Luiz Pacheco – Um Libertino passeia pela vida. 1 – Apresentação


Luiz Pacheco nunca quis ser uma «pessoa respeitável». Fez tudo para não merecer essa classificação pela qual tantos se batem durante as suas vidas – foi repetidamente preso, não por política, mas por crimes de delito comum. A cadeia do Limoeiro foi para ele uma segunda casa. Passando em revista as suas «proezas», encontramos «abuso» de menores – embora tanto quanto se saiba não fosse um pedófilo; foi preso por crime de rapto e de estupro, alcoólico, abusando do vinho tinto e da cerveja, pediu dinheiro a toda a gente, chegou a andar a pedir esmola pelas ruas, ia aos quartéis pedir os restos do rancho para alimentar a família, falsificou selos, publicou textos teoricamente impublicáveis (mas de autores que depois se vieram a tornar famosos como Vergílio Ferreira, Mário Cesariny de Vasconcelos, Natália Correia, Herberto Hélder, ganhando o rótulo de «editor maldito», fez repetidas incursões na homossexualidade. Disse ter feito sexo com uma cadela… – «proeza» que depois desmentiu – Tudo isto nos chegou em depoimentos do próprio (pois foi ele o seu melhor biógrafo).
Nunca escondeu estas coisas e nem há como saber se tudo foi verdade – com ele, a profissão de chantagista deixaria de fazer sentido, pois enquanto muita gente inventa heroísmos e esconde o que não é bonito nas suas vidas, Pacheco fez gala (e inventou-os?) em ter cometido actos sórdidos. Embora os que comprovadamente praticou fossem suficientes para lhe ornamentar o currículo. Nunca experimentou drogas, fez questão de salientar – o bagaço, o vinho tinto e a cerveja foram suficientes para lhe causar problemas.
Esta luta incessante pela irrespeitabilidade, numa permanente e dir-se-ia que voluntária, descida aos Infernos, valeu-lhe, surpreendentemente, o respeito generalizado da comunidade literária. Não teria nada a aprender com François Villon ou com Bocage. Em todo o caso, é bom que se diga, citando Pacheco em entrevistas, falando dos seus amores por adolescentes – «as miúdas eram mais adultas do que eu, não havia pedofilia» e, outra coisa muito importante, «o libertino tem regras, por exemplo, não se mete com a mulher do amigo». Apesar deste «código deontológico do libertino», não é possível ignorar que algumas das proezas de Pacheco, nomeadamente o seu envolvimento com raparigas menores são hoje, ainda mais do que na época, crimes reprováveis. Porém, sem querer encontrar desculpas, há que contextualizar as coisas – o conceito de pedofilia não estava, por aquela primeira metade do século XX, implantado (os dicionários, os que registavam o termo, ainda diziam: «Pedófilo, s. m. – Amigo das crianças…»). Quando cometeu o primeiro crime de «rapto e estupro» tinha 18 anos, apenas mais quatro do que a «vítima». Casou com a sua a primeira mulher no Limoeiro. Reincidiu. Várias prisões, vários filhos – oito – três da primeira mulher, dois da segunda, mais três da terceira. Filhos, delitos e prisões confundem-se. Estão intimamente relacionados. Não gostava que lhe chamassem «escritor maldito» – «Maldito é o gajo que escreve mal», exclamava. Pacheco nunca quis quer ser respeitável e, sobretudo, não quis respeitar as convenções. É um mundo que não merece ser respeitado – «todos somos culpados até prova em contrário», afirmou.
Porém, de delinquentes estão as prisões cheias. Não é pelas suas incursões no submundo e na face oculta da moralidade instituída que o recordamos. Porque esta faceta da sua reincidente transgressão das normas sociais, esconde outra realidade mais profunda e duradoura – a grande qualidade da sua escrita. Luiz Pacheco é um grande escritor. A sua libertinagem tem muito de quixotesco, transmutando acontecimentos sordidamente banais em episódios épicos. Quando a bruma dos tempos desvanecer as suas aventuras de modesto libertino, transformando-as em lenda (como aconteceu com Bocage), dele ficar-nos-á, além da memória de um ser estranho, irreverente e associal, belas páginas, das melhores que se escreveram no seu século – O Teodolito, por exemplo, é obra literária de elevada qualidade. E foi um grande editor – além dos nomes acima citados, António Maria Lisboa, Manuel de Lima, António José Forte, Virgílio Martinho, foram publicados por Pacheco – tal como os anteriores.

Comments

  1. dalby-o-calmo says:

    Gosto do Pacheco, tem boa pinta! dalby

  2. isac says:

    Assim que vi esse documentário a rtp2, e apesar de nunca ter lido nada do Luiz Pacheco (nem sabia que ele existia até aí) tive logo vontade de rumar a Lisboa só para uma conversa informal, apesar do seu aparente e constante mau humor e excessiva frontalidade. Uma personagem tão ímpar da realidade portuguesa que merece de facto ser recordada. Para o bem e para o mal.


  3. Será que o Miguel Sousa Tavares, o vendedor de hipermercados, sabe que este existe?…


  4. O Pacheco não era mal humorado, pelo contrário, o bom humor dele é que era diferente. E , sobretudo, não tinha paciência para cortesias. O Miguel Sousa Tavares sabia e sabe da existência do Pacheco – mas pertencem a mundos diferentes. Não conhece aquela teoria dos universos paralelos? Abraço para o Isac e para o Arrebenta.

  5. dalby-o-calmo says:

    E eu mando também daqui um grande abraço para o Isac e para O Arrebenta (nunca adormeço com os vossos artigos interessantes e VIVOS!) outro maior e claro não podia, JAMÈ, deixar de enviar e de me esquecer, um outro xi coração para O Lenine, outro para o Estaline e claro para o Obama americano uma cuspidelasita porque os americanos são muito maus, são o sal-mau da terra, isto para ser pouco profundo e um tout petit rien de básico, of course!! Oh Arrebenta, eu adorava imaginar o que seria do Pacheco, num governo liderado pelo Arauto dos Arautos, pelo intocável Cunhal, pelo Sacro Pai Santo, que lugar dariam a uma mente brilhante como a dele num governo democrático do Cunhal?…Que Gulag ele iria ter..sei lá..são questões menores de que me lembrei!dalby


  6. […] (continuação daqui) […]

  7. manuel m bento says:

    Sinceramente a não leitura de Luiz Pacheco traduz-se por um quase não ter conhecimento de literatura. A ele devo o quanto cresci nas leituras de todo o tipo de escrita que empinei sem consciência e sem “medida” e que tive – por sua causa – de voltar a ler. Ele, é hoje, o meu ponto de referência quando leio. Parece estar sempre a ouvi-lo dizer-me: “Minha besta, não é assim que se lê!” Obrigado, ó Pacheco! Obrigado professor Pacheco!
    mmbento

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