Because I have a voice!

A mim chateia-me aqueles críticos de cinema que acham que os filmes bons são aqueles em que, quando eles vão ao cinema, vão eles e mais meia dúzia de gatos pingados com cara de intelectuais do Bloco e com aspecto de quem não toma banho há 7 semanas, e saem de lá a reflectir que a vida é muito má, e ai os pobrezinhos e a condição humana, com vontade de espetar com o mercedes contra o primeiro poste que encontram porque a vida é sofrimento, e tristeza e desgraça, e tudo e tudo e tudo. Exemplo flagrante é o Jorge Mourinha do Público jornal que ainda não percebeu que não ganha nada em ter este senhor a trabalhar para eles. Despeçam-no e poupa-se um ordenado.

Porquê isto? Porque fui ver o discurso do Rei. O Mourinha não gosta certamente porque é um feel good movie e porque seria tudo mais drámatico se o Rei não conseguisse de facto dizer o discurso e acabasse tudo mal porque a vida é uma miséria e cenas do género. Mas a verdade é que isto não aconteceu. É um filme altamente humano que mostra a relação entre uma mão cheia de pessoas, o Rei e o irmão que era Rei, o Rei e o pai que foi Rei, o Rei e a Rainha, o Rei e as filhas e por fim, o Rei e o commoner que o ajudou a superar os traumas e conseguir falar para uma nação em crise.

Não é nada de espectacular tipo Black Swam (isso sim malta a cortar os pulsos é que é bom) ou tipo aquele filme com o Javier Barden em que ele diz três palavras durante o filme todo sendo que o resto é passado a, vá, matar pessoas. Ah, lembrei-me é o “Este país não é para velhos”. O discurso do Rei é aquele tipo de filme que nos enche por dentro. É o tipo de filme que nos faz entrar no ecrã e de repente, parece que estamos ali ao pé dele, a ter pena dele por não conseguir falar, a fazer o awwww quando ele fala com as filhas, a torcer pelo Rei para que ele consiga dizer o discurso como deve ser, a desejar sermos o Lionel Logue que se senta no trono de St. Edward. (ok, se calhar isto fui só eu).

Meus caros, isto é o cinema. O cinema é estarmos sentados e deixar-nos levar por uma história, por actores que a levam a cabo, e bem, (neste caso, Colin Firth. Não é o papel da sua vida, mas é o papel que lhe vai dar o Óscar. Porque o merece) chorar quando os personagens choram, rir quando eles o fazem, ou querem que o façamos. E o “Discurso do Rei” faz isto tudo. E é isto que faz um grande filme. Espero que ganhe tudo e os críticos que se lixem.

Comments

  1. Rodrigo Costa says:

    … Bem!, não vi, ainda. O DISCURSO DO REI. vi O CISNE NEGRO.
    Embora trate de questões que não são novas —a superprotecção, a projecção dos anseios, frustrados, dos pais nos filhos, bem como o desejo obcessivo de superação—, é, de facto, um filme que vale a pena ser visto.

    Primeiro, porque não é demais lembrar erros de educação que continuam a ser cometidos, e que estão —neste caso, a superprotecção ou a repressão, que não deixa de ser uma forma, violenta, de superprotecção— na base da bipolaridade, porque as criaturas não se desenvolvem autonomamente, apoiadas e esclarecidas, mas com espaço e com a possibilidade de escolherem o seu projecto de vida;

    Depois, porque tudo é muito bem trabalhado. A interpretação da Natalie Portman é soberba; o seu solo é magnificamente executado; e o modo como acaba remete-nos para a perfeição que é perseguida e que, quando atingida, nos deixa sem vontade de mais nada. Esse é, de facto, o momento em que se pode morrer, porque se morre em paz; com a sensação do dever cumprido; com todos os músculos abandonados; imunes; sem que nada nem ninguém nos possa causar dano…

    O sangue e/ou toda a “violência” a que se assiste não são gratuitos; não são a bandeira do filme; mas o alerta para as consequências, possíveis, da obcessão —lembremo-nos da anorexia, por exemplo, para não ser exaustivo.

