A máquina do tempo: Gualdino Gomes – uma operação de resgate (2)

(primeira parte aqui)

 

 

 

 

 

Caricatura de Gualdino Gomes por Rafael Bordalo Pinheiro (1900).

 

Por volta de 1913 ou 1914, espalhou-se um dia pelos cafés da Baixa de Lisboa a notícia da morte de Gualdino Gomes. Quem conta é Raul Brandão: «o Ratola, velho companheiro na Biblioteca, se apressou a cumprir o seu dever de amigo, de camarada e de poeta. O Ratola é um funambulesco, balouçando-se dentro de uma sobrecasaca empertigada, luneta de tartaruga e ar de quem cumpre sempre uma missão importante – até quando vai à retrete. Subiu as escadas do prédio onde morava o morto (tinha lido o número da casa no Diário de Notícias), relembrando algumas frases de efeito… Abriu-se a porta do quarto onde o morto, coberto com um lençol, deitava já um cheiro adocicado – a cadáver e a aguardente. Duas mulheres, de preto, choravam ou rezavam. Ratola compenetrou-se, assoou-se com solenidade e disse para a que supunha ser a viúva: – Minha senhora: os meus sentido pêsames… Ele foi o que se chama um grande boémio – mas muito bom rapaz. O vulto de preto ergueu-se, protestando com dignidade ofendida: – Meu marido, senhor, nunca foi um boémio! Meu marido foi um modelo dos esposos e dos retroseiros! Mas o Ratola, que se sentia também magoado no seu valor e no seu conhecimento da vida, obtemperou: – Ora essa, minha senhora! Eu conheci muito bem seu marido e fui companheiro dalgumas borgas literárias… Um boémio! – Oh, meu Deus! Meu marido um boémio!… E, um a teimar que sim, a outra a protestar que não, estiveram quase a pegar-se diante do cadáver – até que empurraram o Ratola pela porta fora. – Eu conheci-o! O Ratola não conhecera aquele… Houvera engano. Quem morrera fora outro Gualdino Gomes, brasileiro», pois o nosso Gualdino, estava a essa hora na Biblioteca Nacional a encher verbetes, com o olho do Raul Proença em cima.

 

Não abundam, infelizmente, as fontes escritas sobre este homem que pouco escreveu e muito falou. Por isso, colhemos as migalhas de informação que fomos colhendo ou que, de uma forma ou de outra, nos chegaram. Por exemplo, Raul Proença agradeceu, no prefácio do primeiro volume do seu monumental Guia de Portugal, a assistência «paciente e crítica» de Gualdino na gestação daquela sua obra. Porém, o texto mais eloquente sobre a personalidade de Gualdino Gomes é, quanto a nós, as palavras da dedicatória do grande Aquilino Ribeiro, no seu livro Estrada de Santiago, palavras que transcrevemos na íntegra:

 

