As outras crises

O meu agrupamento escolar é aquilo a que antigamente se chamava humanidades e agora chama-se outra coisa qualquer, cujo o nome eu não me recordo, e não me apetece levantar para ir ver. É muito curiosa, esta área. Não venho para aqui fazer a apologia de uma área em relação ás outras, mas o engraçado é que aqueles que vão para humanidades porque querem algo mais que fugir à Matemática acabam por ganhar um “estigma” engraçado. Ora, porque vão para o desemprego, ora porque não têm nenhuma das disciplinas difíceis, ora porque é só decorar.

Foi há pouco mais de um ano que resolvi contrariar tudo aquilo que me era aconselhado, e decidi que vou para História. (pausa para que os caríssimos leitores possam pensar: “coitadinha vai para o desemprego”. Ou, “Estes gente deve pensar que sonhar leva a comida à mesa”, ou mesmo “daqui a 8 anos já a estou a ver num emprego precário, num call center ou pior, tipo ir dar aulas”.) Não que eu ache que os leitores sejam preconceituosos, mas são apenas algumas das impressões que quase sempre passam pela cabeça das pessoas em geral. Vou para História, é verdade. A Inglaterra e o Thomas More ajudaram à decisão bem como o Churchill, a Revolução francesa e o próprio Salazar. Esta mania de querer perceber as coisas, sempre soube que me havia de meter em problemas. Quero História desde os 7 anos desde que a minha professora da primária teve a infeliz ideia de distribuir uns livrinhos sobre a História de Portugal até ao D. Fernando e eu, em vez de passar o que estava no quadro, passava as aulas a ler aquilo.

Foi já há um ano que escrevi um texto para o meu jornal da escola, que se intitulava “a crise endémica”. Era, mais ou menos, sobre isto. Em Portugal há um estigma enorme sobre as pessoas que escolhem as ditas Humanidades. Não, não. Nós queremos é médicos, e advogados, e engenheiros. O resultado é praticamente este: “Então Daniela já sabes para que curso vais? Não, ainda não, ainda estou a pensar”. Sim, porque se eu disser que vou para a História, a cara das pessoas congela durante cinco segundos e depois ainda me dizem que não arranjo lugar como professora, o que nem sequer está, pelo menos directamente, nos meus objectivos.

Este estigma pode ser explicado de muitas maneiras. A “despromoção”, quiçá até o desprezo pelas artes e humanidades está, para mim, relacionado com a relação que temos, enquanto povo, com a cultura. Em Portugal não temos a “cultura da cultura”. O próprio Ministério da cultura em Portugal é uma anedota, como já várias vezes foi dito. E é assim porque o próprio Governo sabe que os próprios cidadãos, excepto uma pequena elite, não se interessam. Não querem saber. E por isso talvez não valorizemos as pessoas que seguem um curso mais intelectual ou teórico e menos prático, ou com menos aplicação prática.

Sim, são áreas de grande desemprego. E isso é assim em todo o lado. É evidente que alguém com um curso de economia arranja emprego mais facilmente do que as pessoas de História ou Literatura. Contudo, o que as pessoas de História ou Literatura querem da vida não será, certamente, aquilo que as de Economia ou Informática querem. Nem toda a gente quer fazer um site na net para depois vender à Microsoft.

É um risco, e estou ciente disso. Se falhar e as coisas não saírem como eu quero, espalho-me ao comprido. É verdade. Mas prefiro arriscar a não o fazer. Ao menos, tentei. E isso, na minha ingénua juventude, é melhor que nada.

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