Metas na Educação – que dizem sindicatos e esquerda ao zurrar do educonomês?

As escolas continuam sob bombardeamento, com ameaças como a do corte do desporto escolar, por exemplo. Uma das bombas mais recentes caiu sob a forma da obrigatoriedade de definir quantitativamente metas, de acordo com esta emanação pestilenta do educonomês, a nova linguagem que domina a Educação e que consegue juntar o pior do eduquês ao mais horrível do economês, sempre em prejuízo dos alunos. Para os que vivem afastados do mundo do ensino, fiquem a saber que, graças ao Programa Educação 2015, as escolas são obrigadas a definir, até 2015, e por ano lectivo, a percentagem de sucesso a alcançar nos exames nacionais ou as taxas de abandono, por exemplo.

O rendimento de um aluno depende de vários factores pessoais, sociais e conjunturais. O compromisso que a sociedade tem com cada aluno, através das escolas e dos professores, é um compromisso com indivíduos. A escola deve orientar o seu trabalho para que cada aluno melhore, deve servir os alunos.

Os objectivos propostos no Programa Educação 2015 já há muito que são perseguidos pela escola portuguesa. Este Programa, no entanto, levanta dois problemas: a procura de convergência com outros países e a definição de metas colectivas quantificadas ou a quantificar. A busca cega por uma convergência já contém perigos que devem ser evitados: a globalização pode e deve originar solidariedade, mas não pode ser fonte de pressões artificiais que poderão obrigar países com problemas diferentes a atingir resultados semelhantes num mesmo período. Por outro lado, a quantificação de metas, já praticada em programas como as Novas Oportunidades, constitui uma degeneração da essência do processo educativo, exactamente porque se pede metas colectivas que colidem com o compromisso que cada escola tem com cada um dos seus alunos.

Imagine-se, por exemplo, que um professor, ao iniciar um novo ano lectivo, tem exactamente os mesmos alunos do ano anterior. Cada aluno é, por estranho que possa parecer a muita gente, um ser humano, nunca completamente previsível, cheio de alterações e permanências, sentindo novas motivações e desalentos inesperados. Pode esse professor desejar que esse grupo de alunos aprenda mais do que no ano anterior? Pode e deve. Deve o professor procurar melhorar, de modo a que a aprendizagem melhore? Deve, com certeza. Poderá esse mesmo professor, em consciência, então, prometer, afirmar, garantir que a percentagem de aprovações ou de abandono vai subir ou descer? Não pode.

Imagine-se, agora, professores que não têm os mesmos alunos do ano anterior. Multiplique-se isso por centenas de alunos em cada escola, ou seja, centenas de universos particulares inteiros, ainda e sempre imprevisíveis. Qual é o professor que pode garantir que a taxa colectiva de reprovações ou de abandono é uma meta exequível, seja em que medida for? Não pode, como não pode um conjunto de professores, como não pode uma escola, ainda menos pode uma autarquia e muito menos pode o próprio Ministério.

Face a isto, viro os ouvidos para a esquerda e para os sindicatos e que ouço? Um silêncio profundíssimo, assustador. Há, até, quem diga que só uma Direita muito conservadora poderá pôr cobro a medidas tão reaccionárias. Não chega para lhes dar o meu voto, mas é suficiente para me sentir distante dos que me são mais próximos.

Comments

  1. Telmo Barbosa says:

    Meus amigos lá venho eu mais uma vez lançar a minha posta de pescada, pouco acertada é certo mas pelo menos fico mais feliz.
    O que realmente me chateia bastante no meio disto tudo, é que andei na interrupção do 1º período a frequentar uma acção no âmbito das TIC, o que devia eu ter frequentado era uma acção de estatística e probabilidades. Fiquei mesmo tentado em frequentar por conta própria um daqueles cursos manhosos de tarot, que tem como formador o professor Chibanga, alias, se ele sabe o que têm pedido aos profs. na escola ao nível de previsões, desconfio que ele desmonta a tenda e vai pregar para outra freguesia,2015…2015 é muita fruta, somos mesmos bons nas artes da previsão, ou não.
    Bem meus caros amigos, acho que esta na hora de mais uma vez nós unirmos como já o fizemos anteriormente, são poucas as vezes, mas são boas, e vamos lá ler a bola de cristal para Lisboa, eu levo a tenda, o incenso e a bola de cristal, alguém leve as cartas….

    • Fernando Nabais says:

      Ora nem mais. Na reunião em que andámos a brincar às adivinhas, alguém disse que devíamos ir todos embora e mandar vir a Maya.

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  1. […] – a perversão do que é fundamental em Educação, através da implantação de metas de aprendizagens; […]


  2. […] Um dos principais problemas das políticas educativas é a recusa em assumir este simples facto. O Ministério da Educação porta-se como um médico preocupado com quotas de curas e não com curas, com aparências e não com realidades. Um médico assim, a existir, só prescreveria placebos e analgésicos; o Ministério recorre a estatísticas, estudos encomendados e, mais recentemente, à inclassificável quantificação de metas. […]

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