A máquina do tempo: «Salgalhadas na Lusolândia» ou como nada há de mais sério do que o humor

Hoje, a nossa máquina viaja até ao território da ficção. «Salgalhadas na Lusolândia»? Mais um título roubado? Não, desta vez, a minha cleptomania que tem vindo a agravar-se nos últimos tempos, não me atacou. Desta vez, não se trata de um furto, mas sim de uma citação, da transcrição pura e simples do título de uma novela do amigo José Luís Félix, um romancista outsider. Edita as suas obras em pequenas tiragens, funcionando à margem do mercado convencional. Isto porque as editoras (por razões compreensíveis) apenas publicam livros de autores muito conhecidos e comerciais – o que gera um círculo vicioso de dinâmica fácil de entender: não se é publicado porque não se é conhecido e não se é conhecido…

Há uns meses, José Luís Félix, lançou uma novela – «Salgalhadas na Lusolândia». Por «salgalhada» entenda-se confusão, mistura de coisas, mixórdia, trapalhada… Tudo coisas impossíveis de acontecer em Portugal, mas que na Lusolândia, um país imaginário (mas fácil de imaginar), se desenrolam a alta velocidade. Vou só dar algumas pistas.

Carlos Manuel, um alto funcionário da polícia secreta, uma espécie de Pepe Carvalho, vê-se envolvido numa trama de espionagem internacional. As personagens vão surgindo em catadupa – o primeiro-ministro Aristóteles, o político que implementou o Acelerex e o Melhorex, a veterana socialite Titi Canecas, o jovem Cristino Reinado, um ídolo do futebol e muitas outras. Carlos Manuel anda enquerençado até mais não poder pela Professora Maria Adelaide Rodrigues, uma assessora de informática da polícia. Uma assessora boazona, entenda-se. E essa fixação não vai facilitar nada um límpido discernimento por parte do alto funcionário, porque a Maria Adelaide (Milai para os amigos) faz mais parte do problema do que da solução.

Tudo começa quando a polícia secreta seguia um vendedor de tapetes, com turbante e tudo, e com uma grande pinta de terrorista. Será que o homem apenas vende tapetes, como afirma, ou anda a engendrar alguma tramóia contra a civilização ocidental? As coisas complicam-se com o envolvimento da CIATICA nas investigações, dado que se descobriu que os fundamentalistas da Alta Queda também estão envolvidos.

Através da CNN, o presidente da grande super-potência, o Cheap Valium faz uma comunicação ao mundo, sentado solenemente na Sala Esdrúxula, em plena Casa Preta. Na Lusolândia, o Berloque Sinistro entra também na dança denunciando estranhas cumplicidades… Há muita acção, perseguições vertiginosas através do Eixo Sudoeste – Far West, escutas comprometedoras e gravações das câmaras de videovigilância… Enfim, tudo coisas que só podem ocorrer em países imaginários como a Lusolândia.

José Luís Félix cria um retábulo delirante que merece a pena ser lido. Por isso, não revelo o enredo da história, limito-me a referir alguns aspectos da narrativa, sem vos dar pistas quanto ao seu percurso e desfecho. Se conseguirem encontrar o livro, não hesitem, comprem-no. E quando acabarem de o ler, depois de se terem rido, dirão. «O que vale é que isto é tudo fantasia». Ou não será?

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