00h20 – Grândola

Paulo Coelho é o locutor de serviço, nessa noite, no «Limite». Sem saber dos compromissos assumidos por dois dos seus colegas, Carlos Albino e Manuel Tomás, quase faz perigar a transmissão da senha à hora exacta por ter antecipado a leitura de anúncios publicitários. Mas, após alguns momentos de tensão, no final da leitura do primeiro anúncio, Manuel Tomás , também presente na cabine técnica, consegue, dando um pequeno safanão (aparentemente sem intenção) na mão do técnico de som José Videira, provocar o arranque da bobine que contém a senha. Então, pela voz previamente gravada de Leite de Vasconcelos, através dos potentes emissores da Rádio Renascença, ouve-se a primeira quadra da canção Grândola, Vila Moreno, de José Afonso. Já no final da transmissão o agente da Censura, ali presente, dá sinais de que escutara algo que não previa .”

Aqui numa versão absolutamente singular de Sara Tavares

(texto do site http://www.25abril.org)

O passadismo nacional.

Quero tanto saber de Olivença, como de Zeca Afonso, ou seja muito pouco. Ambos os assuntos me soam vagamente passadistas: peças observadas do ponto de vista de um antropólogo ou um historiador. Ou talvez, mesmo, de um simples visitante de museu. Parece haver nas elites portuguesas, electrizadas ocasionalmente com assuntos de que apenas sabem falar pela rama, uma capacidade inata para se agarrarem a momentos do passado que logo transformam em coisas idolatradas. Vão transitando de anacronismo em anacronismo a tentar encontrar algo que os conforte para as circunstâncias do presente. Sem querer generalizar (mas generalizando) os monárquicos agarram-se à questão de Olivença e alguns de Esquerda, ao Zeca Afonso.
Aos primeiros sugiro a leitura atenta e repetida da História de Portugal – isto para não os obrigar a saber mais sobre a formação dos países, sujeitos a flutuações de propriedade. De resto, um bom monárquico mais depressa faria jus ao dístico que corria de boca em boa na Primeira República: antes um Afonso XIII que o Afonso Costa. Meus caros, a única guerra que força a nossa preocupação, hoje em dia, não é só de laranjas. É de laranjas e rosas. O resto é estória.
No concernente aos segundos lamento a proverbial incapacidade de se renovarem. É o triste síndrome marxista. Ainda houve quem tentasse adoptar os Deolinda como grupo de folk-intervenção, mas debalde. Zeca Afonso é um homem de um tempo. Duvido que o seu género singrasse nos dias de hoje, em melodia ou em conteúdo. Ponham-no a “tocar” numa sala cheia de adolescentes e procurem reacções.
De resto, o que será que o José Afonso clandestino pensaria dos assuntos fracturantes que fazem as delícias de uma esquerda actual? por esta entrevista não é claro, mas creio que seria uma desilusão para muitos.
Uma coisa é certa: já passou o tempo de qualquer uma destas cantigas.

Gastão era perfeito

Também em memória da Adelina, que nos vendia às escondidas este e tantos outros discos. Quem passou por Coimbra sabe de quem estou a falar.

É a minha favorita, hoje que também é dia de cada um falar da sua. Não me perguntem porquê, quando me apaixono por um poema, uma música, uma canção ou uma mulher nascem mistérios que prefiro nem desvendar.  Aqui só falta a mulher mas sobra a velha tradição da cantiga de escárnio e maldizer, superiormente reinventada.

Faz parte do Venham Mais Cinco, em termos de sonoridade e  maravilhamento poético o mais elaborado dos trabalhos do Zeca, com um respirar que logo a seguir seria impossível, tanto ao Zeca como ao José Mário Branco, o senhor que em português inventou a palavra produção.

Gastão era perfeito
Conduzido por seu dono
Em sonolências afeito
Às picadas dos mosquitos [Ler mais ...]

Zeca

Pérolas

Aqui com Fausto.