«Com a devida vénia de quem o sabe avesso à publicidade, peço licença para lhe dedicar este livro que leva um nome pomposo da arquitectura celeste e não passa de um nicho das almas, desses nichos de singela e cândida fábrica que velam à beira dos caminhos. No ofício das letras, tão mofino e miserando em Portugal, que ou a pena se parte, se acanalha, a guia fadário ou o Espírito Santo, a sua sombra, Sr. Gualdino Gomes, é, se volvo os olhos à retaguarda, uma das que encontro sobre os meus passos aprazível e tutelar. Vejo-o lá longe, no meu começo, apadrinhando o Jardim das Tormentas com a astúcia e a bondade discreta dum filósofo de Eleia. V. , que conhece todos os livros e ninguém vê com um livro, metera-o no bolso do jaquetão e dias a fio subiu e desceu o Chiado, à espreita a imagem verde, flamante, que lhe alegra a capa. Por este meio singular e outros, alvoroçou a curiosidade dos que o conhecem – ia dizer chamou a atenção da confraria literária em que capricha manter-se irmão leigo. Quando em Paris fui informado, enterneci-me. E, eu lhe digo, nessa circunstância, o impenitente perdulário do espírito, o amável zombador, que em si deslumbram, ofuscaram-se ante o homem de ânimo benigno, talhado dir-se-ia sobre um padrão de Anatole, se espontaneamente, visceralmente não fora essa a sua índole, muita sua por obra e graça só de Deus. Certo e ser V. como Sócrates, por Platão comparado aos Silenos que se viam expostos nas oficinas dos escultores, com uma gaitinha nos dedos. Ao abrir as duas partes de que se compunham, apareciam estátuas de divindades. Como ele, herdou de Mársias a veia faceciosa. O sátiro tangia frauta; a Gualdino basta a palavra para fascinar quem o ouve. Como ele, tem horror à escrita e joga ao vento, com um desapego soberano, o oiro de suas vozes e pensamentos e até o veneno subtil dos seus juízos. Como ele, ainda, é o catequista dos incipientes. Por todos estes argumentos que brotam do cérebro ou sobem do coração , eu lhe devia a fruste oferta deste livro. Muitas vezes, à janela, nas noites de lua baça, quando a Terra, em redondo, parece a boca dum cesto enorme, suspenso ao firmamento pelo aro luminoso da Via Láctea, em que tudo soçobra, homens, coisas e loisas, metia a mão no seio a procurar. Achava espinhos, remorsos, uma ou outra flor imarcessível, e a gente que aí vai, alguma celestial e sobre-humana, da muita que eu via andando, andando Estrada de Santiago fora. Digne-se, Sr. Gualdino Gomes, a ceitar a pobre homenagem, e, de meus ousios em escalar o céu, a Deus prestarei contas mais confiado.»

 

Gualdino Gomes é por muitos considerado um «escritor menor» e deste modo displicente atirado para as catacumbas do esquecimento. Vimos já que ele próprio se considera um «não-escritor.» Como bem diz Raul Brandão, «a sua mocidade irrespeitosa prolongou-se até aos cabelos brancos» e sempre preferiu arranjar mais um inimigo a perder a oportunidade de desferir uma das suas estocadas de ironia ácida. José-Augusto França define-o como uma «curiosa figura de erudito e de «blagueur» do Chiado.» Como podemos ver pelo testemunho de Correia da Silva e pelas palavras de Aquilino Ribeiro, a despeito da sua persistência na crítica mordaz, soube conviver com os mais jovens e ajudá-los sempre que lhes reconhecia valor e mérito. Um dos testemunhos orais que nos chegaram, foi o de Manuel da Fonseca, um dos jovens que teve o privilégio de o conhecer, e que afirmou ser Gualdino «um conversador fascinante.» E Manuel da Fonseca, além de extraordinário escritor, foi  também um emérito conversador e contador de histórias. Não esqueçamos o testemunho de Beatriz Costa que, num livro autobiográfico disse  só ter aprendido a ler aos 13 anos de idade e sozinha e que iniciou a sua alfabetização à mesa da Brasileira, rodeada por homens como Almada Negreiros, Gualdino Gomes, Aquilino Ribeiro e Vitorino Nemésio.

 

 

