«Estive a ler atentamente este texto do Daniel Oliveira e, ao contrário da opinião do João Pinto e Castro, achei-o excelente e subscrevo-o» (Miguel Vale de Almeida, 17/11/08)

Sócrates mostra a sua autoridade alimentando o ressentimento que está sempre presente em sociedades desiguais e injustas. É uma autoridade destrutiva. Primeiro foi com os funcionários públicos, agora é com os professores, depois será, provavelmente, com os profissionais de saúde. Desde que chegou a São Bento a sua estratégia é sempre a mesma: atacar os trabalhadores do Estado, fazendo passar a ideia de que são eles, e não os governos, os responsáveis pelas debilidades dos serviços públicos. Grande parte da população, maltratada pelos poderes públicos, compra facilmente este discurso. Ele corresponde à estratégia de qualquer populista.
Pintar os professores do ensino público como privilegiados ultrapassa todos os limites da razoabilidade. Num pais que mudou radicalmente nos últimos trinta anos é, pelo contrário, justo dizer que os professores foram uma das classes que mais sentiu, no seu trabalho, a mudança. Com a massificação da Escola Pública, com o novo papel tardiamente conquistado pelas mulheres na sociedade, com um modelo de família que mudou radicalmente e muito depressa, são exigidas ao professor novas funções: ele é assistente social, psicólogo, pedagogo, animador cultural, mediador… E tudo isto teve de ser feito em pouco tempo, com um reforço acelerado do contingente de docentes, muitos deles sem vontade de cumprir estas funções.
Mas nada disto interessa a José Sócrates. O primeiro-ministro está filiado na velha escola latina, de que Cavaco foi outro excelente representante, que usa a autoridade não como um exemplo mas como uma forma de impor à força o que não consegue conquistar pela razão. Que esmaga a criatividade e alimenta a veneração do chefe.
Olhando para os últimos três anos, e depois de tantas promessas de reforma, de tantos conflitos com sindicatos e classes profissionais, podemos dizer que estamos melhor? Não. Porque as demonstrações de força não passaram de encenações inúteis que apostaram no ressentimento para segurar o poder. Alguém acredita que depois de tudo o que aconteceu entre a ministra Lurdes Rodrigues e os professores a Escola Pública ficará melhor? E não era esse o objectivo? Não, não era. O objectivo era ter uma parte significativa da população contra os professores e, por isso, do lado de Sócrates. Só há um pequeno problema: à medida das que se somam os bodes expiatórios do regime sobra menos gente do outro lado.