Cenas do quotidiano no Inferno

Há uns tempos, estava eu ás duas da manhã a ver um documentário intítulado os “meninos de Gaza”. Eu pergunto-me como ainda por haver crianças, (ou até pessoas) em Gaza. Para já, não percebo muito bem como é que ainda há gente para morrer mas por outro lado, é um bocado como haver crianças no Inferno, se é que existe tal coisa (Talvez exista e seja em Gaza).
Não me apetece entrar aqui em discussões Palestina vs Israel, o post não é sobre isso. Contudo, é interessante como ás vezes nos esquecemos, por variadas razões que incluem certamente um bocadinho de propaganda e desonestidade intelectual, que há pessoas normais em Gaza. Que vivem lá, que tem uma vida, que trabalham.
Neste documentário só um dos rapazes é que tinha uma família (um tio ou coisa que o valha) ligado à Jihad islâmica. O pequeno Ibrahim, depois do pai ter sido morto segundo ele por um israelita diz, com toda a naturalidade, que se quer juntar á Jihad para vingar a morte do pai. O curioso no meio disto é que quando perguntaram ao Ibrahim o que é que ele faria se encontrasse uma criança israelita, ele disse que não faria nada. Porque para ele o problema não é a criança mas sim os adultos, os pais da criança.

Depois tínhamos a Alman. Não sei bem como, de facto prefiro não saber, mas a miúda tinha estilhaços de vidros na cabeça, devido ao facto do prédio onde estava ter sido destruído nos bombardeamentos. A criança, que não podia ter mais que sete anos, foi a Israel depois de horas (horas, muitas horas) à espera para, depois em Israel, o médico lhe dizer que o melhor era não fazer nada e que ela teria que aprender a viver com aquilo na cabeça, que obviamente lhe provocava dores terríveis e interferia na visão. Eu não sou médica mas não me parece que ter bocados de vidro na cabeça seja coisa para fazer uma pessoa muito saudável. O médico, de qualquer maneira, estava com uma cara que parecia dizer: de qualquer maneira vive em Gaza, não há de durar muito mais.

Os casos que mais me impressionaram foram os de dois rapazes, ambos com menos de 10 anos que tinham leucemia. Um precisava de ir ao Egipto para receber tratamento. Entraram num autocarro e depois de horas à espera não os deixaram sair e tiveram que voltar para trás. O outro, um rapazinho cujo o nome não me lembro, e envergonho-me por isso, estava deitado numa cama, magro, a vomitar o pouco que tinha comido, e os pais diziam desesperados que não conseguiam sair, nem para Israel nem para o Egipto e que o filho precisava urgentemente de tratamento caso contrário iria acabar por morrer de uma morte dolorosa. Impressionou-me o desespero dos pais mas impressionou-me ainda mais a apatia da criança. Como se soubesse que, de facto, não havia nada a fazer.

Passei o resto do documentário a perguntar-me o que teria acontecido àqueles dois miúdos. No final, é-nos dito que o primeiro rapaz conseguiu de facto ir ao Egipto para receber tratamento com o pai. O segundo acabou por morrer.

Antes de estarmos com discussões rídiculas do género: mas afinal aquilo é deles, e afinal há bombas, e afinal eles são terroristas, acho que devíamos primeiro pensar que o que se está ali a passar é uma tortura. A living hell. E isto É um facto. Encarem-no.

Comments


  1. O ‘post’ é muito bom. A única reserva que levanto é não pretender trazer a lume o conflito israelo-arábe. É precisamente desse conflito que emanam as condições de vida sub-humana dessas crianças de Gaza. São um capítulo de um conflito, que talvez não se queira debater, mas é omnipresente e, como se confirma, tem vítimas.

  2. Luis Moreira says:

    Por isso mesmo é que é necessário encontrar uma saída, não vale a pena atribuir culpas.E a solução é um território dois estados. E Daniela, em Israel tambem há crianças vítimas desta guerra. Menos ,mas há!

  3. adao cruz says:

    Antes de ver o comentário do Carlos Fonseca, já a minha cabeça gerava um igual. Não é possível, Daniela, entender este Living Hell, sem entender o conflito e sem pormos a nossa cabeça a funcionar e sem alinharmos a nossa razão pelo fio-de-prumo. E deve estar, obrigatoriamente, na geração jóvem a força desse entendimento. O post mostra bem mais do que queres dizer. Ainda bem.

  4. irene portela says:

    eu também vi este documentário impressionante, só que ele relata o que nós já conhecemos, através de livros,artigos e comentários e há muito tempo, mas as decisões tardam em chegar, porque os interesses falam mais alto e cada vez há mais interlucutores, a debitarem sobre aquele desgraçado país.

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