Collusion

Caro Mário Soares

A verdade é que eu nunca gostei de si. Vá se lá saber, talvez seja tradição familiar, ou talvez seja o facto de olhar para si e ver tudo aquilo que desprezo na política. Esta sensação acentuou-se desde aquele livro ” a última campanha”, que relata a campanha presidencial de 2006 para as presidênciais. Faz-me lembrar o que pensei quando soube que Richard Nixon era mal educado para os guarda costas.

Contudo, devo dizer-lhe que este artigo é bem capaz de superar tudo o que já li e ouvi de si. Demonstra que tenho razão. O senhor acha, como expressou várias vezes, que os partidos são a base da Democracia e isto é absurdo. Penso até que, pelo menos em Portugal, os partidos não contribuem em nada para a “saúde” da Democracia. Dizia um deputado inglês do tempo do Churchill: “quero lá saber dos princípios, respeitem mas é o vosso partido“. O senhor segue isto à letra, não é?
Diz o senhor que: “De resto, o partido que apoia o Governo – o PS – é bem conhecido do povo português, que sempre votou nele em todas as eleições, desde que há democracia, mesmo nos momentos em que as circunstâncias lhe eram mais desfavoráveis.” Pois. Se calhar deve ser por causa disto. Afinal, nos últimos 10/15 anos, com a excepção de uma pequena pausa de dois anos, os governos foram sempre PS.

“O PS sempre foi – e será – um partido defensor das liberdades políticas. São os seus genes e a sua filosofia de base” Mas claro que é. Nota-se nitidamente. Claramente. Basta ver a TVI, a Manuela Moura Guedes, o Crespo, o director do Público, a disciplina de voto (sim, não é exclusivo do PS, mas este é que é o “defensor das liberdades políticas porque os outros partidos, simplesmente, não têm esse direito), e toda uma panóplia de políticas e medidas que combinam em perfeição com a defesa das liberdades políticas. Especialmente, esta última do levantamento do sigilo fiscal.


Alguns anónimos bloguistas promoveram uma manifestação, em frente da Assembleia da República, para protestar contra o Governo Sócrates a pretexto da “asfixia democrática”. Foi um flop! Sabem quantos manifestantes compareceram? Pouco mais de cinquenta, contando com os “mirones”… Os jornais e rádios, que anunciaram a manifestação, tiveram o bom senso de não a comentar. Fizeram bem
Anónimos? Anónimos de serem cidadãos anónimos ou o anónimo-tipo-boy-do-PS-que-comenta-nas-caixas-de-comentários-dos-jornais? Há uma diferença. Depois, passando á frente da sua total deselegância, esqueceu-se de dizer no seu artigo que o timing e que a hora da dita manifestação não foi o mais indicado. E que em segundo lugar, esta foi uma iniciativa perpetuada por bloggers cujo o principal objectivo era entregar a petição a alguns deputados (o senhor também se “esquece” de o mencionar no seu artigo) – que foi o que fizeram. Ah e também se esqueceu de dizer que os manifestantes receberam respostas de todos os grupos parlamentares menos o do PS. Será certamente, mais um exemplo de “defesa das liberdades políticas”.

Depois o senhor diz também que:
Poucos portugueses acreditaram na veracidade da “asfixia”. Todos os dias lêem os jornais, ouvem as rádios e vêem as televisões. Que diabo?! Está em perigo a liberdade de imprensa? A última sondagem, publicada no Expresso, comprova a falsidade da acusação, dado que o primeiro- -ministro continua a subir nas sondagens, mais dois pontos, bem como o PS. A vitimização da sua figura é tão excessiva que só pode ser desfavorável a quem a faz… Como tem sucedido!

Pois. O Nixon também tinha sido reeleito pouco antes do Watergate. O que o senhor Soares não se apercebe é que mesmo que o Primeiro Ministro mantenha a mesma popularidade isso não compensa as irregularidades ou mesmo ilegalidades que possa ter cometido. Uma eleição não legítima crimes. Se calhar, o senhor Mário Soares também pensa como Richard Nixon: “quando um presidente o faz, quer dizer que não é ilegal”.

Não é fácil derrubar um Governo legítimo. Sobretudo em democracia, no Parlamento, porque a direita parece não querer arriscar a apresentação de uma moção de censura.
De facto a “direita” (como se o BE e o PCP também não tivessem papel nisto, mas em Portugal é mais fácil ser a Direita não é?) não quer arriscar. Mas isto é mais um exemplo da sua enorme hipocrisia. Porque o problema não é o governo. Aliás, com os novos ministros que tomaram posse há pouco tempo, não pode sequer ser o Governo. E a moção de censura derruba o Governo. O problema é o Primeiro Ministro.

E por fim remata dizendo:
Pergunto: A quem convém, num tal contexto, derrubar o Governo e provocar novas eleições? Sejamos francos. Quando o Governo, uma vez derrubado, por imperativo constitucional, no quadro parlamentar actual, teria de ficar, provavelmente, em gestão, até à realização de novas eleições? Aos Partidos, com certeza, não, tanto aos da direita como da esquerda, incluindo o PS.

Agora isto é chantagem. É dizer: se vocês derrubam o governo, isto vai tudo pelo cano abaixo! Tenho notícias: Já tudo está a ir pelo cano abaixo. Tudo. Nada está bem. E isto não pode ser desculpa para se evitar a demissão de um Primeiro Ministro. Esta chantagem, esta ideia é absurda. O que o senhor não se apercebe é que não é só a questão da “asfixia democrática”, o problema é muito mais intrincado do que isso. Aliás, é evidente que o senhor sabe disso. É evidente que sabe que a razão que levou aqueles parcos manifestantes a manifestarem-se e a razão pela qual 11.000 de pessoas assinaram aquela petição, não tem só a ver com a “asfixia democrática”. Mas disto não fala. Não admite. Não é digno de um “pai da Democracia”. E realmente, só a Democracia portuguesa é que precisaria de um “pai”. Sempre precisámos. É a nossa sina.

Cumprimentos,
Daniela Major

Comments

  1. Carlos Loures says:

    Bravo, Daniela. Compartilho a sua indignação (embora não aceite as soluções em que parece acreditar). Neste palco da nossa política, não existem bons e maus – são todos maus. É preciso mudar de palco, ou seja, de conceito de democracia. Estamos a usar o paradigma errado. Parabéns pela acutilância.

  2. Luis Moreira says:

    Muito bem, o problema é que é o país que sofre.

  3. António Soares says:

    Depois de ler o que escreves,fico com este dilema,sobre esse pai da democracia…qual foi mais ditador?…Salazar ou ele?…tinha 18 anos quando se deu o 25 Abril,por isso o meu dilema!!!

  4. maria monteiro says:

    António, eu tinha 21 anos e garanto que não tenho qualquer dilema… Salazar foi maior ditador

  5. Carlos Loures says:

    Só quem não viveu durante a ditadura pode estabelecer paralelo com a actual situação. O que se passa actualmente é uma luta de gangs. Nessas lutas há sempre crápulas que são sileciados por outros crápulas. Mas temos liberdade para o denunciar.

    • Luís Moreira says:

      Sem dúvida, não há paralelo,por isso mesmo é que é necessário travar tentações…

  6. António Soares says:

    Concordo com o que dizem…mas se fossem estes senhores naquele tempo,acham que estávamos aqui a escrever o que estamos?…olha que não,olha que não!Aonde é que eu já ouvi isto?!

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