Paga aí, que eu não trouxe a carteira – o Estado e os funcionários públicos

Versão portuguesa de “Robin dos Bosques”, com Cavaco Silva no papel de Príncipe João e José Sócrates no de Xerife de Nottingham.

Robin dos Bosques é um dos meus heróis de sempre, o mito que me fez odiar não ter nascido na Idade Média, onde poderia enlaçar Lady Marian, ao mesmo tempo que, com a mão livre, enfiaria setas certeiras no bucho dos poderosos que desfavoreciam constantemente os desfavorecidos.

Uma das imagens marcantes desse mundo mítico-cine-televisivo consistia na alarvidade com que os esbirros do Xerife de Nottingham arrombavam as casas humílimas dos pobres agricultores ingleses para lhes extorquir o último grão de trigo e restantes fazendas de que sobreviviam. Os ditos esbirros juntavam à aleivosia praticada o argumento arbitrário de que o Príncipe João precisava de dinheiro, o que deixava a minha firme ética infantil revoltada, numa ingenuidade que me levava a acreditar que cenas dessas não seriam possíveis nos dias de hoje.

Não sou um pobre agricultor inglês, eu sei, nem vivo numa choupana coberta por um tecto de colmo, é verdade. Também é certo que não estou sujeito a que me entre pela casa um bando de gente mal barbeada a urrar-me que tenho de entregar bens e haveres para outros gastarem. Esse bando, agora, barbeia-se com os melhores produtos do mercado e já não precisa de me derrubar a porta, correndo o risco de sujar o Armani. O bando senta-se nos bancos do poder e, ontem, especialmente ontem, foi-me directamente à conta, porque decidiu usar o meu dinheiro para pagar as dívidas originadas pela corrupção que esse mesmo bando alimenta e pela incompetência que revela.

O Príncipe e o Xerife já cá estão. Só falta o Robin.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.