A pseudo-gaffe "José Trocas-te"

Sou insuspeito para falar em defesa de José Sócrates, por tudo aquilo que já escrevi nesta casa. E não estou interessado em ocupar o lugar anunciado para blogger que defenda o Primeiro Ministro.

Não gosto é de rir quando me fazem de parvo.

O que aconteceu ontem na apresentação da Estratégia Nacional para a Energia até 2020, o Primeiro-Ministro ser apresentado como “José Trocas-te” não foi uma gaffe: foi um claro achincalhamento de uma figura do Estado.

Não importa se gostamos ou não das pessoas. Eu próprio não gosto nem do estilo nem do conteúdo político do Primeiro-Ministro. Não posso é aceitar que alguém ache que tem o direito de numa sessão oficial gozar descaradamente o Chefe de Governo e vir dizer que foi um engano.

Não foi um engano, obviamente. Basta ouvir a solenidade e a firmeza com que foi dito.

Acho de muito mau tom aplaudir-se um acto de ridicularização pública, num acto oficial, de uma figura do Estado. Não reconheço tal direito a locutor algum, não importa o visado. E não aceito, porque se vive em democracia, e quem lá está não subiu ao poder por nenhum golpe de Estado, nem usurpou o poder. Foi eleito. Ou melhor, foi reeleito. E duvido que neste momento, alguém queira tomar o barco da governação.

Há momentos para tudo: um acto oficial não é sítio ou momento apropriado para um qualquer locutor se armar em esperto, quando foi pago para fazer um trabalho que deve ser feito com competência e seriedade. Se quer fazer comédia, que mude de ramo.

Quero ver se um dia alguém vai achar a mesma graça quando o mesmo acontecer a quem se respeita ou estima. O mal é estas coisas começarem e, ainda por cima, serem aplaudidas. É que quando se começa a baixar de nível, perde-se legitimidade para se demandar por respeito.

ADENDA: acreditando na versão apresentada aqui, sou a considerar que existiu efectivamente uma gaffe, e lamento as invocadas razões pessoais e emotivas da mesma.

Comments

  1. Ricardo Santos Pinto says:

    Tens razão, mas:
    1- teve piada.
    2 – o episódio mostra que já não há qualquer respeito pelo actual primeiro-ministro. E nisso, a culpa é só dele.

  2. Carlos Loures says:

    Totalmente de acordo. Por diversas vezes, tenho aqui verberado que a luta políitica desça ao nível rasteiro a que tem descido. O Partido Socialista e o primeiro-ministro, podem e devem ser contestados com argumentos políticos (e não faltam motivos para essa contestação). Achincalhar, perder tempo com questões de carácter pessoal, é abdicar da luta política, enveredar pela chicana. É uma «oposição» formada pelas novelas da TVI e pelas revistas «do coração». Afinal governo e oposição padecem do mesmo mal – incompetência e baixo nível.

  3. Luis Moreira says:

    O problema é que ninguem o respeita.

  4. maria monteiro says:

    e se fosse um aluno a achincalhar assim um professor num qualquer acto solene?


  5. Ui, meu caro! Então teria com que se aborrecer todos os dias. A comunicação social não tem qualquer tipo de pejo em tratar políticos, governantes e demais cidadãos por tu, ou por dá cá aquela palha. Oscilamos entre o doutorio excessivo e o tu cá tu lá. Não há livro de estilo para isso, apenas vulgaridade. Por isso a graçola foi infeliz, mas não destoa no meio da arruaça que grassa.

  6. J. Mário Teixeira says:

    #1 # 3: Desconheço a estatística sobre o respeito havido a José Sócrates. Seja qual for, para mim não justifica o achincalhamento.
    #4 : Não aceito qualquer desrespeito de um aluno para com um professor, seja em acto solene, na sala de aula, no recreio ou no café. Como também não concordo com ovos arremessados contra a Ministra ou a sua viatura oficial. Nem é isso que está em causa no meu texto.
    #5: Realmente a vulgaridade vai grassando na nossa comunicação social. Recuso-me é aplaudir isso ou outros actos afins.

