Seis questões sobre o 1º de Dezembro, feriado nacional conhecido por "Dia da Restauração da Independência de Portugal"

Choveram no mesmo instante pedras nas janelas e casas do Corregedor, despedidas dos rapazes e pícaros da Praça, os quais, animados com a assistência do Povo, subiram acima e botaram na Praça, furiosa e confusamente, quanto acharam nas mesmas casas do Corregedor e, fazendo uma fogueira defronte delas, se pôs fogo a tudo.Escondeu-se o Corregedor em uns entre-solhos. E, sendo pouco depois achado pelos rapazes, passou aos telhados por uma fresta […] se recolheu desairoso às casas do Cónego […], que estão paredes meias com as suas. […]

Manuel de Severim de Faria, descrevendo as Alterações de Évora de 1637

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Os acontecimentos de 1580 devem-se ao “desastre” de Alcácer-Quibir?

Não. Desde o séc. XV que as monarquias ibéricas tinham acordado na sua unificação política, sob o jugo de um mesmo rei. Apenas vários acidentes (a começar na morte do filho de João II, que seria o futuro rei de Portugal e dos restantes reinos ibéricos dominados por Castela) o tinham evitado. O rei Sebastião e a aventura dramática em terras da mourama apenas atestam que num regime monárquico é extremamente fácil um doente herdar a coroa. Mesmo assim e até por isso podemos dizer que hoje em dia o criminoso  de guerra Sebastião seria dado como inimputável. Filipe II de Espanha foi aclamado Filipe I de Portugal com toda a legitimidade, à luz das leis e da sucessiva intenção política do poder régio.

 

Em 1580 Portugal perdeu a independência e ficou sob domínio espanhol?

Técnicamente não é bem verdade. O regime estabelecido após 1580 designa-se por monarquia dual, ou seja, o mesmo rei era-o de dois estadosmais ou menos soberanos.

Filipe I tentou mudar a sua residência para Lisboa, no que foi impedido pela nobreza, uma porque não queria sair de casa, a outra, a portuguesa, porque adorava a vida na corte espanhola. Contudo no governo de Filipe III, o acordo que garantia a independência de Portugal deixou de ser respeitado.

 

Durante a dinastia filipina houve resistência à monarquia dual?

Entre o povo sim. A nobreza sempre se sentiu encantada com essa união, os intelectuais escreviam em castelhano, etc. etc. Na década de 30 houve várias revoltas populares, conhecidas por alterações, contra o poderio da nobreza e do clero, das quais a mais conhecida foi a de Évora, em 1637. Revoltas de um povo esfaimado e que não distinguia portugueses de castelhanos quando atacava quem tinha que comer, colocando o país a ferro e fogo.

 

Porque se dá o golpe de estado de 1 de Dezembro de 1640?

São várias as circunstâncias. Internamente a nobreza vivia em pânico com as revoltas populares. Internacionalmente o Duque de Bragança foi pressionado pela França para assumir o poder, o que primeiro recusou com o heroísmo que lhe era muito peculiar, e se viu obrigado a aceitar antes que o cheiro a fumo das alterações lhe chamuscasse as propriedades. Por outro lado e para não variar a norbreza mais jovem precisava de se fazer à vida, que o morgadio ainda era lei.

 

A que se deve o sucesso da chamada “restauração”?

A uma feliz conjuntura internacional, sobretudo a guerra na Catalunha que levou Filipe III a concentrar os seus esforços militares, permitindo a Portugal organizar o seu exército, com o apoio de potências estrangeiras rivais.

 

 

 

Comments


  1. As elites portuguesas estão sempre do lado da xuxa…


  2. caro jj cardoso,muito se usa o sarcasmo como forma de desmistificação das fantasias novecentistas. infelizmente, a mera contraposição pelo ridículo apenas reforça a criação de outro mito, agora de sinal contrário.dois pontos, para não me demorar.filipe ip e iie mudou mesmo a capital para lisboa durante um ano. essencialmente serviu para agradar aos portugueses e para fugir de madrid (onde os nativos lhe chamavam de ‘la bestia negra’).já esta posição resultava de mudança anterior, por culpa dos sevilhanos (onde o pai tinha tido capital) que tb não iam à bola com o germano-português. as razões foram, pois, de propaganda e de segurança (exemplo último, o recato da fortaleza do escourial).ao mesmo tempo, parece-me pouco provável que as necessidades culturais, chamemos-lhe assim,  da nobreza espanhola ou portuguesa, tivessem qualquer peso no ouvido do todo-poderoso felipe.a guerra/revolta na catalunha também é argumento sempre maneiro no apoio à auto-flagelação nacional.está bem, eles revoltaram-se e tal mas, o que estraga tudo é o facto de a guerra aqui mesmo, no brasil, no extremo-oriente, etc, ter durado 28 anos, terminando muito depois dos heróicos ceifeiros terem oferecido a sua vida pela liberdade dos camponeses lusos.cumprimentosp.s.: se d.sebastião era criminoso de guerra, d.joão i era um perigoso racista e a primeira dinastia então seria uma pandilha de genocidas…


