de uma forma que apetece beber as palavras uma a uma e saboreá-las, devagarinho, como a um bom vinho de décadas. Ora, eu sou abstémio e é uma pena que quem escreve tão bem desperdice talento a espingardar em todas as direcções e mais algumas que surjam, à espera que um dia tudo passe.

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Arménio, o Espingardador Radical

A hora oportunista da CGTP, isto é, do PCP, chegou e é a da radicalização, seja na ponte Salazar-25 de Abril, seja em outra ponte qualquer. Radicalizar o risco. Erigir o patético. Criar espectáculo. Imitar a escala brasileira do protesto e talvez do descontrolo. Eis tudo. E porquê esta sanha nova, fase seguinte, do PCP-CGTP pelo patético e a pantomina nas manifestações rotineiras de Outubro-Novembro-Dezembro? O que é possível mudar nas Políticas Europeias e do Governo em Funções sem o poder de ruptura de uma invasão extraterrestre, sem a força transformadora de um assassínio político, sem o virar de tabuleiros de uma guerra continental?! Nada. Porém as coisas correram muito bem ao PCP nas autárquicas. Portanto, a manif rotineira de 19 de Outubro quererá subir de tom, provocar o Governo, confrontar as polícias, engendrar vitimas involuntárias, levar o protesto minoritário ao patético e ao truque da maioria minúscula que tornou célebre o desvanecente Bloco. Em suma, Arménio passou-se e aí vai ele, de peito feito, na sua fantasia vã e caprichoso aventureirismo. A tradicional disciplina manifestante da CGTP-PCP não é um dogma religioso nem uma fatalidade papal.

A Ponte é um Symbolo. Foi na Ponte e graças à Ponte que o último Governo Cavaco tombou fragorosamente graças a um erro do animal ávido-BPN Dias Loureiro. Portanto, nada mais auspicioso que o PCP regressar à Ponte em nome das massas populares, dos trabalhadores contra as Políticas de Direita. [Ler mais ...]

De quem é a ponte?

Uma das pontes sobre o Tejo nasceu Salazar e foi baptizada 25 de Abril.

A canalha salazarista andou anos a chorar que era uma injustiça, foi o Salazar que a construiu, snif snif, sacando do lenço para limpar o focinho ranhoso, o Salazar no tempo dele é que era bom.

Nem sequer é verdade: a ponte foi construída por operários (alguns lá morreram) e desenhada por engenheiros, mãos, cérebros, quem trabalha (esse exercício diário e quotidiano a que Salazar nem nas vindimas de S. Comba se dedicou: os meliantes não trabalham, roubam, trafulham  ou assassinam).

O que um ministro (enquanto pessoa um tipo sensato, mas o poder desfaz os homens) agora tem nas mãos é muito simples: ou manda às urtigas um parecer canalhita, ou compra a guerra que nunca ninguém tentou: reprimir uma manifestação nacional da CGTP é um filme que, indeciso pelo meio Portugal, me fará trocar o Porto por Lisboa. E já agora, com resultados muitos óbvios nos mercados.

Em qualquer dos casos, e definitivamente, a ponte ficará de vez crismada de 25 de Abril. Espero que se evite o sangue, mas voltando atrás, dos operários ali já o houve semeado.

A ponte é uma barragem

A direita mais reaccionária sempre teve um problema com a Ponte 25 de Abril. Foi assim em 1994 e é assim em 2013. Não é de estranhar, uma vez que, de cara lavada com as mãos igualmente sujas, os rostos do poder são os mesmos. [Ler mais ...]

On Her Majesty's Secret Service

Filmado em alguns locais de Portugal, um filme a (re)ver, especialmente para se comparar o antes e o depois do desordenamento do território. Especialmente no que se refere à sequência de introdução, filmada no Guincho.

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