Balas de Papel foi o título de quatro opúsculos panfletários que nos legou, projecto de uma revista bimensal que durou dois meses, entre Novembro de 1891 e Janeiro 1892. Tratava-se de uma publicação de sátira política, social e cultural, cuja inspiração pode ser encontrada nos textos das Farpas e de Os Gatos, embora as diatribes não possuíssem a mesma riqueza formal dos modelos. No primeiro número, salienta-se a dedicatória a Fialho: «Ao Fialho de Almeida/Preito de vassalagem ao maior de todos os escritores portugueses/Saudação vibrante de entusiasmo ao escarnecedor justiceiro e temível dos Gatos.» Como sabemos, uma ironia de Fialho sobre um soneto seu ter-lhe-ã bloqueado a veia criadora. Pelo menos, essa é a desculpa que dá ao longo dos quase sessenta anos que se seguiram para quase nada ter publica
do
, pois além desses pequenos folhetos, escreve ao todo pouco mais de uma dúzia de artigos, dispersos por revistas e jornais. Publica também um soneto na Seara Nova, para além desse tal outro que, ridicularizado por Fialho, é, segundo Gualdino a causa próxima da ruína da sua carreira. É talvez muito pouco para justificar uma vida que se prolongou por mais de 90 anos e em que pelos menos 70 foram votados à literatura. Porém, não esqueçamos, Gualdino Gomes é sobretudo um leitor, a sua função é ler e dar a sua opinião, nem sempre caridosa, mas sempre honesta e desassombrada. As «balas de papel» que disparou não foram muitas, mas aquelas que fez de palavras proferidas nas mesas do Café Chiado, da Brasileira, ou do Martinho, tiveram preponderante influência em sucessivas gerações de gente das letras. Algumas perduram até aos nossos dias. E, se pensarmos bem, isso já não é pouco.

 

Eis a ficha biográfica que as enciclopédias não trazem:

 

Gualdino Gomes nasceu em Lisboa, em 19 de Abril de 1857. Nesta cidade passou a infância e fez os seus estudos, licenciando-se em Letras (Curso Superior de Letras). Durante a juventude viveu algum tempo no Brasil, no Estado do Pará, regressando depois a Portugal onde foi admitido como bibliotecário na Biblioteca Nacional.Em 30 de Novembro de 1891, lançou, com Carlos Sertório, a publicação Balas de Papel, da qual sairíam quatro números. Em 1 de Fevereiro de 1894, subiu à cena no Teatro Avenida de Lisboa a revista A Tourada que Gualdino Gomes escreveu de parceria com o conceituado dramaturgo Marcelino Mesquita. Fez parte do «Grupo da Biblioteca» que, liderado por Raul Proença, esteve na base de muito do que, na época, aconteceu na vida cultural do País, incluindo a criação da revista Seara Nova (lançada em Outubro de 1921). Desse grupo faziam parte, além de Gualdino, Jaime Cortesão, António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Raul Brandão, Afonso Lopes Vieira, Reinaldo dos Santos, José de Figueiredo, Raul Lino, Luciano Pereira da Silva.  Aquilino Ribeiro dedicou-lhe, em 1922, o seu livro de contos e novelas Estrada de Santiago, escrevendo um expressivo e comovido texto. Em1924,Raul Proença, no prefácio do primeiro volume do seu Guia de Portugal, agradeceu-lhe a colaboração prestada. Publicou em 1926, na Seara Nova, um soneto, uma das poucas obras que nos legou. Em 1927, atingiu o limite de idade, sendo aposentado do seu cargo na Biblioteca Nacional. Durante algum tempo, exerceu as funções de director-interino daquela instituição. Na passagem do seu 90º aniversário, em 19 de Abril de 1947, um grupo de amigos prestou-lhe uma homenagem realizada no Museu de João de Deus. Com 91 anos, morreu em Lisboa no dia 18 de Setembro de 1948.

 

 

 

Comments

  1. isac says:

    Aproveitando as novas tecnologias, dá sempre para publicar esta informação na wikipédia. Pelo menos não ficará totalmente esquecido. Ando a tentar perceber como é que se publicam lá os artigos. Não é tão simples quanto isso. E é também uma forma de continuar a influenciar as gerações seguintes.


  2. É uma boa ideia, Isac . Vou tentar – o velho Gualdino que, embora tenha coexistido comigo durante nove ou dez anos, não conheci, pois só fui frequentador dos cafés onde ele ia uns bons dez anos depois, merece o esforço e é uma pena perder-se completamentea sua memória. Vou tentar. Obrigado.