Hoje dá na net: Zeca Afonso – Ao Vivo no Coliseu, 1983

Em 29 de Janeiro de 1983 realiza-se o espectáculo no Coliseu com José Afonso já em dificuldades. Participam Octávio Sérgio, António Sérgio, Lopes de Almeida, Durval Moreirinhas, Rui Pato, Fausto, Júlio Pereira, Guilherme Inês, Rui Castro, Rui Júnior, Sérgio Mestre e Janita Salomé.

Este a RTP lá teve de gravar. Sabia-se que a doença era irreversível e já parecia mal. Não havia um único grande concerto de José Afonso gravado pela televisão portuguesa.

Hoje dá na net: Especial Zeca Afonso na RTP Memória

Programa emitido a 23 de fevereiro de 1987, logo após a morte de José Afonso. Não sobrava muito no arquivo. A RTP nunca gostou do Zeca, que também não era muito de estúdios, e no pós-PREC houve uma limpeza de memória aos anos de 1974-75. Mas foi um bom esforço de Luís Andrade, Brito Macedo e Carlos Pinto Coelho,que coordenaram e de  António Faria e Luís Filipe Costa que realizaram.

Hoje dá na net: Zeca Afonso – Maior que o pensamento

(1ª parte)

Produção: Nanook, Realização: Joaquim Vieira Tit. Original: «(ZECA AFONSO)»
Origem: Portugal – 2011

Série documental em três episódios sobre José Afonso com assinatura de Joaquim Vieira.

“Maior que o Pensamento” é o título de um documentário em três partes acerca da vida e da obra do poeta, compositor e intérprete José Afonso, o mais conhecido autor da chamada canção de intervenção portuguesa, movimento do qual se pode aliás dizer que foi fundador e líder (embora de maneira informal).

(…) O documentário recolhe muitas dezenas de testemunhos de pessoas que conheceram José Afonso e com ele colaboraram, desde familiares e amigos a músicos de várias nacionalidades. Imagens de atuações de José Afonso (algumas inéditas em Portugal, como na Alemanha em 1963) completam este exaustivo trabalho sobre um criador que suplantou em muito a estrita esfera do seu posicionamento ideológico, tornando-se num dos mais originais e destacados criadores do seu país no século XX. Ao longo do documentário, podem ser ouvidas algumas das mais significativas canções da autoria de José Afonso, interpretadas pelo próprio.

(…) “Maior que o Pensamento”, uma produção Nanook, é um documentário de Joaquim Vieira, com edição de Aníbal Carocinho, direção de produção de Lila Lacerda, consultoria histórica de Irene Flunser Pimentel e consultoria de Maria Helena Afonso dos Santos.

Ficha RTP completa

2ª e 3ª partes [Ler mais ...]

Recado do 25 de Abril a Mário Soares

Seja bem-vindo quem vier por bem

Zeca Afonso

Com esta entrevista, Soares, no habitual uso e abuso do papel de paternalista supremo da democracia portuguesa, critica Blair, o famoso “socialista” do New Labor, curiosamente grande inspirador das políticas de Guterres e, a seguir, de Sócrates – recordo-me de Francisco de Assis, no anos 1990,  elogiar o Tony pela sábia refundação trabalhista, através da 3.ª via (É dele e da conservadora Thatcher, antes, que emergiu a moda das PPP).

Leio também que o presidente honorário da ‘comissão de anciãos’ da política portuguesa dispara, forte e feio, contras  políticas neoliberais, incriminando Merkel e Sarkozy. Teria  razão, se não estivesse desacreditado pelo apoio a Sócrates. Usando o mesmo sentido e o tom, com que acaba de elogiar Pedro Passos Coelho. Justamente um político confesso do neoliberalismo que Soares diz condenar – do dizer ao condenar, vai alguma distância. Talvez pela influência da visita (secreta?) de Soares a Coelho um dia destes, este último se tenha apressado a criar  a ilusão de ser defensor do sistema público de saúde, em mensagem de Páscoa, em vídeo,  no ‘Facebook’.

