Adalberto Mar – O meu 1.º de Maio de sangue

Devido a discordâncias com a linha editorial do Aventar, o nosso colega Adalberto Mar abandonou o blogue. Em jeito de despedida, aqui fica um dos seus primeiros textos, aquele que, no fundo, nos motivou a convidá-lo para integrar este projecto. Se me permitem um aparte pessoal, deixo-lhe aqui um grande abraço. Apesar da azeda troca de palavras, em privado, nos últimos dias, não deixa de ser alguém que me tocou, mesmo sem o conhecer pessoalmente. É alguém muito diferente da generalidade das pessoas que aqui escreve e mesmo das pessoas que conheço. Foi essa visão diferente da vida e do mundo que partilhou comigo ao longo dos últimos meses.
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Ao percorrer aquelas ruas e avenidas lembrei-me de quem por mim, há 4 décadas atrás, foi esmagado pela policia política. Qual poema triste e melancólica canção ao entardecer, senti-me triste porque senti que mesmo que fossemos muitos não éramos milhões. Senti que a juventude mais recente estava embriagada em casa, vendo os seus programas favoritos, os seus jogos de computador ou sublimando o dia com coisas doces e agradáveis.
E lembrei-me de uma Era que já morrera, ainda eu era adolescente em inicio de vida… Um fascismo cínico e feroz. NÃO CONHECI QUEM CONTRA O MAL, CONTRA O HORROR, CONTRA A DITADURA E O DESAMOR lutou. Não conheci as feridas que lhe lançaram ao corpo, não conheci as mulheres a quem queimaram os seios por dizer «quero ser uma mulher livre»! Não conheci o lutador a quem destruíram os genitais com choques, Não conheci, e estão tão «longe de mim», as mulheres que foram sucessivamente violadas pelos abutres do sistema de então, para que desse nomes, locais, histórias..Não sei o que foi feito delas no caminho da vida. Não sei do que é feito dos milhares de negros e de brancos cujo sangue humedeceu as terras de África, simplesmente porque queriam viver e crescer em paz e identidade com os seus filhos.
Não sei onde pára essa gente, verdadeira vítima e última razão para que eu hoje possa ser o que sou e possa dizer o que quero, em paz e com determinação. Para que eu hoje possa viver como quero e com quem quero, sem que me entrem na porta e me digam como «devo viver e o que devo dizer»!

