A formidável derrota de Maria de Lurdes Rodrigues: Balanço de um mandato (1.º semestre de 2006)

(continuação daqui)

Poucos meses depois, chegava a proposta do novo Estatuto da Carreira Docente (ECD) que, caso único no mundo!, propunha a divisão dos docentes em dois escalões: professores e professores titulares. Sabendo-se que o conteúdo funcional da carreira docente é exactamente o mesmo do princípio ao fim, percebe-se melhor que só pode ser completamente obtusa a pessoa que congemina uma solução luminosa como esta. Para que conste, foi João Freire, sociólogo do ISCTE e o criador do monstro, o ideólogo da patifaria. Patifaria ainda maior porque lançada cuidadosamente no final do ano lectivo e muito perto das férias dos professores e das eleições da FENPROF.
Num «post» intitulado «Estatuto da Escravidão Docente», em 30 de Maio, Paulo Guinote considerava a proposta «a afronta derradeira desta Ministra aos docentes», mal sabendo que a procissão ainda ia no adro. Os diversos graus de penalização dos professores, a relação entre resultados dos alunos / resultados dos professores, a criação de um sistema hierárquico entre os próprios docentes ou o «emaranhado burocrático» em que se iria tornar o processo avaliativo eram algumas das incongruências apontadas nesse «post». Já para não falar, como é óbvio, dos ajustes de contas que começarão em algumas escolas entre aqueles que conseguirão chegar a titulares e os que não o conseguirão. Um verdadeiro «ano das facas longas», que vai tornar o clima em algumas escolas verdadeiramente insuportável.
Entramos no mês de Junho de 2006 e «A Educação do Meu Umbigo» começa a tornar-se no fenómeno que é hoje. Paulo Guinote, que iniciara a sua aventura em 30 de Novembro de 2005 e que até aí se limitra a meia dúzia de «posts», ou menos, por mês, começa a ser cada vez mais regular, porque os ataques aos professores começam também a ser mais regulares.
Ninguém consegue enganar toda a gente durante todo o tempo, mas, neste momento, Maria de Lurdes Rodrigues vive o seu «momento dourado», pois consegue enganar a maior parte das pessoas e manter-se como a corajosa ministra perante a opinião pública e a comunicação social. Quando é grande o salto, é grande a queda, e não há-de faltar muito para que, de intrépida e corajosa, passe a ser arrogante e mentirosa. E para que, mesmo no seio do PS, passe de trunfo a incómodo. De peso-pesado do Governo a simples peso. Quem diria, nesses tempos áureos, que dois anos depois não passaria de um cadáver poítico!
A entrevista de Maria de Lurdes Rodrigues à RTP 2 e à Rádio Renascença, nos inícios de Junho, foi demonstrativa da forma como a comunicação social protegia a ministra e não a confrontava perante as evidentes contradições. Através de um conjunto de gráficos falaciosos, demagógicos e que não tiveram contraditório, atirava-se para a opinião pública a ideia de que o Ministério gastava cada vez mais dinheiro e que os resultados não apareciam por culpa dos professores, que faltavam muito. «A Ministra de Rosto Humano» foi outro exemplo significativo da bem oleada máquina de propaganda na Educação.
Entretanto, Paulo Guinote vai anunciando o livro de um ex-dirigente da Inspecção-Geral das Escolas de Inglaterra, que fazia perguntas assustadoras como estas: «Porque é que um quarto de crianças de 11 anos passam para a Escola Secundária [em Portugal 3º ciclo] incapazes de ler?»; «Porque foram gastos milhões do dinheiro dos contribuintes em iniciativas que têm afundado os professores num pântano de papelada e burocracia e desnecessária?» Ou seja, exactamente o mesmo que se estava a passar em Portugal.
Mas o Ministério da Educação não parava. Chegara a vez dos concursos. Destruindo um sistema de colocação de professores razoavelmente incólume a vigarices, Maria de Lurdes Rodrigues passava para as escolas a responsabilidade de contratarem directamente os professores. Abria assim a porta para as cunhas, o compadrio, a corrupção. Conheço tantos casos de professores que foram colocados em escolas através de cunhas!
Entretanto, a inefável Ministra manda repetir os exames nacionais de 12.º ano de Física e Química, apenas porque os resultados foram negativos. Passando ao lado da injustiça que foi praticada para com os alunos da 2.ª chamada, que só tiveram uma oportunidade, é impossível não pensar que, com este tipo de medidas, é muito fácil abrir a boca toda para dizer que se diminuiu para metade o insucesso escolar. Claro! Aprovando alunos com 8 e 9 negativas, repetindo exames que correm mal e por aí fora.
Chegaram as férias. O ano seguinte iria assistir à intensificação da luta dos professores. Chegara a altura de endurecer o processo de luta. E os professores não se fizeram rogados.

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