Há ainda um considerável número de portugueses com dificuldades em acreditar nestes jogos de cintura e contorcionismos dos políticos do bloco central; o tal bloco que, pela terceira vez em cerca de 30 anos, traz até nós a ajuda externa (agora, FMI-CE-BCE), com a uma esperada e pesada carga de sacrifícios.

Dr. Mário Soares, estamos a poucas horas de comemorar o 36.º aniversário do 25 de Abril e permita-me sugerir que tome em conta o seguinte: “Seja bem-vindo quem vier por bem”, como dizia o Zeca Afonso. Seria útil que, ao menos uma vez, escutasse e respeitasse a voz do Zeca, isto é, a voz dos cidadãos anónimos que sentem as derivas ao Abril de 1974. Dos que, como eu, aqui em pleno Alentejo gritarão: Viva o 25 de Abril! A despeito do abandono, das carências, do desemprego e das injustiças sociais a que estamos sujeitos. Coisa bem diferente do que se passa nos locais que frequenta.

Fui roubado

Prometeram-me uma terra da fraternidade e um dia inicial inteiro e limpo porque a poesia estava na rua e podia livre habitar a substância do tempo.

Fui roubado, quero apresentar queixa. Alguém sabe qual é o modelo do formulário?

Sons de Abril: Zeca Afonso – Grândola

Obrigado.

Sons de Abril: Zeca – Foi na cidade do Sado… e o PPD era a CIA

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Os videos do Aventar. Zeca Afonso – Foi na cidade do Sado from Aventar on Vimeo.

Esta música, «Foi na cidade do Sado», faz parte do album «República» e foi gravado em Roma em 1975. O disco nunca seria editado em Portugal e Zeca Afonso não voltaria a utilizá-la ao longo da sua carreira.
«Foi na cidade do Sado» descreve os incidentes ocorridos em Setúbal a 7 de Março de 1975, durante um comício do PPD, e dos quais resultaram um morto. «E o PPD era a CIA», diz a certa altura.
A receita do disco foi destinada a apoiar os trabalhadores do jornal português «República» ou, no caso deste fechar, uma cooperativa agrícola, daí o nome «Per le Cooperative Portoghesi».
Francisco Fanhais e músicos italianos colaboram na gravação.

Letra completa: [Ler mais ...]

Três Cantos no Coliseu: Fez-se História

Fez-se História no Coliseu do Porto, ontem à noite, e eu estive lá…

José Mário Branco, Sérgio Godinho e Fausto começaram pelas canções actuais (de destacar, de José Mário Branco, o Onofre, a palavra portuguesa para o botão On/Off), e, com o decorrer do espectáculo, foram desfiando os êxitos mais antigos – aqueles que, como sempre, motivam mais o público.

José Mário Branco falou: «Estou tão contente. Podem continuar a contar connosco para cantar… e para o resto». Sérgio Godinho, depois das «4 Quadras Soltas», soltou o maior aplauso da noite: «Zeca Afonso não devia estar ausente esta noite». Isto depois de dizer com a ironia do costume, a propósito de «O Charlatão», que felizemente é uma espécie que hoje em dia já não existe em Portugal. Fausto, com o «low profile» que o caracteriza, pôs milhares de pessoas a cantar a sua Rosalinda.

Foi um espectáculo belíssimo. Cada um cantou as suas canções e as canções dos outros dois. E as canções dos outros que cantavam, parece que se apropriavam delas num instante e que toda a vida tinham sido suas.

A certa altura, José Mário Branco disse que iriam dizer e cantar naquela noite o que andavam a dizer há 40 anos. E foi isso mesmo. Sobretudo isso: um espectáculo de memórias, de recordações. De alguém faz parte das nossas vidas. Crescemos ao som das músicas deles.

É como dizia Sérgio Godinho: só faltou mesmo o Zeca!

80 anos de Zeca Afonso