A máquina do tempo: Caim – a Bíblia em causa

 

 

A recente polémica em torno de «Caim», o livro de José Saramago, faz lembrar uma outra, quando, em 1913, Roger Martin du Gard, o escritor francês que iria ganhar o Prémio Nobel da Literatura em 1937, publicou um livro que provocou escândalo – «O Drama de Jean Barois». A história gira em torno das incidências do famoso «caso Dreyfus». Em 1884, um oficial francês de origem judaica fora condenado por alta traição, usando-se para isso provas falsas.

No romance, um jovem (Jean Barois) renega a fé cristã e bate-se pelo ideal socialista empenhando-se, na senda de Émile Zola, na defesa de Dreyfus. Chegada a velhice, o temor da morte, leva-o de regresso ao seio da religião. Porém, ao morrer, num assomo de coragem, reafirma o seu ateísmo e a crença no determinismo universal.

 No seu percurso, Jean contesta a Bíblia e denuncia as fraudes a que esteve sujeita, o aproveitamento que se fez de erros de tradução, como por exemplo o facto de em grego clássico haver só uma palavra para dois conceitos, «virgem» e «jovem mulher». Tal abrangência do campo semântico da palavra deu lugar a um equívoco do tradutor para latim, erro que resultou na «virgindade de Maria», no culto mariano e em tudo o que lhe está associado.

O livro provocou grande escândalo com os habituais protestos da Igreja Católica. Mas, no ano seguinte eclodiu a I Grande Guerra, e a questão foi momentaneamente esquecida. No entanto, o livro de Roger Martin Du Gard ajudou sucessivas gerações a compreender os mecanismos que estão por detrás da crença cristã, nomeadamente da articulação formal da fé católica. Como disse, a propósito da celeuma criada pelo «Caim» de Saramago, voltou a falar-se do «Jean Barois» de Martin du Gard.

 

Embora se trate de dois romances provenientes de dois Nobel, nada a não ser o facto de terem criado um certo escândalo em torno da Bíblia, permite a comparação. O livro do escritor francês, não sendo a grande obra do autor nem aquela que levou a Academia de Estocolmo a atribuir-lhe o Prémio – terá sido «Les Thibauld» a assumir esse papel – é um livro que, como disse, tem ajudado gerações a compreender a permanente mistificação a que as estruturas eclesiais submetem os seus «rebanhos». É um monumento literário de grande importância.

Ao invés, o livro de Saramago é, no contexto da obra do autor, um livro acentuadamente menor. Não que esteja mal escrito, pois mesmo que quisesse, Saramago não saberia escrever mal. Todavia, com livros assim, nunca chegaria ao Nobel e, provavelmente, nem editores arranjaria. Vou referir um exemplo: uma jornalista pegou na «Aparição», a obra-prima de Vergílio Ferreira, digitalizou-a, mudou-lhe o título e fez uma série de exemplares na sua impressora, enviando-os com um pseudónimo para diversas editoras. Resultado: em nenhuma delas os respectivos serviços editoriais identificaram a obra. Todas responderam, recusando a publicação, com a carta normalizada – «Apesar da qualidade do seu original, não nos é possível…» etc. Tenho a convicção que, por maioria de razão, sem o seu currículo e sem a sua bibliografia, sendo «Caim» um livro de estreia, Saramago só o conseguiria publicar pagando a edição do seu bolso.

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Sei que para escrever o «Memorial» Saramago esteve durante uns tempos a viver na Ericeira e dali todos os dias ia no autocarro da carreira até Mafra, em cuja biblioteca, em pleno convento, foi colhendo informação para escrever o seu magnífico romance. Escrever um romance, embora nem todos tenham a envergadura do «Memorial» ou do «Ano da morte de Ricardo Reis», para além de todo o talento que o autor exibiu num e noutro livro, dá muito trabalho.

Pois, senti isso em «Caim» e sentira-o já em «A Viagem do Elefante», Saramago foge a esse trabalho. Escreve com o que tem armazenado na sua cabeça. Não será pouco, mas por vezes seria necessário um pouco mais. Não se dá ao esforço de fazer alguma investigação. Outro aspecto que se tem vindo a agravar de livro para livro é o dos castelhanismos que, em alguns casos, na transposição do castelhano para o português, resultam em erro sintáctico.

