Dicionário do futebolês – falhou o remate

Chamar remate a um pontapé terá nascido de uma impropriedade vocabular, uma vez que, na realidade, remate significa fim e o fim do futebol não é rematar, é introduzir a bola na baliza adversária. O remate impropriamente dito é, apenas, uma das várias maneiras de contribuir para o remate de uma jogada.

Quando a bola não vai no sentido da baliza ou é cortada por um defesa, os comentadores dizem que se trata de uma “tentativa de remate”, o que os coloca na dupla situação de terem razão sem saber e de não terem razão, sabendo.

Na realidade, os comentadores não associam remate ao significado original da palavra. Se assim fosse, qualquer pontapé com o objectivo de atingir a baliza seria, efectivamente, uma tentativa de remate, sendo que o remate desejado de qualquer jogada é o golo.

A verdade é que remate se transformou, há muito, em pontapé na bola com o objectivo de entrar na baliza adversária. Ora, sendo assim, se um jogador acerta na bola com a intenção de atingir a baliza, houve remate. Se a bola foi ou não na direcção da baliza, é outra história.

Se um pontapé na bola é sempre um remate, vá ou não na direcção da baliza, não faz sentido chamar tentativa de remate àquilo que é, efectivamente, um remate. Seria o mesmo que chamar tentativa de murro a um murro que, por acaso, não esmurrasse devidamente.

Uma tentativa de remate deveria ser, quando muito, o chamado “pontapé na atmosfera”, algo correspondente a um dos gestos mais ridículos que podem acontecer a qualquer praticante e que consiste no momento em que o futebolista acerta com toda a força no ar, quando o objectivo era acertar na bola. Na minha juventude, o comentário habitual a este gesto era o humilhante “Amanhã, vai chover.”, num exercício de humor que fazia antever consequências meteorológicas na falta de jeito de tanto pontapé incompetente.

 

[Read more…]

Dicionário do futebolês – pode ser perigoso

Justa ou injustamente, o árbitro assinala um livre directo perto da meia-lua, a dois metros da linha da grande-área. A equipa punida terá de se colocar a quase dez metros da bola e só se pode aproximar desta depois de ser tocada. O guarda-redes será obrigado a aproximar-se de um dos postes, deixando o resto da baliza sob a protecção da barreira, sabendo que dificilmente terá tempo de reacção se a bola passar por cima dos colegas e for em direcção ao poste de que ficou mais distante. Como se não bastassem todas estas facilidades, a tarefa de marcar estes livres é sempre entregue a jogadores que têm a enervante mania de colocar a bola onde querem. Neste momento, quase invariavelmente, os comentadores gritam: “Pode ser perigoso!”

Era neste momento que o Manuel Dias, meu companheiro revoltado de tantas horas televisivas, deixava escapar três palavrões e chamava “analfabeto” ao autor do comentário. Tentarei reproduzir a explicação que ele deu uma vez, a propósito desta manifestação de iliteracia futebolística: “Imagina que vou a passar na ponte da Arrábida e há um gajo que sobe para o muro de protecção. Faz algum sentido eu dizer-lhe ‘Ó amigo, veja lá que isso pode ser perigoso!’? Não, c*****, se o gajo está lá em cima, não pode ser perigoso, é perigoso!” [Read more…]