    • Luís Moreira says:

      Estamos de acordo, mas isto são sinais de algo muito preocupante, que é a falta de respeito.

  7. Pedro says:

    Não acredito que se tenha tratado de um acto voluntário por parte do apresentador, logo não acho que seja uma pseudo-gaffe.
    Foi uma gaffe, penso eu. Estas coisas são preparadas, o apresentador é seleccionado, tem uma carreira a defender, o momento é solene, o único que verdadeiramente fica em maus lençois é o apresentador.
    Enfim, defender que se tratou de uma atitude propositada é acreditar em mais uma teoria de conspiração. Para mim não tem pés nem cabeça.
    A provar-se o contrário, concordo inteiramente com o artigo.

  8. Carlos Loures says:

    Nada justifica a falta de respeito. Este primeiro-ministro não é mais mentiroso, nem mais ridículo do que a maioria daqueles que o antecederam. Pode não se ter respeito pela pessoa, mas deve-se ter respeito pela instituição e, sobretudo, devemos ter respeito por nós próprios e não descer tão baixo. O problema é que a maioria dos jornalistas não é capaz de fazer a tal críica séria e, portanto, disfarça a sua cultura rafeira com brincadeiras inconsequentes. E a maioria dos leitores acha graça. No entanto, nas próximas eleições, essa maioria vai votar Sócrates. É uma tragédia.

  9. Carlos says:

    Não foi uma gaffe. Foi claramente uma graçola de mau gosto. Acho Sócrates insuportável, mentiroso, incompetente, vigarista e inculto, mas não aceito desrespeitos ao Estado nem aos seus representantes oficiais. Mas o problema aqui é mais denso… Sócrates é o paradigma deste modelo social contemporâneo, da vigarice, da graçola fácil, da incultura, do culto pela aparência, da parolice nova-rica e provinciana. O que aconteceu, neste caso da falsa gaffe, é que Sócrates está a ser vítima deste mesmo modelo social que ele mesmo representa, defende e promove.
    Uma sociedade que considera a aparência como o verdadeiro conteúdo, desprezando o pensamento e a ontologia, acaba necessariamente por produzir estes abortos.
    Aposto que o paspalho locutor ainda foi muito enaltecido pelos amigos e espera-o um lugar de destaque num canal público de radiodifusão quando a oposição estiver no poder.

    • Luís Moreira says:

      Eu julgo que isto foi uma graçola, estes locutores têm as coisas bem estudadas antes de entrarem em palco. E não acredito que o tenha feito sem conhecimento dos dirigentes da empresa!Uma falta de resspeito, tambem ao Sócrates mas ao Estado.

  10. Pedro says:

    Continuo na minha, acho que foi uma gaffe, um acontecimento involuntário. E volto a dizer que também acho grave se não se tratou de gaffe.
    Quanto aos jornalistas e bloggers, penso que, se aconteceu e possuem imagens, devem divulgá-las. Não por falta de respeito, mas ter ter ocorrido uma gaffe. Isso sempre se fez, com Bush, com Ieltsin, com Lula, com Soares, etc, etc, etc.
    Basta ser humano para cometer uma gaffe, todos já o fizemos e sempre se brincou com isso.
    Não é a reprodução de gaffes que põe em causa as instituições, é, isso sim, aquilo que se faz e diz de modo sério e, sobretudo, aparentemente sério. Ou quando se achincalha voluntariamente.

  11. Talvez... says:

    Pedro :
    Não acredito que se tenha tratado de um acto voluntário por parte do apresentador, logo não acho que seja uma pseudo-gaffe.
    Foi uma gaffe, penso eu. Estas coisas são preparadas, o apresentador é seleccionado, tem uma carreira a defender, o momento é solene, o único que verdadeiramente fica em maus lençois é o apresentador.
    Enfim, defender que se tratou de uma atitude propositada é acreditar em mais uma teoria de conspiração. Para mim não tem pés nem cabeça.
    A provar-se o contrário, concordo inteiramente com o artigo.

