A ética e a confiança não têm lugar num risco de bâton

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Que me desculpem os defensores do “jornalismo corajoso”, como o Ricardo Santos Pinto aqui apelidou há dias, do Jornal Nacional das sextas-feiras da TVI. Até posso reconhecer a “coragem” de enfrentar alguns poderes instalados na nossa sociedade, como o primeiro-ministro. Quanto ao resto, tenho muitas dúvidas.

Gostava de saber, por exemplo, há quanto tempo a TVI tinha o famoso DVD da conversa de Smith e companhia. Gostava de saber porque é que optaram, primeiro, por passar o som, mas não a imagem, reservando-a para uma fase posterior. Admito que haja uma justificação aceitável mas como não a conheço, suponho que a ideia era prolongar o efeito, manter o caso em fervura lenta mas permanente, com evidentes objectivos de audiência e de afectar politicamente um homem com o qual a dupla José Eduardo Moniz / Manuela Moura Guedes não vai à bola, nem a qualquer outro lado. Confira-se, pois, o tom dos restantes espaços informativos e o de sexta-feira. Há ali diferenças e não estão apenas no estilo dos apresentadores.

Respeito mas não gosto do género de apresentação de Manuela Moura Guedes. Não é por causa de Sócrates, garanto. Já não apreciava antes e continuo a manter a mesma posição. Hoje fiquei a conhecer um novo aspecto. O Expresso enviou para a TVI a capa da edição de hoje, dando conta da entrevista exclusiva com o primo de Sócrates, sobre o caso Freeport. A capa do jornal foi disponibilizada para ser mostrada na revista de imprensa deste sábado, com pedido de embargo até às 24 horas. Um pedido de embargo significa que ninguém pode utilizar as informações disponibilizadas até à data em causa. A informação é cedida com o objectivo dos jornalistas a poderem trabalhar, possibitando a posterior apresentação da notícia mal o embargo termine.

Leio hoje no DN que esse pedido não foi respeitado. Fiquei, assim, a saber que a paladina da liberdade e do jornalismo “corajoso” não liga muito à deontologia e à ética profissional. Pior, fiquei a saber que Manuela Moura Guedes, não é de confiança.

Foi assim tão má a opção tomada? Tanto mais que o Expresso já andava, há dois dias, a anunciar essa entrevista no site da Internet? Um exemplo, com algum exagero, reconheço, mas que funciona. Imagine que um amigo, que toda a gente sabia que tinha feito uma biopsia, lhe conta que, de facto, tem um cancro e lhe pede para não revelar a ninguém durante as próximas quatro horas, porque prefere ser ele a dizer aos amigos e à família. Você, alegremente, esquece o pedido e a consideração que o amigo lhe merece e, para brilhar, para ser o primeiro, desata a telefonar a toda a gente e a contar o que sabe. Garanto que além de se transformar num estafermo, o seu amigo, provavelmente,o irá apagar da lista de contactos.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Toda a razão,José! e os folhetins do antigo Independente? Eu andei durante 3 semanas nas páginas do jornal sem ser ouvido,todas as semanas contavam a mesma estória com frases diferentes! Por isso eu nunca disse que Sócrates é culpado.O que eu digo é que são suspeitas e folhetim a mais para um homem público!


  2. Eu sei Luís, por isso é que há necessidade de separar as águas entre trabalho de qualidade e perseguição. Não tarda nada e até eu peço uma ordem de restrição: não me aproximem um televisor sintonizado na TVI às sextas, entre as 20h00 e as 22h00. Melhor: não me aproximem um televisor sintonizado na TVI.


  3. É triste a situação. Mas comparando com outras situações tristes, acho que o melhor para a informação é também a formação de um Bloco Central. Juntar no mesmo sítio, a TVI e o Expresso e já agora o SOL também, com o JN e o DN. Assim eles podem combinar entre todos em quem vão desancar…


  4. Jornalismo corajoso, sim. E opinativo – ali ninguém é enganado. Apresentam-se factos e apresentam-se opiniões. As audiências e o «fazer render o peixe»´? Então não é para isso que os meios de comunicação social existem? Para terem audiências?Já muitíssimo estranho é o proteccionismo descarado ao Governo de todos os órgãos de comunicação social de Joaquim Oliveira, com particular destaque para o DN e o JN.

  5. Luis Moreira says:

    O grande problema do Joaquim Oliveira são os Editoriais muitas vezes terem que mudar conforme a “cor” em funções!É o jornalismo “melhoral” não faz bem nem faz mal!

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