A torrar em lume brando

Como já todos se aperceberam Sócrates, não faz ideia nenhuma de como se sai desta situação, como não fazia quando a crise chegou. Mas há uma crise interna, estrutural que mina a capacidade do país e que tem sido escondida.

E a política do “tapa e esconde” continua como se vê pela tentativa de colocar nos centro do combate político o casamento gay e a regionalização. Não é que não sejam dois assuntos que a seu tempo devam ser dicutidos, as prioridades é que são outras, e tambem todos sabem quais são.

O desemprego que cresce sem cessar e a dívida que ameaça o desenvolvimento do país por muitos anos. São estes dois assuntos estratégicos que devem ser as prioridades e que devem concentrar todas as energias e toda a atenção.

Levar a oposição a desconcentrar-se destes dois assuntos chave e a esquecer o orçamento que irá materializar as políticas que realmente vão ser seguidas, é uma tentação para o primeiro ministro.

Igual tentação é apontar o dedo a Cavaco sempre que este tome uma decisão, seja ela qual for. Há sempre espaço para repartir responsabilidades, vitimizar-se, quiçá estender o tapete a decisões precipitadas resultantes do calor da luta.

Numa palavra, esta situação em lume brando é que não interessa ao governo, está só, já queimado, a apurar (se esta imagem de cozinha é permitida) para ser servida na mesa da sua incompetência, mentiras e suspeitas de compadrios.

Comments

  1. Carlos Loures says:

    Luís, o drama de Portugal (e não só) é o dos políticos que, durante as campanhas fazem promessas, não fazerem ideia de como as hão-de cumprir – se é que têm essa preocupação. Os chefes de Governo de Abril para cá, nenhum deles fez o que havia prometido, todos mentiram e, claro, Sócrates não é excepção. Salazar, pelo contrário, tinha objectivos bem definidos e, como não tinha oposição a incomodá-lo, criou os mecanismos que lhe permitiam atingir esses objectivos. Metas, aliás, modestas – no ensino, bastava saber ler, escrever e contar. Um caldo verde, um copo de vinho e um naco de pão (mais o sol da Primavera) bastavam como dieta alimentar e por aí fora. Este sistema a que chamam democrático funciona assim – os governantes são mentirosos, a oposição não lhes fica atrás (e não os deixa governar) e depois, filhos deste caldo de trapaças, temos casos como o da Casa Pia, em que governo e parte da oposição se aliam para que a verdade não transpareça. Não gosto de perder tempo com essa gente dos partidos. Como dizia o outro – o meu mundo não é deste reino (ou era ao contrário?).

    • Luís Moreira says:

      Mas alguem tem que dizer que o rei vai nu! Já te disse, Carlos, no dia em que o governo mude de cor, dou a mim mesmo dois dias de tréguas e recomeço. Eles sabem sempre porque estamos no contra. O Estado é uma necessidade que tem que ser limitada ao essencial, reune muito dinheiro, muito poder, mas não o poder de resolver os problemas das pessoas. Como dizia o ex-Presidente Eanes ” tantos meios e tanta incapacidade”. E Sócrates nem sequer se preparou para ser o que é!


  2. Pois claro, Luís. Mas é terrível depararmos com um cenário triste de falta de alternativas em matéria de ideias.

  3. maria monteiro says:

    Luís só dois dias de tréguas é pouco, muito pouco … não deves ficar obcecado pelo desgoverno do governo. Continua no teu ataque mas com uma certa distância para não perderes a lucidez

  4. Carlos Loures says:

    É isso mesmo, Maria, o Luís critica o governo passo a passo e, muitas vezes, precipita-se, porque as críticas têm de ser feitas com a necessária distância, ponderadamente. Por outro lado, atacando os sucessivos governos que se vão alternando no poleiro, nada se ganhará. O que é preciso, quanto a mim, é atacar o sistema que permite que dois partidos, liderados ambos por gente sem honra e sem vergonha, vão ocupando o poder em alternância. O país está transformado num bar de alterne.

  5. Luis Moreira says:

    Distância? Já lá estão há 11 anos nos últimos 13…

  6. Carlos Loures says:

    Não é a essa distância que eu, e penso que a Maria, nos referimos – é à crítica que fazes (não apenas tu) sobre as medidas do governo. Criticas, se for possível, na hora seguinte em que foram anunciadas. E o tempo que o PS tem de governo foi aquele que o eleitorado lhe atribuiu. Portanto, o que deve ser prioritariamente analisado, criticado e, se possível, desmantelado, é o sistema que permite que maus governantes desgovenem durante tanto tempo. Com críticas, muitas vezes sobre pormenores, sobre questões de lana caprina, não vamos a lado nenhum. E muito menos defendendo quem ainda consegue fazer pior do que o PS (coisa que parece impossível, mas que o PSD faz nas calmas). Tempo perdido, Luís. Tempo perdido.

  7. Luis Moreira says:

    Isso é negar a maior qualidade da democracia que é haver sempre alternativa.

  8. Carlos Loures says:

    Não nego a qualidade da Democracia, sistema de governo em que o poder é exercido pelo povo. Só que, ao optar-se pela chamada «democracia representativa», o poder é exercido por uma oligarquia constituída por uma classe política globalmente corrupta e servil, relativamente ao poder económico. Dirás que são chavões, mas é uma síntese do que penso da dupla PS/PSD. Substituir um pelo outro não é alternativa, como dizes; é, como dizem os brazucas, mais do mesmo.

  9. Carlos Loures says:

    Neste sistema (que pareces não contestar), só podemos fazer uma coisa – não votar no PS. Se a maioria insiste em elegê-los o que queres fazer? Dizer mal deles, elogiando o irmão gémeo (que ainda é mais anormal)? Nunca votei PS, mas votar PSD para apear um sócrates qualquer, é coisa que não farei. Ir-mo-nos embora não seria solução.

    • Luís Moreira says:

      Meu caro, no México, o partido do poder (que tambem não tinha alternativa) esteve lá 30 anos, quando saiu o México era o país mais pobre da América central. Não os deixar aquecer o lugar é fundamental se não, quando acordares, é o que já se vê…governo,banca,empresas (mesmo as privadas) comunicação social. E o resto vai saber-se quando estes beneméritos sairem do poleiro…

  10. Carlos Loures says:

    Caríssimo Luís, o PRI não esteve 30 anos no poder, esteve 71, entre 1929 e 2000 qundo o seu candidato foi derrotado pelo Fox Quesada. E houve eleições (acompanhadas por observadores internacionais) e os mexicanos votavam mesmo neles. Não acredito que o PS esteja 71 anos no governo; porém (e aí a nossa diferença de opiniões), se PS e PSD forem alternando é como se fosse sempre o mesmo partido. Solução? Batermo-nos pela democracia directa. Hoje em dia, com as novas tecnologias, é possível, em tempo real, milhões de pessoas participarem na mesma reunião. É a minha utopia. A tua, não compreendo.

    • Luís Moreira says:

      A minha utopia é que sendo este sistema que vigora e que irá ainda passar por outas fases, antes de dar o espaço a outro (talvez o teu) melhore, e o primeiro passo é estar no poder uma legislatura e chega. Não têm tempo de ganhar vícios e de tratarem isto como se fosse a quinta particular. Quanto ao México ainda foi pior do que eu pensava! Aquecer o lugar é péssimo!

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