AS QUESTÕES ÉTICAS NOS CUIDADOS DE SAÚDE (2)

AS QUESTÕES ÉTICAS NOS CUIDADOS DE SAÚDE (2)

Partindo do princípio, no qual acredito, de que uma boa parte de nós, médicos, está minada de vícios, enclausurada em erros, inegavelmente desviada do verdadeiro sentido da ética da relação, carente de uma autêntica competência profissional, entendendo-se por competência não só o real valor do conhecimento mas sobretudo a inteligência, a capacidade e a sabedoria da sua correcta aplicação, penso que não vamos a lado nenhum se estamos à espera da sua conversão e da renovação das mentalidades que nunca fizeram nem querem fazer qualquer esforço.
Assim sendo, e sem desprimor, confesso que este e outros textos, esta e outras iniciativas idênticas, estão fracassados à nascença. Como médicos, sabemos muito bem a escassa influência que tem na evolução da doença a medicação sintomática. A verdadeira cura da doença não está na detecção e eliminação das causas próximas mas no conhecimento e, sobretudo, no reconhecimento das causas primeiras, na sua veemente denúncia e no seu decidido combate. Os médicos estão doentes, o exercício da medicina está doente, a sociedade perde saúde.
É nos médicos que hão-de vir que reside a esperança. Pura ilusão pensarmos que a solução está nos médicos de hoje. Quando muito, e com grande esforço, poderemos deixar o fermento da mudança. Não percamos tempo se quisermos ter algum papel na memória do futuro. O primeiro passo estará, obviamente, na realização empenhada dos médicos e das instituições que se preocupam, como a Ordem dos Médicos, de reuniões, congressos, simpósios, onde sejam transparentemente analisados e denunciados os erros, as insuficiências, os desvios e os mais ou menos obscuros interesses que têm abalado a nossa reputação e ensombrado a beleza do digno exercício da nossa profissão.
Há demasiados congressos científicos, exclusivamente científicos ou pseudo-científicos, com informação redundante, puramente serial e repetitiva dentro da banalidade discursiva dominante, supérflua, desdobramento da comunicação de massas que nos arrasta para a vertigem da instantaneidade, e pouco ou nada há sobre o nosso comportamento, sobre a ética e a verdade do nosso comportamento, sobre a memória da nossa experiência, acção e dependência ou interdependência dos poderes e contrapoderes, sobre os grandes obstáculos ao exercício da medicina e da prioritária, correcta e eficaz aplicabilidade dos conhecimentos, sobre as polémicas e controvérsias que afectam a nossa relação com o doente e a sociedade, sobre a inquestionável necessidade de equacionar a defesa permanente e a garantia futura da nossa mais valiosa riqueza, a dignidade. (Continua).

            (adao cruz)

(adao cruz)

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Estas suas considerações e as anteriores, lembram-me que ficaram pelo caminho alunos excepcionais por haver um limite de matriculas e porque haveria médicos a mais e, menos de uma década depois, andamos a importar médicos da América do Sul.havia que defender o negócio dos barões da medicina.

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