A vidinha

Nas últimas semanas, tenho lido uma contra argumentação interessante face a um argumento que algumas pessoas utilizam em relação aos casamentos dos homossexuais. O argumento é que com tantos problemas que o país já tem, estar-se a discutir isto a esta altura do campeonato é ridículo. Eu não sou uma partidária desta opinião mas também não concordo com a contra argumentação. E não concordo com a contra argumentação, ou seja, com aquelas pessoas que dizem que os que acham que o país tem mais em que pensar, estão no fundo contra o casamento e acham que tem que se dar a devida importância aos direitos individuais e civis, porque me parece que os primeiros não estão assim tão despromovidos de razão.

Hoje foi um dia histórico para Portugal. Há 600.000 pessoas no desemprego. Sim foi aprovado o casamento dos homossexuais, mas agora vou fazer aquele exercício que normalmente não suporto, mas que hoje deu me para pensar nisto. Acham mesmo que as pessoas desempregadas, a mãe e o pai que não tem emprego, acham mesmo que esta gente se vai preocupar se o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi aprovado? Não, estas pessoas estão-se borrifando para isto. É isto que retira importância à questão? Não, não é, mas temos de ser práticos.

A pergunta é: há problemas mais importantes para resolver? Há. É mais grave que haja 600.000 pessoas no desemprego, ou que não haja casamento entre pessoas do mesmo sexo? Será que os 600.000 de desempregados, mais os dois milhões que vivem na pobreza como andam a dizer os jornais, se importam com isto? Não. Por muito mais que se atribua importância – e não sou contra isso – ao casamento dos homossexuais, como é que sentiram as pessoas com este género de problemas face ao que se passou hoje na Assembleia da Republica?

A hipocrisia desta questão é toda esta, que é confirmada pela disciplina de voto na matéria da adopção: o governo não está preocupado com os direitos civis nem com a discriminação nem seja com o que for. Isto foi uma manobra de diversão. Só isto, pura e simplesmente.

Comments

  1. maria monteiro says:

    tal como a plataforma cidadania e casamento também foi uma manobra de diversão!

  2. Fernando Moreira de Sá says:

    Certamente Daniela, manobra de diversão. Mas, sabes, era necessária esta mudança, era necessária, pelo menos para mim enquanto liberal de direita, acabar com mais uma interferência do Estado na liberdade de opção dos seus cidadãos. Mesmo sabendo, não sou parvo, que serve para esconder os graves problemas económicos e sociais do país. Ou não, como demonstra o teu post – mesmo dominando a actualidade mediática, não resolve essa questão, nem tinha de a resolver pois são matérias diferentes, mas não permitiu esconder a realidade do país.

  3. Luis Moreira says:

    É óbvio que o governo não está interessado em discutir as coisas importantes. Hoje já se sabe que tem andado a mentir este tempo todo. A dívida vai nos 120% do PIB, o que quer dizer que o país nos próximos 20 anos vai ser mais pobre. E o rendimento nacional (PIB- juros da dívida) é cada vez menor. Ou vamos ter mais impostos, ou empobrecemos, é opção que Sócrates nos vai deixar…

  4. Fernando Moreira de Sá says:

    Estou a ver o 1º página e verifico o seguinte Daniela:

    O casamento entre pessoas do mesmo sexo partilha primeiras páginas com a Educação, a crise, a cimpor, o eterno futebol, o orçamento. Ou seja, a manobra está fraquinha, eheheh.

  5. Ricardo Santos Pinto says:

    Vejamos as coisas pelo lado positivo: ultrapassada que está esta questão, a partir de agora vao-se debater os problemas a sério.
    Mas não é so culpa do Governo. Vais ver como, daqui a uns meses, durante o Mundial da África do Sul, os problemas económicos vão desaparecer como que por mistério.

  6. Daniela Major says:

    Caro Ricardo, o problema é que não me parece que isto fique por aqui…

  7. maria monteiro says:

    realmente a vidinha tem muito que se lhe diga…. há sempre meio mundo a chatear o outro meio

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