    Também creio que. Se calhar é assim que se refere a ele nas horas livres, e escapou-se-lhe durante o serviço.

    • Luís Moreira says:

      Sim, essa explicação é razoável. eu numa empresa onde trabalhei e em que o gajo além de me pagar principescamente tinha uma grande cabeça, disse-lhe que o Jorge sampaio ” o cabeças” ía ganhar as eleições. Passados uns meses tive que sair…

  12. Carlos Loures says:

    Mais mentiroso do que o Santana Lopes, do que o Guterres, do que o Durão Barroso? Claro que não é. Está é há mais tempo no lugar.
    Voltando ao apresentador e á gaffe ou pseudo-gaffe. Pelo tom em que é dito, não parece uma gaffe. De qualquer dos modos é um mau profissional.

  13. Carla Romualdo says:

    Estou de acordo, mas parece-me estranho que um locutor profissional opte pela graçola numa situação destas, sabendo que está a pôr em risco a sua carreira.

  14. Carlos says:

    A intervenção do locutor não foi uma gaffe, evidentemente. Tenho muitos anos de experiência de locução na rádio e sei bem distinguir uma gaffe, até mesmo aquelas que escapam a quase todos os ouvintes menos atentos reparam. Há entoações, requebros de voz, velaturas inusitadas e uma série de sinais que nos revelam a gaffe. É assim que funcionam os polígrafos. Ali ouve claramente uma intenção.
    Repito que abomino o sr. Pinto de Sousa, mas acho deplorável que (recorrendo a métodos semelhantes aos que ele promove) se desrespeite um primeiro-ministro democrática e legitimamente eleito. Se queremos verdade e respeito temos de usar da verdade e do respeito. Sempre!

  15. Pedro says:

    Carlos: tem muitos anos de locução de rádio? E quantas gaffes, seja honesto para consigo?
    O erro é humano, é uma coisa simples de compreender. Um locutor optar pela graçola é mais difícil compreender e, neste caso, tinha tudo a perder.
    Eu, que também fiz rádio em directo, cometi várias gaffes, tive engasganços e gaguez uma vez ou outra. Perante um microfone fala-se com convicção e boa modulação, nas apresentações públicas procura-se o espectáculo, a hipérbole sonora. Quando a gaffe sai, vai com as mesmas características.
    Coisa diferente é admitir que o locutor graceje em privado com os amigos utilizando dada expressão e isso lhe saia involuntáriamente em público. Tantas vezes vai o cântaro à fonte…

  16. Carlos Loures says:

    De acordo, Carlos. Não me parece que aceitar a tese da intecionalidade, seja enveredar pela teoria da conspiração. Pode não se tratar de uma conspiração, mas de uma coisa tão simples como uma aposta. De qualquer das maneiras, como diz a Carla, o homem colocou o lugar em risco. Direi mesmo que, a não grassar no meio a maior bandalheira, nem estaria em risco, mas sim perdido. Por gaffe ou por intenção deliberada, não é aceitável tratar assim um primeiro-ministro. Por pior que ele seja.

  17. Pedro says:

    Carlos Loures: estou de acordo consigo quando diz que não é aceitável tratar assim um primeiro ministro. Eu próprio já o disse várias vezes nestes comentários, quando afirmei achar grave se o homem o fez voluntariamente.
    Mas eu não sou advogado de defesa do locutor, apenas ACREDITO, CONCEBO, ter sido uma gaffe. A ter sido, não se trata de ser ou não aceitável tratar assim fulano ou sicrano, ou então não seria gaffe, erro, lapso ou o que se lhe queira chamar.

  18. Pisca says:

    Pronto já fizemos todos a nossa parte, correcta, educada, respeitadora e por aí fora

    Agora cá no fundo, apenas para cada um de nós

    “Foi uma boa malha !!!!”


