Cartas

 Cara Isabel Alçada

 

Vamos saltar a parte de quem eu sou. Sou uma aluna e isso deve chegar até porque o que lhe quero dizer não implica o conhecimento do meu nome ou mesmo idade.

 O seu nome era o mais esperado para ocupar a pasta da educação. Quando digo o mais esperado refiro-me obviamente ao facto que desde que o executivo se começou a preocupar com a reeleição que se sabia que a sua antecessora seria amavelmente convidada a ir-se embora. Quanto a si começou mal. Negou ter sido convidada três vezes (onde é que eu já ouvi isto?), quando já era muito provável que tivesse sido contactada para o efeito.

Mas à parte deste pequeno incidente, eu acredito sinceramente em si. Deve ser difícil fazer pior do que foi feito até agora; e é por isso que, na minha qualidade de aluna, lhe queria dar as boas vindas e também dar-lhe algumas sugestões que eu penso que podem ajudar.

É verdade que o Governo tem maioria relativa o que quer dizer que o diálogo vai ter que efectivamente fazer parte das políticas, algo que, como sabemos, esteve em falta até agora. É também urgente que se resolva o problema da avaliação dos professores e do ECD. E pode começar a considerar, embalada pela minha afirmação anterior, a considerar propostas de outros partidos. Também o estatuto do aluno, que apesar de ter sofrido alterações continua a ser um motor de promoção de injustiças em especial o malfadado regime de faltas.

Tudo isto são, contudo, matérias específicas e nesta carta não pretendo de maneira nenhuma ensinar-lhe a fazer o seu trabalho, que fará, com certeza, melhor do que eu faria, caso estivesse no seu lugar. Pretendo apenas pedir-lhe que compreenda que a exigência, a disciplina, o rigor não fazem mal a ninguém, muito pelo contrário. É necessário, ou melhor, é urgente a existência de um ensino que puxe pelos alunos e não que, pelo contrário, facilite a tarefa. A escola não é para ser fácil. A escola não pode ser fácil. E na educação, a escola e os alunos tem que estar em primeiro lugar. Acima mesmo da estatísticas que somos obrigados a mandar para a União Europeia. Interessa também, em relação aos alunos, que, em vez de os encherem com disciplinas que não interessam a ninguém, lhes dêem tempo para eles aprenderem a estudar ou pelo menos que tenham oportunidade de ter mais acompanhamento. O facto de haver mais escola não significa que a escola é melhor. Normalmente, pelo o que tenho vindo a perceber, significa exactamente o contrário. A escola não é um depósito de crianças.

A educação nos últimos anos em Portugal faz-me constantemente lembrar uma cena de uma das melhores séries de sempre, o “Sim, Senhor Ministro”. Há uma vez em que o Primeiro-Ministro da Grã-Bretanha pergunta à sua conselheira política: “O que é que eu posso fazer quanto à educação?” E diz a conselheira: “Fazer ou parecer que faz?”. E ele responde prontamente: “Parecer que faço. Não posso fazer, obviamente”. Só que aquilo era só mesmo uma série de humor. O que se passa em Portugal é a realidade. Por isso, senhora ministra, tente evitar que a educação se transforme numa anedota.

 

 

 

Comments


  1. Daniela, se ela sonha que tens a idade que tens, pede a demissão. Sabes que o Portas, num artigo no Independente, atacou o General Eanes, de tal forma, que ele quiz accionar, jurídicamente, o autor, só desistiu quando soube que ele tinha 17 anos. Tu escreves melhor do que eu, que quando tinha a tua idade tirava dezassetes a Português. Enfim, és uma Aventadora e está tudo explicado.

  2. Rosarinho says:

    Muito Bem! Muito Bem, Daniela!!!O problema é que a educação já é uma anedota, a meu ver.É preciso ter muita sorte com a escola, onde se vai parar.O que se espera da ministra é que a educação do estado burlesco a que chegou… Em muitas escolas já só se tenta sobreviver num depósito para JN mostrar, ou num qualquer contentor de ciganos a monte…Como aluna não peça tão pouco à Ministra.Peça-lhe que ela olhe com os OLHOS DE VER para o Circo em que as escolas foram transformadas! Os alunos não são nem palhaços nem animais a amestrados… ou a amestrar…

  3. Rosarinho says:

    Ah e Parabéns Daniela!Felicidades!

  4. Rosarinho says:

    Eu e as minhas gralhas….”O que se espera da ministra é que a educação…”Leia-se: O que se espera da ministra é que tire a educação…


  5. A realidade é que a tentação de ‘fazer que se faz, não fazendo’ é demasiado forte. 


  6. Caro Luis, parece-me que me dá demasiado crédito. 😉 Eu que até baixei, este ano, a nota a português!! Contudo, essa história do P. Portas não conhecia. E é bem engraçada…


  7. Obrigada pelo elogio, Rosarinho. Eu ainda tenho alguma fé…

  8. Rosarinho says:

    Eu é que lhe agradeço Daniela. Que texto tão bem escrito!Exijam à ministra que tire a escola deste Circo do facilitismo para Zé Povo ver.Os jovens merecem melhor do que isto!!!Esforço e Força! Felicidades!