Falando de democracia: Democracia vs «homens bons»


Esta canção «Tanto mar», que o Chico Buarque, compôs inspirado na nossa revolução dos cravos, espelha bem a esperança que, não só em Portugal, o 25 de Abril veio trazer. Voltaremos a falar delas – da esperança e da canção.
Em Outubro de 1987, Karl Popper veio fazer uma conferência a Lisboa a convite de Mário Soares, então presidente da República. Já aqui vos falei, a propósito do papel da televisão na sociedade pós-industrial, de Karl Popper (1902-1994), o grande filósofo britânico de origem austríaca. Nessa conferência, contou como, atraído na juventude pelo Comunismo, foi verificando ao longo da vida que a teoria da História de Marx e a sua profecia sobre o advento do Socialismo, apresentavam muitas falhas. E aqui meto a minha colherada – na minha modesta opinião, as falhas não são de Karl Marx, cujo raciocínio límpido só podia trabalhar com os elementos que possuía – a máquina a vapor, símbolo da Revolução Industrial, estava a revolucionar o mundo do trabalho, a transformar artífices em operários, a criar um «proletariado» e um «lumpen» ou seja, um «subproletariado». Quanto a esta última classe, colocada à margem do processo produtivo, Marx entendia-a como susceptível de se unir à vanguarda revolucionária ou de ser instrumentalizada e transformada em núcleo principal do exército contra-revolucionário. Gente que nada tem é mais vulnerável às promessas, sobretudo às falsas promessas.
Ele não podia conceber um futuro muito mais longínquo em que os operários iriam praticamente deixar de ser necessários, em que a força do trabalho (que era feita por trabalho de força) iria ser desempenhada por robôs e em que o lumpen seria substituído por marginais agressivos e poderosos, substituindo, de facto, nas chamadas democracias os poderes ocultos que as polícias políticas exercem nas ditaduras, mantendo os cidadãos aterrorizados. Isto era inimaginável há cento e sessenta anos. Aliás, prever o futuro é exercício impossível. Sou leitor frequente de Ficção Científica. Os amigos que compartilham este vício já repararam que os escritores de FC previram tudo, desde viagens a Marte até ao povoamento de galáxias a milhares de anos-luz, viagens no tempo e o diabo a sete, mas não foram capazes de prever o advento do telemóvel?
Quanto a mim, as falhas foram dos seguidores – por ingenuidade, estupidez, maldade, tirania, abusos de poder, corrupção – todos estes desvios foram cometidos nos diversos «comunismos» que irromperam no século XX. Marx já cá não estava. E como as seitas cristãs fazem com a Bíblia, assim os diversos seguidores fizeram com as ideias de Marx e de Engels – cada um deu-lhe a interpretação que mais água levava ao seu moinho.
Mas voltemos ao Popper – continuando, apesar do seu cepticismo, a sentir-se socialista, estudou o Marxismo em profundidade, acabando portanto por descobrir essas falhas e verificar que os marxistas mantêm uma atitude de arrogância intelectual. Lembrou que, há dois mil e quinhentos anos Sócrates disse «Sei que nada sei – e mal isso sei; só sei, portanto, que não sei. Mas quero saber e quero aprender». Foi ao amor pelo conhecimento, juntamente com a consciência da nossa ignorância, que Sócrates chamou «Filosofia», palavra que significa «ânsia de conhecer», «desejo de saber». Terá dito ainda que todos nós ansiamos por ter aquilo que não temos – neste caso, a sabedoria. Infelizmente, a tradição socrática perdeu-se e a maior parte dos filósofos, nomeadamente os marxistas, estão convencidos de que sabem (disse Popper). Falou depois sobre a sua «Teoria da Democracia».
A teoria clássica da democracia defende que o poder reside no povo e que este tem o direito de o exercer. Platão foi o primeiro teórico a sistematizar as diversas formas que pode revestir a Cidade-Estado: Monarquia – governo de um só homem bom: Tirania (governo de um só homem mau – perversão da Monarquia); Aristocracia, governo de vários homens bons – Oligarquia (distorção de Aristocracia, um grupo de homens maus partilhando o poder); finalmente, surge a Democracia – governo de muitos homens, ou seja, do povo; para esta forma de governação, não encontrou perversão ou distorção, visto que muitos homens, formam uma «Turba», e o conceito de Democracia inclui já, a par da sua forma correcta – um bom, governo do povo, a forma perversa – a barafunda e o caos – a «Turba».
Portanto, comprova-se que de Platão a Karl Marx, o problema foi sempre o de saber quem deve governar, quem deve estar à frente do Estado. Platão respondeu ingenuamente à sua própria questão – devem governar os melhores – os Aristocratas, os homens bons, mas nunca a Demos, a Turba, a balbúrdia, com saneamentos selvagens, manifes a toda a hora, assembleias populares por tudo e por nada (o Popper, coitado, não disse nada disto; é a minha mais do que suspeita interpretação do que o respeitável velhinho disse).
Popper terminava defendendo o sistema bipartidário, com argumentos que na altura até talvez tenham parecido razoáveis, mas que mais de vinte anos depois, verificamos não terem tido correspondência na prática, pelo menos na nossa prática. PS e PSD constituíram, cimentaram, uma «Aristocracia» perversa, endogâmica, feita de clientelas, de trafulhices mafiosas, de sacos azuis e negócios obscuros. De jogadas obscuras, como esta da TVI que vai configurando um golpe de um dos bandos em presença – ou um golpe e um contra-golpe – Sócrates (o José) não se livra da suspeita de ter assumido uma atitude censória, tenha-a ou não cometido. Porque «homens bons» é coisa que não existe nesta Aristocracia feita de gentinha rasteira que vai enriquecendo com o exercício desta coisa disforme a que chamam «democracia».