  19. Eu ontem não queria acreditar que era verdade, e não acredito mesmo que tenha sido algum “erro” , dito com tanta convicção e bem sonante, sem hesitações… ou era um jovem e inexperiente locutor que desconhecia o nome do primeiro-ministro (deve ser difícil ainda existir alguém )…
    Por muito que me tenha rido (é verdade) ainda foi mais o meu assombro dada a ocasião e por se tratar do governante. Realmente não será pela via do desrespeito por uma figura que afinal, apesar de tudo, é fruto de um acto democrático, que se poderá legitimar qualquer crítica, e nem que seja apenas por isso deve ser objecto de consideração pública.


  20. A intervenção do locutor não foi uma gaffe nem tão pouco uma graçola. Foi tão somente o corolário do nível a que a educação e o respeito chegaram, no nosso País.
    Chega-se até ao ponto de aplaudir ou considerar corajosa a estupidez e falta de nível do tipo.
    Mais dois bons exemplos do bom caminho que em Portugal levamos.


  21. .

  22. Ricardo Santos Pinto says:

    Carlos, por favor não compares este primeiro-ministro com qualquer um dos anteriores. Projectos da Guarda, casa comprada por 30 mil euros (limite da Sisa) na Av. Roma em 1990 (projecto desaparecido), apartamento comprado a metade do preço na Heron Castilho, licenciatura manhosa, Freeport, Cova da Beira, Sovenco, terrenos de Setúbal, TVI.
    Uma coisa é mentir politicamente, que nisso são todos iguais. Outra coisa é este primeiro-ministro.
    Mantenho que este primeiro-ministro não se dá ao respeito e por isso não admira que não seja respeitado. E mais: foi bem feito.


  23. Tens um “tacho” garantido com o comentário

  24. Carlos Loures says:

    Só me interessam as mentiras políticas. Quanto ao resto, nenhuma das acusações que lhe fazem está provada e, portanto, a figura da presunção de inocência deve prevalecer. Por outro lado, nenhuma vida privada resiste a uma análise feita à lupa.
    Para mim, nada disso conta. Basta-me julgá-lo no plano político – é um falso socialista e é um mau primeiro-ministro. E temos ao nosso dispor argumentos que permitem combatê-lo politicamente. Porquê então procurar lixo de uma forma tão desesperada?
    Estou a defender o Sócrates? Acho que não. Penso é que não devemos rebolar-nos no lodaçal.

  25. Talvez... says:

    Gaffe ou não-gaffe, eis a questão. Porque se a questão fosse se é inapropriado chamar ao Primeiro-Ministro José Trocas-te, eu diria que não. Até porque, pela calada ou em comentário com os colegas, muita gente tem para ele apelidos muito piores…

  26. Ricardo Santos Pinto says:

    «Não está nada provado». Eh eh, essa costuma ser a defesa dos socratistas.
    Olha, em relação ao Pinto da Costa também não está nada provado. Ganhou sempre em Tribunal. E no entanto…

  27. Carlos Loures says:

    E, no entanto, eu continuo a preferir usar argumetos políiticos e não o lixo, real ou não, da vida privada dele. Quanto ao Pinto da costa, está tudo provado – ouçam-se as escutas. Porém, estas não foram autorizadas. É absolvido por erros processuais da acusação. E, nesse caso, as questões pessoais não contam; só as que têm a ver com irregularidades desportivas.

  28. Fernando says:

    Assim mesmo é que é bonito, presunção de inocência para todos menos para a hipótese de gafe. Concordo com o autor do comentário 2 mas acho que ele anda a perder tempo a discutir com esta gente. Agora é tudo de propósito ninguém se engana. Anda tudo doido.


  29. Afinal foi mesmo gaffe, e justificada

    http://tinyurl.com/yfph9x8

  30. Pedro says:

    Gaffe? Não, foi propositado, então não se vê logo? Propositado é a hipótese mais simples e lógica, gaffe é uma hipótese absurda e rebuscada. Não se está mesmo a ver?

  31. Ricardo Santos Pinto says:

    Não, Carlos, segundo a tua lógica nada está provado. Porque só fica provado se o Tribunal der como provado, algo que não aconteceu. E desculpa lá, mas o processo Face Oculta, onde tudo está bem provado – basta ler as escutas – é tudo menos privado.
    Ou só funciona para o Pinto da Costa? Que coerência!

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