As catástrofes da natureza

Adão e Eva expulsos do Paraiso

Falamos de catástrofe quando acontece uma grande desgraça que atinge muitas pessoas. Normalmente e da forma que tenho escrito nestes dias, adjudico o conceito às desgraças que têm acontecido no arquipélago da Madeira, na República do Chile e em toda a Europa do Norte, ao longo deste interminável, inacabável e fustigante, inverno das nossas vidas. Estes anos de 2009 e 2010. Tenho, por engano meu, pensado a natureza como elemento geográfico esquecendo, pelo facto das desgraças que nos acontecem, que o ser humano faz parte da natureza. Ao escrever sobre o ser humano como uma entidade que procura lucro e mais-valia, esqueci-me que estes dois conceitos fazem parte do pensamento das pessoas. O lucro e a mais valia não existem como elementos da natureza. Formam parte do pensamento, do cálculo, da procura da riqueza e do bem-estar, conceitos que fazem parte do pensamento económico do ser humano. Pensamento económico que tenho definido noutros textos como o trabalho que cria um conjunto de leis que presidem à produção e distribuição das riquezas. Donde, riqueza é o resultado da acumulação de bens poupados e investidos para render moeda.

Por pensar em conceitos dessa índole, tinha-me esquecido do criador desses bens, de quem prepara o seu bem-estar, o ser humano. Mas não apenas o ser humano. É, em conjunto, o ser humano e o seu trabalho. Trabalho definido como a criação de artefactos, semear a terra, produzir, conceito que Adam Smith em 1776, no seu famoso livro Um inquérito sobre as causas e motivos da riqueza das nações, um tratado contra o mercantilismo, define como a inclinação do ser humano para a produção. No livro I, páginas 3 a 77 do livro que uso, a primeira edição, define trabalho como bens criados pelo ser humano sem intervenção do estado como os seus precursores, os mercantilistas Bentham e os Mills, pai e filho, defendiam.

Smith é considerado o pai da economia moderna, e é considerado o mais importante teórico do liberalismo económico. Autor do livro anteriormente citado e que torno a referir por causa das hiperligações contidas dentro do título em azul, que abre o livro completo: “Uma investigação sobre a natureza e a causa da riqueza das nações“, a sua obra mais conhecida, e que continua como referência para gerações de economistas, na qual procura demonstrar que a riqueza das nações resulta da actuação de indivíduos que, movidos apenas pelo seu próprio interesse (self-interest), promovem o crescimento económico e a inovação tecnológica.

Smith ilustrou bem o seu pensamento ao afirmar “não é da benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que eu espero que saia o meu jantar, mas sim do empenho deles em promover seu”auto-interesse“, ideias que analiso no meu livro A economia deriva da religião, 2003, Afrontamento, Porto.

Não da benevolência, é da venda em dinheiro que se paga o bem produzido pelo trabalho, definida a importância por David Ricardo em 1812 e defendida por Marx na sua obra, especialmente em 1862 e 1863: Teoria da mais-valia.

Porquê esta cumprida introdução, que é praticamente o texto do meu ensaio? Porque antes de todos estes académicos, da por mim denominada sabedoria doutoral, definirem o trabalho, aconteceu uma catástrofe que obrigou o homem a trabalhar, quer dizer, a gastar as suas forças humanas na produção de bens para alimentar o seu corpo.

Adão, Eva, a serpente tentadora e a catásrofe da humanidade

Belzebu quis angariar mais forças, tentou os seres humanos e a partir desse dia, andou sempre a persegui-los, e eles, cheios de medo, a fugirem.

Apareceu um anjo, repreendeu o casal pela sua desobediência e mandou-os, em nome de Deus, sairem do Jardim e irem trabalhar.

E as hecatombes começaram.

É evidente que o texto está escrito por antigos hebreus, retiradas as metáforas do que acontecia na terra. As catástrofes entre os seres humanos eram tantas e tão difíceis de governar, que foi necessário criar divindades humanas chamadas Reis e escrever uma tábua que continha a lei do comportamento humano, ditando como este devia ser. Foi denominada essa tábua os Dez Mandamentos, esses que nunca se cumprem, pelo que foi necessário acrescentar, através do tempo, leis positivas para punir os desobedientes, os faltosos.

Se o leitor se lembra deles, melhor compreenderá o motivo para o aparecimento de um Código Penal, um Código Civil, os de Processamento Penal e Civil e as leis mais recentes para proteger dos que procuram lucros, o operariado, e dos libidinosos, as crianças.

As catástrofes da natureza, no meio do medo, são atribuídas a esta falta de Adão e Eva. Eis porque, em hecatombes, como as dos dias que vivemos, os templos enchem, enquanto outros, como na época de Moisés, que desapareceu para ouvir as leis ditadas por uma divindade, o povo começou a levantar-se, a roubar, a pilhar, como acontece nestes dias na cidade de Concepción, no Chile.

A metáfora, bem pensada, explica o terror que o céu inspira, ou a falta dele, até ao ponto de ter que se enviar o exército para resguardar a propriedade privada e levar para a cadeia os ladrões. A metáfora bíblica, passa a ser uma verdade não só para todos os dias, como também para os dias de hecatombes. Pode-se aplicar a sabedoria dos dez mandamentos para entender o desgoverno que os cataclismos causam e o terror que provocam. Metáfora feita realidade, o pior dos castigos para os que sabem cumprir a lei….mas que também precisam da lei para agir. Se observármos o comportamento quotidiano ao longo da vida de uma pessoa, verificamos que os Mandamentos, em vários momentos da vida, nunca são cumpridos. Como diz o meu amigo escritor Carlos Loures, o imaginário popular precisa sempre de um faltoso para lhe atribuir o mal que ele próprio comete.

Não sou homem de fé, mas sim um analista que sofre por este comportamento sacrílego em dias ditos normais, e em dias de crises económicas e punição por parte da natureza….da que nós, seres humanos, somos parte….

Proibição entrar ao Paraiso

Comments

  1. Ana Paula Fitas says:

    Vou fazer link, Professor… lá, no A Nossa Candeia!
    Um grande abraço.


  2. Concordo com a Ana Paula Fitas, excelente texto!
    Na minha óptica, mais virada para as ciências exactas, acho apenas que talvez seja um pouco antropocêntrico, já que julgo que que a natureza age porque tem de agir, ou porque se está a defender, ou porque os seus equilíbrios têm de ser repostos… não vejo na perspectiva do castigo. Mas certezas… quem as tem? Não sou eu de certeza (perdoe o contrasenso).
    Cumprimentos

  3. Raul Iturra says:

    Enviei um comentário a Ana Paula Fitas na sua A Candeia, mas o não o visualizo. è pena. O comentário deve ter ficado na A Candeia.

    Agradeço o comentário de Ana Paula Fitas. As hecatombes do Chile têm-me causado uma tristeza que passa a ser pranto, esse pranto silencioso que está presente em todos nós quando sentimos que nada podemos fazer pelos seres humanos que sofre. É um verdadeiro sentimento do Miseráveis de Victor Hugo. É por isso que escrevo e escrevo: as lágrimas são palavras que não ferem. É o que significa a frase cotada pela pessoa que comenta o meu texto e essa frase que é apenas um soluço calado: é uma metáfora. Nunca tenho-me esquecido de que sou humano: os estudo e analiso, como a mim próprio. Sempre soube que era parte da natureza…e as lágrimas escorregam em palavras…essa fácil forma de entender a vida e o sofrimento de todos nós. Chile está de joelhos, mau não partido, e menos ainda, quebrado…

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