O provincianismo de Sócrates e Cª

„Quem falhar a primeira casa de botão atrapalha-se com o resto do abotoamento”

Johann Wolfgang von Goethe

Num seu artigo recente que recebi através da net, o Sr. José António Saraiva traz uma tese bastante plausivel que, em princípio, aceito.

De facto essa tendência de deslumbramento de pessoas nascidas na província – eu próprio nasci na provincia! – existe, mas tudo é uma questão de carácter das pessoas em questão. Assim, a grande maioria das pessoas nascidas na provincia, depois de passarem pela normal fase de deslumbramento, evoluem para pessoas úteis para a sociedade não sendo raros os casos de grandes sucessos realizados – se não tiverem problemas de carácter, claro.

Agora vamos ao essencial, precisamente ao paralogismo em que – uma vez mais – caiu o Sr. José António Saraiva. Ele, ao escrever “O PROCESSO chamado ‘Face Oculta’ tem as suas raízes longínquas num fenómeno que podemos designar por ‘deslumbramento’”, erra.

Em realidade as causas são bem diversas. Ora vejamos: para os tais “deslumbrados” poderem ascender “a cargos políticos de relevo” é indispensável uma coisa: poder, precisamente poder solidário, pelos menos incialmente. E este poder solidário só o podem adquirir pela mão de um sóciosistema que pelo seu comportamento linear se encontra em vias de declínio e vulnerável a pseudo-soluções.

De facto, quando então com a crescente perda do Norte se perde a habilidade de manter o necessário equilíbrio entre o ideológico e o pragmático, entre o espírito e a matéria, muitos lideres políticos mas também económicos – Globalização! – sentem-se inclinados em buscar soluções aparentemente prometedoras do tipo “mais terra-a-terra”. Muitas vezes quando essas soluções “terra-a-terra” e, sobretudo, os seus executores ganham vida própria começando a andar soltos, é tarde demais. E quando estas forças avançam, sozinhas e sem controlo eficaz, com determinados estrategemas (tácticas) e ultrapassando as elites, que em vez de determinar a indispensável ESTRATÉGIA se encontram a marcar passo sem ideia como hão-de saír do atoleiro, então um sóciosistema qualquer chega à situação na qual a UE, Portugal e o resto do mundo actualmente se encontram.

Era essa a “primeira casa de botão” que o Sr. José António Saraiva não acertou no seu artigo. Mas mesmo assim espero que o “Sol” continue a brilhar a bem da liberdade de imprensa. Isto será o caso, se finalmente as causas imateriais subjacentes aos actuais problemas forem identificadas e resolvidas correctamente. Caso contrário nos espera a imprensa “sincronizada”.

Rolf Dohmer

PS: o autor refere-se ao artigo “deslumbramento” no SOL que me dispenso aqui de apresentar

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