Esta é a realidade triste em que vivemos. Mas será que, sabendo que Karl Popper vinha defender um governo da Turba, Soares o teria convidado a vir fazer a conferência? Cá por mim, acho que Soares conhecia a teoria dos «homens bons» e por isso, porque ela lhe convinha (a ele, supremo «homem bom») convidou o mestre a vir contá-la aos indígenas.
*
Durante uma grande parte da minha vida, identifiquei Socialismo com Democracia e vice-versa. Mas desde cedo, foi para mim evidente que o chamado «socialismo real», o do Leste da Europa, o da China, constituíam traições descaradas ao espírito e aos princípios do marxismo. Considerava esses regimes como aberrações, fixava-me mais na Cuba de Fidel e de «Che» Guevara e prosseguia com o meu sonho. Até que Fidel, acossado pelo poderoso inimigo imperialista, foi forçado a cair nos braços doutro imperialismo.
Apesar destas desilusões, pensava que, mais tarde ou mais cedo, o verdadeiro Socialismo brotaria e floresceria. Pessoas mais velhas e algumas da minha geração, ouviam ao longe os harpejos dos «amanhãs que cantam». Eu bem apurava o ouvido, mas não escutava nada. Como de dentro dos búzios, vinha apenas o som das batidas do meu coração. E iam mais longe – identificavam esse tal «socialismo real» como paradigmas de liberdade e democracia. O 25 de Abril aconteceu e os que pensavam como eu e queriam construir o socialismo a partir do zero (quando falámos de socialismo à portuguesa, houve logo um gajo qualquer, cheio de «realismo» e «bom senso», que afirmou que «à portuguesa», só conhecia o cozido – reflexão a atirar para o estúpido, mas que se verificou estar certa; porque geralmente a razão dos estúpidos revela-se mais de acordo com a realidade). Outros, os que traziam o manual, as instruçõ
es
de montagem do sistema, no bolso, escritas em chinês, em russo, em coreano, em servo-croata ou até em albanês pensaram o mesmo que eu e todos exultámos – Vai ser agora. Mas foi rebate falso.
O sonho era belo. Como se diz no tema central de «Les Misérables», o musical americano (que, por acaso, vi em Londres e que o «fenómeno Susan Boyle, colocou de novo na ribalta) – but the tigers come at night, / with their voices soft as thunder… O sonho que sonhámos, the dream we dreamed, afogou-se em doses maciças de «realismo» e de «bom senso», quero dizer, falando claro, de corrupção e de jogadas sujas. Os tigres, ou, traduzindo, os tais «homens bons», estavam a pau.
Após a euforia, a disforia – comprovou-se o axioma de Tommaso de Lampedusa aventado em Il gattopardo – «Para que tudo fique na mesma é preciso que alguma coisa mude». Na realidade, estávamos todos enganados. Alguns porque queriam estar enganados (só quem não queria saber não sabia do sinistro pesadelo que na União Soviética e nos países do Pacto de Varsóvia se construiu em nome do socialismo; na China, embora Tiananmen ainda não tivesse acontecido, sabia-se também que chamar «socialismo» ao que ali se fazia era pura mistificação). Da Jugoslávia e da Albânia não merece a pena falar. Os que pensavam que era possível, partindo das ideias de Marx, Engels, não esquecendo os «contributos» de Lenine, Estaline, Trotski, Mao-tse-tung, Tito e outros, construir uma sociedade socialista, contavam apenas com o entusiasmo que transbordava das ruas para os partidos, sindicatos, comissões de trabalhadores, comissões de moradores, para os quartéis. E vice-versa. Esqueceram-se que paredes-meias com a nossa festa, o chamado «mundo livre» não dormia, pá.
Para lá da moribunda «cortina de ferro» também havia olhos postos em nós. E o «mundo livre» começava logo aqui ao lado, na Espanha sob a ditadura de Franco, com os generais impacientes a pedir autorização aos chefes do Pentágono para vir pôr ordem no quintal das traseiras. Sobretudo quando alguns tontos que se diziam de extrema-esquerda lhes fizeram o favor de assaltar a embaixada. Os americanos, mais experientes, estavam à espera que acalmássemos, que pousássemos. Que o problema se resolvesse internamente sem intervenções estrangeiras à vista – dá sempre mau aspecto. E o 25 de Novembro aconteceu. E de então até hoje a «normalidade» nunca mais deixou de crescer. «Socialismo em Liberdade», anunciavam os cartazes dessa época – «Capitalismo à solta», traduziram logo alguns.
Aí o temos, ao socialismo em liberdade.
*
Com este texto termino a série «Falando de democracia». Não que a democracia não justifique milhares de textos, mas porque creio que quem teve a paciência de ler alguns destes trabalhos já percebeu sobejamente em que águas navego e também aquelas em que não quero navegar (embora, mais ainda do que viver, como dizia o Fernando Pessoa, seja preciso navegar). Já sabem o que penso sobre Democracia e também sobre a «democracia» que podemos esperar desta gente que ocupa as cadeiras do poder. Só tinha a minha perspectiva para vos oferecer e já vo-la mostrei de muitos ângulos. Continuar seria como chover no molhado. Não quero tornar-me (ainda mais) chato. Desculpem algum excesso de rabugice (e se pensam que é da idade, procurem nas hemerotecas textos dos meus vinte anos – estou muito menos rabugento, acho eu). Até à vista.

