A máquina do tempo: nota sobre Federico García Lorca


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Depois de dois dias em que fui relatando o que ia acontecendo nas procura dos restos mortais de Lorca, vou hoje, finalmente, falar sobre a vida e a obra do grande poeta, embora os elementos essenciais da sua biografia estejam contidos nos dois vídeos que encabeçam este texto e que devem ser visionados de seguida, pois, no seu conjunto, constituem uma narrativa muito interessante.

Mario Hernández, catedrático de literatura espanhola da Universidade Autónoma de Madrid, grande estudioso da obra de Lorca, o jornalista Antonio Ramos, a empregada dos pais do poeta, María Matas e Alfonso Alcalá, da Casa Museu Fuente Vaqueros, traçam-nos um retrato impressivo, emocionado, mas veraz, da sua biografia. Dispenso-me de repetir esses dados.

No vídeo, ao som do hino republicano (Himno de Riego), quando se descreve o fuzilamento de Lorca, insiste-se no lugar de Alfacar como local de sepultura, coisa que desde ontem sabemos não ser verdade. Com esta ajuda, o meu texto de hoje, não é mais do que um simples apontamento sobre aspectos da vida, da personalidade, da obra do mais universal poeta de língua castelhana do século XX.

A sua poesia dos primeiros tempos é baseada em temas relacionados com a Andaluzia. Em 1918 publica «Impresiones y paisajes», em 1927 «Canciones». Em 1928 edita-se a primeira versão de «Romancero gitano». O universo poético onde a sua obra se movimenta, caracteriza-se por uma sistémica obediência a chaves estilísticas que se mantêm nos poemas, no teatro e na prosa. O amor, o desejo, o estigma da esterilidade são algumas das chaves, sendo que a frustração é como que um sol em torno do qual esses astros gravitam.

Há um ensaio muito interessante do Professor Manuel Simões que estuda a intertextualidade entre a poesia de Federico García Lorca e a de Manuel da Fonseca («García Lorca e Manuel da Fonseca Dois Poetas em Confronto», Milão, 1979) onde se analisa e quantifica a constância e a incidência desses símbolos quer na obra de Lorca, quer na de Manuel da Fonseca.

Em síntese digamos que na escrita lorquiana a lua, é um símbolo frequente de beleza, mas também para morte, erotismo, esterilidade ou fecundidade; a água que fluindo representa a vida e quando fica estagnada, simboliza a morte; o sangue, vida ou morte (quando derramado). O cavalo, símbolo da vida e do erotismo; ervas, metais, são símbolos também recorrentes na poesia de Federico.

Gôngora é uma figura tutelar, sendo muito visível a sua presença na utilização de metáforas em que a fronteira do real e do imaginário é ténue, quase inexistente. Distancia-se de Gôngora, no entanto, na medida em que a sua poesia, o seu teatro e a sua prosa, transportam conceitos e conteúdos muito concretos, muito ligados ao real quotidiano.

Foi inegável a grande influência de Lorca na poesia portuguesa dos anos 40 e 50. Num capítulo intitulado «Federico García Lorca: uma figura de romance», Manuel Simões, no estudo atrás referido, diz: «Por isso ao princípio era Lorca com a sua poesia de sol e lua (a alegria e o lamento da Ibéria) abrindo caminho, entre nós, para uma renovação que se impunha. Encontra no solo português ressonâncias familiares, condições óptimas para ser compreendida, rapidamente assimilada e transfigurada pelos novos “climas” em que se desenvolve. O seu itinerário é fonte de inspiração imediata, como documenta Joaquim Namorado, afirmando ser desejável “procurar na arte popular e no folclore as qualidades que permitam o aparecer e o desenvolvimento de uma arte verdadeiramente portuguesa pelo forma e pelo conteúdo, sem perder por isso universalidade e deixar de ser do nosso tempo. (“Vida e Obra de Federico García Lorca”, Coimbra, Saber, 1943)».

Além da evidente influência em Manuel da Fonseca, Lorca marcou poetas como Pedro Homem de Melo, Armindo Rodrigues, Joaquim Namorado e tantos outros. Pode mesmo dizer-se que o poeta andaluz, tão universal que «não reconhecia fronteiras políticas», deixou uma marca profunda nos homens da Presença e da Vértice. Com Lorca e com a sua obra – o neo-realismo português encontrou um guia seguro que lhe permitiu fugir da linguagem seca e descolorida que o caracterizou nos primeiros momentos e entrar pelas veredas mágicas e multicolores da palavra, sem deixar de ser fiel à verdade de uma realidade trágica e descolorida.

Homem sem fronteiras física ou psíquicas, Lorca, foi, sobretudo, um advogado da tolerância. Disse: «Sou integralmente espanhol e ser-me-ia impossível viver fora dos meus limites geográficos; porém, odeio o que é espanhol apenas porque é espanhol. Sou irmão de todos e abomino o homem que se sacrifica por um ideal nacionalista, abstracto, pelo simples facto de amar a sua pátria com os olhos vendados. Um chinês bondoso está mais próximo de mim do que um espanhol mau. Canto a Espanha, sinto-a até à medula, mas primeiro sou um homem do mundo e irmão de todos. Não acredito na fronteira política».

Numa declaração que fez em público afirmou-se, além de republicano, católico, comunista, anarquista, libertário, tradicionalista e monárquico. Era amigo do fundador da Falange, José Antonio Primo de Rivera, que dizia ser um «bom rapaz». Tal amizade não evitou que fosse denunciado anonimamente e detido a 16 de Agosto de 1936 em casa de amigos. O deputado católico (da CEDA), Ramón Ruíz Alonso que o mandou prender e fuzilar, considerou que ele era mais perigoso com a caneta do que outros com o revólver. Fuzilado três dias depois no caminho entre Viznar e Alfacar, o seu corpo terá sido enterrado numa vala comum. Julgava-se que em Alfacar. Desde ontem, sabe-se que não.

A “Canción tonta”, com que encerro, por hoje, a nossa conversa sobre o grande poeta andaluz, faz parte da colectânea «Canciones», obra que reúne mais de 80 composições escritas entre 1921 e 1924. Publicada em Málaga em 1927, sendo ainda um livro escrito na juventude, reflecte já uma grande maturidade poética. Maturidade que não impede que Federico aquí manifeste um lirismo marcado pelo bucolismo campestre da sua infância vivida em Fuente Vaqueros, na Serra Nevada. A mesma serra onde, algures, repousam os seus restos, em local que pode ficar para sempre envolto em mistério.

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