    Sobre os críticos… pode haver uma outra excepção que não conheço; mas sei, isso sei, que, em regra, se colocam entre as forças de “esquerda”, onde, presume-se, nada mais há que trabalho e intelectualidade. E se o filme ou o quadro não forem documentos de “intervenção”; se não for um cansado documentário de “resistência”, que, de preferência, conte histórias de presos políticos… o filme e/ou o quadro são uma estopada; são coisa de burguesia; muito próximo de reaccionários. Para esses imbecis, Arte é “luta”. E é verdade que é: pela harmonia, pelo equilíbrio, pela humanidade…

    Mas, como esperar, de um crítico de arte, a visão do artista?… Como esperar que percebam a etimologia de uma história que nada tenha a ver com o “partido”, ou com a filosofia do “partido”, se nunca fizeram o que quer que fosse; limitando-se, tão-só, à tentativa de serem o que não conseguem?…

    Como esperar que sejam capazes de compreender que o tema é apenas um pretexto, qualquer pretexto, para contar uma história que, isso sim, deve ser bem contada?… Rotko é um dos seus paradigmas; o paradigma do analfabetismo. Mais, antitéticos; porque são de “esquerda”… com vícios de “direita”. Saramago só os traiu, porque, quase no fim, concluiu, e deixou que se ouvisse, que a “esquerda” é tonta”; aconselhando a votar em branco.

    Contrariamente ao que se apregoa, a Arte nada tem a ver com política. A Arte é um mundo próprio, em que os panfletos e os cartazes e os slogans são deixados à porta. A Arte é o espaço onde alguém pode,—no domínio das gramáticas e das ferramentas, pelo pensamento—, construir o seu mundo; dizer de si ao mundo, sem o receio de ser acusado de egoísta, porque o acto de pensar e de criar é um acto íntimo, que só pode ser partilhado com quem possa estar em sintonia…

    A política é o mundo da chafurdice, onde apenas os “interesses” são discutidos; onde os que, hoje, são daqui, são, amanhã, dacolá —olhe-se para Abril, e veja-se quantos camaradas” já desertaram, porque os objectivos que perseguiam foram conseguidos!…

    É verdade que muitos “artistas” ajudaram à criação da torpe filosofia. Viver da Arte nunca foi fácil; e, colar alguns cartazes e engrossar as hordas manifestivas acabaria por dar lucro.
    Então, é vê-los com aprosápia do proletariado, e, se possível, almoçando com empresários…

    nota: nunca votei, não voto nem estou recenseado

    • Daniela Major says:

      Caro Rodrigo,

      Agradeço-lhe o seu longo comentário. Gostaria apenas de dizer que vi o Black Swam e gostei. Natalie Portman merece, sem dúvida nenhuma, o óscar de melhor actriz. Contudo, ao contrário do discurso do Rei, é um filme que nos faz sentir mal connosco próprios. Claro que é esta a intenção e não lhe tira mérito absolutamente nenhum, muito pelo contrário. Não estou aqui a advogar que os filmes que são mais pesados são maus. Contudo o facto do Discurso do Rei ser um feel good movie também não tira mérito ao filme.

      • Rodrigo Costa says:

        Cara Daniela,

        Apenas para complementar ou deixar claro o meu raciocínio sobre a minha forma de entender as coisas, em termos de arte —não tem que agradecer; opto sempre por pensar e agir por conta-própria:

        De acção, drama, comédia, político —de ficção científica, não, porque não gosto do género, independentemente de ter ou não ter a qualidade que eu reconheça—, com muito ou pouco sangue… não me interessa; interessa-me que tenha conteúdo; que a história faça sentido e que as personagens sejam interpretadas com qualidade.

        Um pouco ou mesmo como na Pintura: não me interessa do que se “fala”, mas como se “fala”; a elegância do movimento; a fluidez do discurso; a profundidade da entrega… É isto que a maioria dos críticos não compreende, porque gerem a sua apreciação a partir de ideias preconcebidas, ancoradas em conceitos de clã; incapazes de, conhecedores das gramáticas e do género humano, e, essencialmente, das traves que suportam a Vida, pensarem pela própria cabeça.

        nota: já tinha em mente ver o DISCURSO DO REI. No entanto, antes ou depois, vou ver um western que me parece ser interessante e que tem, como um dos protagonistas, um actor de que gosto, Matt Damon.

  2. xico says:

    Não vi o filme, mas fiquei com vontade de o ver. Muito bem criticado.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.