Fala que eu escuto

Foto: Supercalli

Gosto daquela ideia do café para solitários, ali entre a Carson McCullers e o Tom Waits, balada do café triste encontra o coração de sábado à noite, qualquer coisa por essas redondezas. Cafés com um monólogo em cada mesa, e nos quais nasce – é esse o milagre dessas peculiares igrejas que são os cafés – num arrebato da polifonia, um diálogo, improvável diálogo entre muitas almas que vão falando consigo mesmas. De uma mesa para outra pode lançar-se uma ponte, alinhavar conspirações, começar namoros, descobrir parentescos desconhecidos, qualquer coisa. Para a conversa acabar, é só levantar-se, deixar a moeda sobre o tampo e ir embora, sem mais remorso.

Antigamente, qualquer um podia ir ao café pôr a cabeça em ordem, ver gente, meter conversa, comentar as notícias, confessar mágoas, embebedar-se ou curar a ressaca. Sentavas-te sozinho e acabavas a ouvir os poemas do Rui, a preencher o IRS da velhota que se tinha esquecido dos óculos em casa, ou a meter água na fervura de uma discussão conjugal, a ajudar a jovem mãe a dar o iogurte ao catraio, ou simplesmente a ouvir a história da pessoa do lado, sem preâmbulos nem porquês. [Read more…]

Dia Mundial da Música

Sou suspeita…

A Música é minha companheira desde os seis ou sete anos. Não me lembro de a ter antes. Num piano de cauda de brincar feito de plástico e pernas de madeira que a minha mãe tinha à venda na mercearia, eu tocava os primeiros sons. De tanto uso, conquistei o Piano: a minha mãe não o vendeu. Hoje, procuro que a música seja também a companheira para a vida dos meninos e meninas que aprendem Piano comigo.

A Música é uma excelente companhia, seja ouvindo, seja fazendo-a.

Mas está demonstrado que, para além do prazer que se tira, a Música contribui para o nosso bem-estar físico: “mexe com a totalidade do ser humano”.  Um determinado trecho musical pode, ao nível físico, “alterar o ritmo cardíaco e respiratório, a pressão sanguínea, a produção hormonal, as ondas cerebrais, tendo até resultados sobre o sistema cognitivo”.  [Read more…]

“Embrulhar” a dor

No passado domingo, a jornalista Paula Torres de Carvalho escreveu um artigo no Público sobre a Depressão, que intitulou de «Lidar com as tristezas». Partilho esse texto com os leitores do Aventar:

“Não é fácil conviver com a infelicidade. Fazem-se planos, projectam-se desejos que a crueza da vida contraria e depois… não há perspectivas, não se vêem saídas. Fica-se desalentado. Resta viver com o que há, quando muitas vezes o que há é muito mau e muito triste. Mas estar desanimado e deprimido nem sempre significa que se está doente.

Portugal é hoje um dos países europeus com maior consumo de antidepressivos. Como em muitos outros países europeus, banalizou-se a prescrição e o consumo das drogas psicotrópicas. O último eurobarómetro sobre saúde mental realizado em 2010, indicou que 15 por cento dos portugueses tinham consumido antidepressivos nos 12 meses anteriores, o dobro da média europeia. Mas, como alertou recentemente Jorge Gravanita, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Psicologia Clínica, o entendimento de grande número de psicoterapeutas é de que 90 por cento dos casos que chegam ao consultório não precisariam de medicação, mas de psicoterapia nos tratamentos de primeira linha. [Read more…]

O coração

Ontem escrevi sobre o umbigo como a mais bela e simbólica cicatriz do nosso corpo.

Hoje apetece-me dedicar umas palavras ao orgão central, o orgão da vida por excelência.

Vai Aonde Te Leva o Coração, escreveu Susanna Tamaro em 1994 (“desconfie de tudo excepto daquilo que o coração lhe disser”);

Saber algo de cor (do coração), como o Paulo Gonzo sabe de cor cada traço do rosto e do olhar dela, como um pianista toca de cor uma obra ao fim de tantas horas a estudar, repetindo;

Sobre isto de aprender de cor, George Steiner escreveu inúmeras vezes, como em No Castelo do Barba Azul: “Aprendia-se em grande medida de cor (do coração) – termo que se adequa magnificamente à presença íntima, orgânica, da palavra e do sentido no espírito individual. A decadência catastrófica da memorização no ensino contemporâneo e na bagagem do adulto (…)”.

Depois há as diversas expressões: «não tens coração»; «coração de oiro»; «coração de passarinho»; «falar com o coração»; «aperto no coração»; etc.

Você deve conhecer muitas! Queira acrescentar!

Obrigada.

O Umbigo

O umbigo é a mais bela e simbólica cicatriz corporal. (Uma ideia tonta que me assaltou). Essa depressão na pele que nos marca a todos por igual. Iguais desde o nascimento à morte.

Damos-lhe pouco importância.

Não o cientista  Georg Steinhauser, que estudou a sujeira que se acumula no umbigo. Descobriu coisas engraçadas: os fiapos do umbigo não são apenas feitos de tecido. Na sua composição encontram-se fragmentos de pele morta, gordura, suor e poeira.

E depois há as expressões tão curiosas à volta dele:

1. Devemos cortá-lo definitivamente (cordão umbilical)

2. Não devemos centrar-nos no nosso próprio umbigo

3. Não somos o umbigo do mundo

4. Umbigo do sonho (expressão criada por Sigmund Freud: “… existe pelo menos um ponto em todo o sonho no qual ele é insondável – um umbigo, por assim dizer, que é o seu ponto de contacto com o desconhecido”)

Você deve conhecer mais!

no one is listening

Conheci a Sherry Turkle, como muitos de nós, lá longe nos anos 90, com o livro publicado pela relógio de água, “a vida no ecrã”. Atento, apreensivo, mas optimista, o livro ensinava duas ou três coisas sobre as emergentes comunidades virtuais.

É sempre relevante – uso a palavra com vagar – saber o que diz, dez anos depois, a psicóloga sobre o que fizemos nós com a tecnologia, ou do que ela nos permite que façamos de nós. E, sobretudo, dos nós. Uma Ted talk a não perder.

Connected, but alone?

Maria do Carmo Vieira diz o que me apetece dizer

A maior parte dos peritos são uma nulidade, vêm-me impingir coisas que não são debatidas, que não discutem comigo, não vou admitir que uma pessoa em sociologia ou em psicologia me venha dizer como é que eu vou leccionar a Literatura ou o Português, porque eu também não me vou meter com a área dela.

E muito mais diz, no fundo o que um professor que se preze tem a dizer.