Eu gosto de luxo, de cor e de suavidade. Gosto do toque da seda e do veludo na minha pele e no meu rosto cansado. Mas não posso, jamais poderei esquecer, o chão húmido e rugoso, o odor de podre que os meus irmãos, camaradas ou simples amigos, perdidos no tempo e no espaço tiveram de suportar, nas noites dos cadafalsos das prisões, para que eu hoje observasse o pôr do sol em harmonia com os meus sentimentos. NÃO POSSO NEM DEVO ESQUECER QUE O SOFRIMENTO DELES E DELAS foram ‘chão e adubo’ para que eu hoje deixasse crescer a minha sensualidade, sexualidade, harmonia, poesia ou palavra fluindo como o coração e os sentidos. SEM A DOR DELES NÃO PODERIA HOJE SENTIR AMOR. Devo-lhes isso e muito mais. Por isso, sem os/as conhecer, digo que são meus irmãos, amigos, camaradas e tudo o que for soletrado com graça, harmonia e raça.
Do alto do New York Hilton vejo a magnificência da noite bela e requintada de Manhattan , mas ao longe ..mais ao longe e mais ao lado vejo o Tarrafal do passado, quente, húmido ,já sem história e sem o glamour de onde estou, mas que determinou tanto e indirectamente a visão do conforto actual. Não há luxo no sofrimento humano, mas foi um luxo pago a ferro e fogo hoje podermos ser livres. Não posso esquecer quem partiu para África e com o corpo tombado, ermo, no chão da selva por lá ficou. FICARAM, CRUELMENTE TAMBÉM, AS RAZÕES NESSE SOLO SANGRENTO: ninguém e todos tinham razão, ninguém foi inocente, e todos foram culpados e absolvidos. EU NÃO. MAIS DO QUE NUNCA QUERO AGRADECER A QUEM GRITOU POR MIM, A QUEM MORREU POR MIM, A QUEM SOFREU POR MIM. LEMBRAR-ME-EI SEMPRE E PARA A ETERNIDADE quando olhar o pôr do sol no Torrão do Lameiro, perdido entre Deus, entre a vida, entre o MAR ETERNO, entre a Profunda Natureza e o Vento-amigo que me fala tão bem ao ouvido quente..SEMPRE QUE ALI ESTIVER, como se estivesse dentro de uma pura melodia de Sade ADU, LEMBRAR-ME–EI SEMPRE desses heróis caídos e esquecidos, dessa gente que por mim e por TI disse «QUERO SER LIVRE, QUERO PENSAR, QUERO AMAR» e pagou ou morreu por isso. POR ISSO MESMO, TAMBÉM CAMINHEI ONTEM NA RUA, POR ISSO MESMO ONTEM GRITEI «SAI DO PASSEIO JUNTA-TE AO NOSSO MEIO».A crise não me cala nem o corpo nem a alma! Porque, como uma bela árvore de flores ao vento, a liberdade tem de ser regada. Como quiseres: com água ou mel, com vinho ou com esperança, mas TEMOS DE ALIMENTAR E REGAR A ESPERANÇA, A VIDA, A LIBERDADE TEM UM PREÇO. O TEU.
VIVA O 1º MAIO, SEMPRE! POR TI, PELOS TEUS FILHOS, PELO IDEAL,PELA NATUREZA, PELO AMOR À VIDA. NÃO PENSES QUE SOMENTE A MODA É COOL! O 1º DE MAIO E PENSARES O QUE QUERES SEM TE ESMAGAREM É AINDA MAIS COOL! BE COOL! BE WILD BUT BE FREE too and most of all!

Comments

  1. maria monteiro says:

    Pois 1abraço virtual para “A” e… para o resto do Aventar «A crise não me cala nem o corpo nem a alma! Porque, como uma bela árvore de flores ao vento, a liberdade tem de ser regada. Como quiseres: com água ou mel, com vinho ou com esperança, mas TEMOS DE ALIMENTAR E REGAR A ESPERANÇA, A VIDA, A LIBERDADE TEM UM PREÇO. O TEU.”»

  2. RicardoF says:

    Abraço Adalberto.Talvexz esteja na hora de teres um blogue só para ti. Eu preciso de continuar a ler os teus desvarios e preciso de saber onde são as festanças da noite do Porto.Um grande abraço e espero que continues a Vagabundear por ruelas e calçadas e pelas Gran Vias de la Puta Madrid.

  3. dalby says:

    Obrigado a todos..eu, citando Shakespear dos Carvalhos, digo-vos «ando por aí», vêem-me por aí.. I’ll be around..agoro muito moreninho, Um escândalo-horrores de moreno total global nacional e internacional), no health club a perder kilos de uma maneira desalmada e a meter cremesinho nivea na paxaxinha da Beli e das outras amigas e amigos que comigo vão A la playa nudista…Até já conseguimos levar um GNR do Carmo Porto, dos que andam a cavalo quando há revoluções, para a praia do Torrão do Lameiro…era a 1ª vez que ele ia a uma praia nudista, mas ficou adepto e viciado….eu, Beli e Willy introduzimo-lo na arte de bem se despir na praia!!! E ele também meteu cremesinho nivea na Beli…aos amigos meto só nas costas! Somente por uma questão de decoro e para ver se o Luís se modera um pouco nos temas fracturantes!Mas de resto, o creme Nivea é um creme para toda a família!Um abraço a todos…e um especialmente ao meu camarada e colega e queridissimo Ricardo, a quem desejo votos de boa colocação, vou dando nouvelles!!!Adalberto no MAR, A DAR, A VOAR, A JOGAR (PINBALL!!!)