A segunda versão de «Tanto mar», com que termino, dá conta da esperança que perdura, pois pode ser que, nalgum canto do jardim, tenha ficado esquecida uma semente…
Foi bonita a festa, pá.

Comments

  1. Adão Cruz says:

    Obrigado Carlos Loures pela clareza e pela honestidade do texto. Por essas águas também eu navego há muito, não com a destreza dos teus remos. O meu barco é mais frágil, às vezes mete água, outras vezes troca-me o rumo. Por isso, em tanto mar, é bom encontrar à flor das ondas pensamento vivos…como os teus.Um abraço


  2. Obrigado pelas tuas palavras. A beleza da canção do Chico, cantada a «dois tempos», esconde ou mitiga a amargura que transparece no texto. Adão, querido amigo, estou desiludido com isto. Um abraço grande.

  3. Luis Moreira says:

    Carlos, continua porque tu tens uma capacidade de sonhar que a maioria não tem aos vinte anos.


  4. Obrigado e um abraço, Luís. Amanhã começo com uma nova série.


  5. Obrigado e um abraço, Luís.

  6. isac says:

    “Aliás, prever o futuro é exercício impossível. Sou leitor frequente de Ficção Científica. Os amigos que compartilham este vício já repararam que os escritores de FC previram tudo, desde viagens a Marte até ao povoamento de galáxias a milhares de anos-luz, viagens no tempo e o diabo a sete, mas não foram capazes de prever o advento do telemóvel?” Eu partilho esse vício, e por isso não concordo que seja um exercício impossível. E, sinceramente, apesar de tudo, parecem-me os que estão mais conscientes do tempo em vivem, senão não poderiam prever tanta coisa. E o telemóvel? É apenas uma falhada entre tantas correctas. E há sempre os intercomunicadores do Star Trek. “Beam me up, Scotty!”


  7. Bem, Isac, não quis ofender a Ficção Científica, da qual sou fã quase incondicional. O Arthur C. Clarke (O autor de «2001 – Odisseia no Espaço»), com as suas ficções, inventou o satélite de comunicações, coisa muito mais importante do que o telemóvel. Foi uma imagem que utilizei para tentar demonstrar que Karl Marx, com os elementos de que dispunha em meados do século XIX, dificilmente poderia prever o desenvolvimento que a sociedade iria assumir no século e meio que se seguiu.

  8. isac says:

    Carlos, eu percebi a sua lógica e claro que não ofende nada. Mas precisamente por causa disso é que toquei nesse ponto. Face à “escrita política”, a ficção cientifica é sem dúvida insignificante em termos de peso. No entanto, parece-me que esses escritores estavam muito atentos ao presente, de outra forma nunca estariam tão perto das suas previsões. Ainda que eles não se inclinassem muito para as questões políticas, no meio da ficção cientifica e da parafernália tecnológica, é possível ler muita coisa nas entrelinhas. entre elas questões políticas e sociais. Metrópolis, do Fritz Lang é um exemplo brilhante disso. Não quero ser profético, mas por vezes, as respostas podem não estar no mesmo sítio das perguntas.


  9. Sem dúvida, Isac. Aliás, na série que inicio amanhã – «A máquina do tempo», presto homenagem a um pioneiro da Ficção Científica, H.G. Welles, e ao seu primeiro livro – The time machine – onde num futuro distante ele critica uma pungente realidade da sua época, o final do século XIX.


  10. A memória às vezes prega-nos partidas. H.G. Wells e não Welles. Welles era o Orson, Orson Welles. Aliás, os dois nomes andam sempre muito juntos, porque, utilizando a «Guerra dos Mundos» do Wells, o Welles pintou a manta do outro lado do Atlântico. Amanhã conto.

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