Cumpra-se a igualdade de direitos e oportunidades e fiquem lá com o Dia da Mulher

Se há celebração do Dia da Mulher que me parece enternecedora é aquela em que os maridos, com olhinho pisco e sorriso cúmplice, dizem docemente às esposas: “Hoje vamos jantar fora, querida. Não te quero na cozinha, que hoje é Dia da Mulher”. Lembrarão inúmeras vezes no decorrer da refeição que a excepcional ida ao restaurante é uma celebração do “teu dia, querida”, e ao cair da noite não deixarão de recordar quão amorosos foram. E uma vez que ela até nem deve estar assim tão cansada, tendo ficado arredada da cozinha todo o serão, espera-se que seja generosa e que retribua, no seu dia sobre o qual está prestes a cair o pano, o carinho do esposo com toda a ternura de uma mulher amorosa.

Amanhã voltará para a cozinha, e não se falará mais no assunto, claro está. É sabido que até os escravos tinham direito a alguns dias de folga, pelos quais deviam agradecer aos seus amos.

Desde o seu significado original, que a Ana Paula Fitas bem descreve aqui, até aos nossos dias, o Dia da Mulher perdeu o seu sentido profundo que era, parece-me, recordar as conquistas, tantas vezes fruto de um tremendo sacrifício pessoal, das nossas antecessoras, e ressalvar tudo o que está ainda por conseguir. Actualmente vejo o Dia da Mulher transformado numa gincana de manifestações babosas e de pretexto para venda de bugigangas, quando não de expressão da hipocrisia por parte dos que continuam a pregar a igualdade e a pôr em prática o machismo, seja na divisão de tarefas lá em casa, no comentário alarve sobre a colega de trabalho, ou na perpetuação de estereótipos redutores e insultuosos.

Honra lhes seja feita, e antes que me crucifiquem, há muitos e bons homens que defendem e cumprem a igualdade de direitos, e que são os primeiros a denunciar qualquer atropelo a este princípio. E há muitas mulheres entre os machistas, também é certo, e por muito triste que isto seja.

Recordemos que até a “Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contras as Mulheres”, adoptada pela Assembleia-Geral das Nações Unidas em 1979, cujos signatários se obrigam a garantir por todos os meios o efectivo cumprimento do princípio de igualdade entre sexos e a garantir a eliminação de todos os actos de discriminação contra mulheres, foi assinada mas não ratificada pelos Estados Unidos da América, apesar das recentes promessas de um presidente que também é Nobel da Paz e que também é negro e casado com uma mulher igualmente negra e descendente de escravos. E se isto não chega para torná-lo sensível a qualquer tipo de discriminação, então já nada o fará.

Relembremos que a ratificação dessa Convenção não impede os países de efectuarem as reservas que lhes pareçam oportunas. A Arábia Saudita, por exemplo, permite-se introduzir o seguinte parágrafo:

“1. Em caso de contradição entre qualquer termo da Convenção e as normas da lei islâmica, o Reino não está obrigado a observar os termos contraditórios da Convenção.”

Deixemo-nos de ursinhos com corações, ramos de orquídeas ou jantares fora. A perpetuação deste Dia afigura-se como uma aceitação resignada da impossibilidade de acabar com a discriminação.

Do que as mulheres precisam é que lhes sejam reconhecidos e cumpridos os direitos que lhe cabem enquanto seres humanos. Precisam que se cumpra a igualdade de acesso à educação e ao trabalho, precisam de receber o mesmo salário que os homens que executam iguais funções, e que se lhes garanta o acesso a postos de chefia por mérito.

Precisam de apoio efectivo – judicial, psicológico, laboral – nos casos em que são vítimas de violência, seja ela de que natureza for, e de ver punidos, de forma exemplar, os agressores.

Precisam que se acabe de vez com atentados aos direitos humanos mais essenciais como o são a mutilação genital, a tortura, a negação de direitos civis, sociais, políticos.

Precisam que todos nos deixemos de tretas e que se ponha fim a uma das mais longas discriminações da história da humanidade.

Comments

  1. Pedro says:

    Completamente de acordo, Carla, é mesmo isso.


  2. Assino por baixo.

  3. Luis Moreira says:

    Muito bom !Tens têmpera, fibra…

  4. Luis Rocha says:

    Este texto reflecte a realidade da hipocrisia de uma sociedade que se diz defensora dos direitos humanos e da igualdade. A sociedade em geral e os politicos em particular são os defensores da continuidade da discriminação que grassa e que cada vez mais se acentua. Porque teimamos em fechar os olhos a esta realidade ? Todos temos a obrigação de denunciar as situações de injustiça que conhecermos e manter o espirito de luta da Carla . Parabéns pela sua coragem


  5. Nada a acrescentar. A não ser o aplauso.

  6. Ana Paula Fitas says:

    Obrigado Carla 🙂
    … pela referência e pela frontalidade :))

  7. ricardo says:

    Concordo…mas é sempre bom avivar a memória dos mais esquecidos. Acho que faz sentido a mulher ter um dia dedicado a ela e só para ela.Porque não?!….

  8. carla romualdo says:

    Obrigada a todos pelo incentivo! Ricardo, não tenho nada contra a celebração do Dia por parte de quem o quiser fazer (só faltava!) mas não me agrada que a data sirva para tapar o muito que ainda falta.

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