Frustração


É verdade que tenho estado suspeitosamente calada durante toda a campanha eleitoral. Não há razão para preocupações. A falta de tempo e um certo cansaço em relação à blogosfera provocaram isso. Agora, finalmente, estou de volta. Espero eu.

Muitas coisas absurdas se passaram durante esta campanha. Tudo serviu para distrair. Ou porque o Cavaco teve acções no BPN que comprou mais barato e vendeu mais caro ou vice-versa, ninguém percebeu bem. Ou porque Alegre afinal não fez os três anos da licenciatura (agora percebo porque razão os jornalistas se referem a ele como o “poeta” e não como o “doutor”). Ou porque Cavaco não fala, ou porque Fernando Nobre disse que viu o menino de África a correr atrás de uma galinha que tinha não sei o quê no bico, ou porque eles andam com as mulheres atrás e porque o Manuel Coelho anda num carro funerário com um anormal qualquer a conduzir. Ou porque o gay morreu em Nova Iorque assassinado por um rapazinho que afinal não é gay e foi tudo muito dramático mas perante isto já ninguém quer saber das eleições. Eu percebo. Tudo é mais emocionante do que uma campanha eleitoral onde à partida já toda sabia quem ia ganhar.

Meus amigos, vamos para o país real. Eu detesto esta expressão mas vamos ter que falar sobre isto. O país real gosta do Cavaco. Eu percebo que isto seja um inconveniente grande para toda a gente que acha que o Professor Cavaco Silva é o anti Cristo e o único responsável pela situação económica em que nos encontramos. A Direita mais direita, aquela não existente e que vota no Manuel Coelho, detesta-o porque Cavaco aprovou o diploma referente ao casamento dos homossexuais e a Esquerda detesta-o devido a várias razões que dariam não um mais várias posts, mas que por exemplo incluem o facto de Cavaco ter o dinheiro num banco e não debaixo do colchão.

Anyway, uma das coisas que mais me divertiu nesta campanha foi a minha viagem pelas caixas de comentários de jornais e por vários blogues que frequento. Quase todos detestam Cavaco. Quase todos sabem que Cavaco vai ganhar. Quase todos se recusam firmemente a aceitar esta realidade. O povo é de facto uma coisa desagradável. O povo não lê Proust e sinceramente está-se pouco a borrifar se o Manuel Alegre faz referências ao Humberto Delgado dia sim, dia não ou se as suas obras são discutidas em teses de doutoramento. Ontem ouvia a Joana Amaral Dias que também tentava convencer toda a gente à volta dela a não votar em Cavaco. Tudo bem é legítimo mas esqueçam porque não vai acontecer. E meus caros, isto divertem-me. Não é que eu aprecie – ou deixe de apreciar – de sobremaneira o povo no qual eu me incluo, mas aprecio de sobremaneira o contacto que pessoas como a Joana Amaral Dias e outros têm, de vez em quando, com a realidade.

Cavaco vai ganhar e com a abstenção ou sem ela e vai ter certamente pelo menos 55% dos votos. Mesmo com abstenção a verdade é que vai haver uma diferença abismal entre Alegre e Cavaco. Não há alternativas a Cavaco. Por muito mais válida que seja a candidatura de Fernando Nobre ele é um relativo desconhecido. As pessoas não estão habituadas a vê-lo num meio político, não confiam nele para isso e podíamos também referir o papel a que, infelizmente, os independentes estão reduzidos em Portugal. Alegre, esse, foi anedótico. Achou que podia ganhar as eleições tentando conciliar o facto de ser apoiado por dois partidos que partilham entre eles não só puro ódio (falo de Louçã e Sócrates) mas também diferenças importantes. O BE é um partido de esquerda, mesmo esquerda, quase extrema esquerda. O PS está cada mais parecido com o PSD, pois não se sabe bem o que é.

Alegre fez portanto, tudo mal. Desde o principio. Cavaco deve ter-se rido a bom rir quando percebeu que o seu principal adversário estava a fazer aquilo que valeu a Mário Soares os seus 14.3% há 5 anos atrás. Alegre partidarizou o discursou quando não o devia ter feito, atacou a credibilidade de Cavaco, algo que até os adversários mais próximos de Cavaco se recusaram a sublinhar.

Domingo é dia de eleições. Votem, todos. De acordo com a vossa consciência. Sejamos o povo.

Comments

  1. Bem ‘revoltada’ Daniela, que belo post…

  2. Tínhamos saudades tuas Daniela, e dos teus excelentes posts.

  3. carlos fonseca says:

    Faço minhas as palavras do João José Cardoso – ele não se aborrece. Com efeito, devias aparecer mais vezes.

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