 Aqui ficamos sem saber se essa invasão do português por palavras e, sobretudo, por expressões e construções frásicas castelhanas, é fruto da distracção de alguém que vive imerso numa realidade idiomática muito semelhante à nossa ou se transporta consigo a intenção (que seria estulta) de contribuir para a unificação dos dois idiomas como primeiro passo para a absorção política de Portugal pelo estado espanhol.

Não estou sequer a insinuar que Saramago, com a idade, está a perder qualidades. De maneira nenhuma. Muito mais jovem, escreveu livros bem piores. No entanto, este livro tem sido, pela máquina de propaganda da editora, comparado ao «Evangelho segundo Jesus Cristo», obra que, há 18 anos, provocou também celeuma e, devido à desastrada intervenção de um tal Sousa Lara, obscuro sub-secretário de Estado adjunto da Cultura, que vetou o livro numa lista de romances portugueses concorrentes a um prémio europeu, levou o escritor a auto-exilar-se em Lanzarote. Pelo menos, terá sido a causa próxima para tal.

Veio também a Igreja, dessa vez pelo voz do arcebispo de Braga, D. Eurico Dias Nogueira, atacar o livro com diatribes sem nexo, concluindo que a eventual beleza literária da obra, longe de ser uma atenuante «constitui circunstância agravante da culpabilidade do réu, seu autor».

No lançamento mundial do romance, realizado em Penafiel, Saramago lançou a frase que caiu como uma bomba nos meios religiosos, católicos e não só – «A Bíblia é um manual de maus costumes!» E a Igreja voltou a cair na armadilha.  Agora foi um tal padre Manuel Morujão, porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa que lamentou a «superficialidade com que Saramago se debruça sobre a Bíblia». Porém, logo a seguir declarou não ter lido o romance. Como pôde então aferir da superficialidade ou da profundidade da análise bíblica do romance? Custa a crer que uma organização com dois mil anos ainda caia em alçapões destes.

Mas existem apreciáveis diferenças de qualidade e de intensidade nas duas obras. Com o «Evangelho», Saramago fez, como costuma dizer-se, os trabalhos de casa. Não estando também entre as grandes obras do autor é um livro mais bem estruturado, muito bem alicerçado, partindo do Novo Testamento para uma interessante história alternativa. Em «Caim», Saramago vai, ao sabor da inspiração, glosando o tema bíblico. Para usar o vulgarizado aforismo, abusou da inspiração em detrimento da transpiração.

Já se percebe que não gostei do livro e não precisarei de dizer mais para o tornar evidente. O que não me faz retirar uma linha de tudo o que aqui disse em defesa do direito de Saramago, ou de qualquer outro autor, de abordar os temas que quiser, incluindo os que às religiões dizem respeito. Era o que mais faltava que a Igreja Católica que opina sobre tudo e sobre nada, sobre o sa
gr
ado e o profano, nunca se eximindo de invadir áreas que para outros são sagradas, não pudesse ver criticado aquilo que considera sagrado.

No lançamento em Madrid da edição espanhola, realizado dia 3 deste mês, disse-se que, nas livrarias portuguesas, «Caim» se vende ao lado da Bíblia – o que podendo ter acontecido num ou outro estabelecimento, de modo algum ocorreu «nas livrarias portuguesas». Assumindo este disparate como uma verdade, Saramago comentou «Ya veremos qué montón baja primero».

A verdade é que em Portugal foram distribuídos 130 mil exemplares, dos quais já se terá vendido uma boa parte, cerca de cem mil. Em Espanha, circula desde há dias uma quantidade semelhante. A frase bombástica, sem equivalência transgressiva na textura do romance, pegou. Na realidade, não sendo um dos melhores livros de Saramago, não sendo sequer (na minha opinião) um bom livro, «Caim» está, desde o princípio, a ser uma bem sucedida operação de marketing. Disso não restam dúvidas. Não se pode ter tudo.

 

 

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