  3. Recomendo a leitura das cartas de Filipe às suas filhas, escritas durante a sua estadia em Portugal. A mim convenceram-me da real intenção de mudar a corte para Lisboa, mas também pode ser da minha falta de cepticismo.Quanto ao “criminoso de guerra” fique claro que era uma piada anacrónica. À luz do tempo não tem qualquer sentido. Tal como não o tinha ir combater para Marrocos.


  4. Nem tanto assim, José. Naquele preciso momento, verificava-se a mudança da política expansionista ara o Atlântico, onde o Brasil e a óbvia necessidade da segurança das rotas marítimas, indicavam o controlo do norte de África como uma possibilidade estratégica muito real. Não se esqueça do peso do Império Otomano que durante ainda mais de um século, significou um constante perigo para a navegação no Mediterrâneo e para a própria Europa central.  Se Portugal tivesse vencido em Alcácer Quibir, D. Sebastião seria olhado de outra forma, mas a história foi o que foi. Não vale a pena tentarmos explicar a Restauração da independência, em benefício de factores exclusivamente externos, porque isso não é verdade. Nem sequer a revolta da Catalunha foi o factor decisivo, pois Portugal continuou por muitos anos a bater-se com os exércitos enviados por Madrid. Hoje não se tem a consciência disso, mas as batalhas finais da guerra, tiveram, pelos efectivos envolvidos, uma dimensão europeia e de longe superior às outras travadas durante o período em que grassava a revolta catalã. E como compara um país como Portugal, cuja coroa detinha um vasto império ultramarino, com uma província da coroa de Aragão? Hoje em dia está na moda louvaminhar a Catalunha e nem sei o porquê de tal insistência. É uma quimera que a realizar-se, trará enormes problemas ao conjunto da península ibérica, devido ao simples facto de o actual regime ter pela primeira vez na nossa história, conseguido submeter totalmente Portugal aos ditames económicos – absorcionistas – de Madrid. Mas isto é uma longa conversa.


  5. Exclusivamente externos também não. Mas: – facto 1: não fosse a revolta da Catalunha e a concentração do exército filipino esmagava facilmente um exercito que não existia em Portugal, em boa parte porque tinha sido devastado em guerras alheias. A guerra na Catalunha deu tempo a Portugal para preparar a sua defesa. – facto 2: o séc. XVII é o século dos impérios, dos novos e do ocaso dos ibéricos. A Guerra da Restauração não foi só ganha no campo de batalha, mas também no diplomático. Basta lembrar o triste episódio de Afonso VII e do casamento da rainha sua esposa com o cunhado e futuro rei Pedro II… sempre às ordens do rei de França; ou o dote da Catarina de Bragança que leva Bombaim para a coroa inglesa, trocando apoios diplomáticos pelo fim do império português na Índia.

  6. xico says:

    A conversa está muito interessante mas só não entendo duas coisas. 1º Em que é que a questão dos feriados irá melhorar a produtividade dos portugueses, já que a conversa das “pontes” é ela mesma um mito. As repartições pública há muitos anos que não fecham nos dias intercalados entre feriados e fins-de-semana (com excepção para o Natal). 2º Porque raio quer que o governo acabe com o feriado municipal de S. João? E então os outros feriados municipais? Será porque os feriados ditos religiosos têm muito mais implantação no imaginário popular do que os feriados civis, por força da sua ligação aos ritos agrícolas e cósmicos (S. João/ solstício)

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  1. […] a vida, e troco este de bom grado pelo 1º de Dezembro, data cuja irrelevância já afirmei como dia nacional da aldrabice historiográfica, explicando quase tudo em seis questões e suas […]