Falando de Democracia: A «República da Atlântida»

Desde que Platão em Timeu e a Natureza e em Crítias se referiu a um misterioso continente perdido, o mito da Atlântida tem dado lugar a narrativas de toda a espécie e a mil e uma teorias, uma ou outra com algum suporte científico. Uma dessas teorias, situa a Atlântida na chamada região da Macronésia, que abrange as Canárias, a Madeira, Cabo Verde e os Açores. Estes arquipélagos seriam os pontos mais elevados do continente tragado pelo oceano devido a uma catástrofe (e as hipóteses vão desde o Dilúvio, a uma bomba nuclear, talvez lançada por extra-terrestres…).
Em 1931, ia a Ditadura Militar instaurada em Maio de 1926, no quinto ano de vigência, quando em Abril, eclodiram na Madeira, nos Açores, na Guiné, uma série de levantamentos militares contra o Governo. Desde a Grande Depressão de 1929, Salazar então Ministro das Finanças, impusera medidas que, tentando restringir os efeitos dessa «crise global», como hoje diríamos, obrigava a população mais carenciada a complicadas ginásticas para resolver problemas básicos de subsistência. As liberdades democráticas que tinham ficado da I República, iam sendo, uma a uma, suprimidas. Daí as revoltas insulares desencadeadas por militares. Foram rapidamente juguladas, menos a da Madeira que, devido ao grande apoio popular que teve, resistiu durante alguns dias às tropas e aos navios de guerra que foram enviados do continente. Os revoltosos eram, mais ou menos coordenados pela chamada «Liga de Paris», directório de refugiados políticos portugueses na capital de França. Esperava-se que as unidades continentais aderissem, o que não aconteceu. Só em 26 de Agosto foi desencadeada em Lisboa uma outra revolta militar e civil, orientada no sentido de repor as liberdades fundamentais coarctadas pela Ditadura, que após a rendição dos revoltosos, se cifrou em cerca de quarenta mortos e duzentos feridos. Os revoltosos das ilhas chegaram a ponderar proclamar a independência daquilo a que chamaram a «República da Atlântida». Feita por militares na sua maioria continentais colocados nas unidades sediadas na Madeira, foi a primeira ameaça de secessão que dali nos chegou. Mas não seria a última, pois agora essas ameaças chegam-nos com muito maior frequência. Primeiro foi a FLAMA, Frente de Libertação do Arquipélago da Madeira, que se terá extinguido em 1978. Daí para cá, ou são alguns dirigentes históricos do movimento separatista ou o próprio presidente da Região Autónoma que, de forma explícita ou implícita, agitam esse fantasma.
Tudo isto, vem a propósito das bandeiras separatistas que, em 25 de Abril de 2009 foram colocadas no Palácio de São Lourenço, sede da representação da República, e noutros locais do arquipélago. Um dos elementos do núcleo fundador da FLAMA, Costa Miranda, afirmou que a FLAMA nada teve a ver com a acção. Daniel Drummond, outro dos históricos, acrescentou que o hasteamento das bandeiras terá vindo de «pessoas com altos cargos na região, estejam na Quinta da Vigia (presidência do Governo Regional) ou na Quinta Magnólia», também propriedade do Governo regional. Num documento que acompanhou a colocação das bandeiras, afirma-se que os Madeirenses «não querem pertencer a um país governado por um corrupto que deveria estar preso». Costa Miranda nega que a FLAMA seja autora do comunicado – «Não tem qualquer semelhança com os nossos comunicados, nem no estilo nem na ortografia e gramática. É um plágio tosco, rude e grosseiro». E diz outra coisa muito esclarecedora: «Levantar neste momento o espantalho da independência só interessa a quem quer colher dividendos políticos na guerra com Lisboa.» A mesma pergunta – com resposta diferente – a quem se estará a referir?
Pergunta-se: quererão os Madeirenses ser independentes? Vou com alguma frequência ao arquipélago e, de uma forma geral, a população aparece-me tão portuguesa como a de qualquer outra região do País. Os Madeirenses e Porto-santenses, têm as suas especificidades dialectais, culturais, tal como os Beirões ou os Alentejanos, mas nada me faz pensar que queiram ser independentes. É totalmente falaciosa a comparação com a Catalunha, que ouço frequentemente fazer (Alberto João passeou-se na praia de Porto Santo com um boné que dizia Catalunya Lliure ou algo no género). A Catalunha, unida a Aragão, foi uma nação independente durante séculos, tem um idioma próprio, uma História e uma cultura diferenciadas. A ideia da independência madeirense, só a vi defendida por Muammar Kadhafi, por Jardim e pelos seus apaniguados.
Outra pergunta pertinente a colocar é se a independência do arquipélago seria economicamente sustentável. Note-se que a Madeira gasta actualmente mais do que produz e o orçamento nacional suporta o défice. Não que isso me choque, porque a solidariedade nacional obriga a que não discutamos pormenores contabilísticos.
Não compartilho a ideia que já vi defendida por muito boa gente – «se querem ser independentes, que sejam», dizendo isto como quem vê a oportunidade de nos desfazermos de uma fonte de despesa. A Madeira é uma região linda – tal como o Algarve ou o Minho – e é um privilégio dos Portugueses ter um território com tanta beleza espalhada por todas as suas regiões. Portugal sem a Madeira (ou sem o Alentejo), não seria o mesmo. O que é insuportável é que seja o Governo Regional, por vezes em intervenções oficiais, a ameaçar impunemente, perante o silêncio cúmplice de quem chefia o Estado e governa o País, com grande e rude clareza – «ou pagam ou vamo-nos embora». É uma chantagem sem qualquer base democrática, pois duvido que os Madeirenses, na sua generalidade, queiram que as suas maravilhosas jangadas zarpem de Portugal.
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