O presidente de todos os colonos

“Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do país com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar”, afirmou o chefe de Estado, Aníbal Cavaco Silva.

Há todo um dejá vu nesta notícia, amplificado pelo cuidado com que o jornalista recuperou a hoje inconstitucional expressão “chefe do Estado” (já agoram chefe era com maiúscula).

Há todo um apelo à mais pura infâmia, à cobardia dos que não desertaram e partiram para matar, à determinação salazarista que levaria Portugal à catástrofe colonial. Salazar é sem dúvida o herói deste Cavaco, que lhe segue os passos no que pode, e nós deixamos.

 

Comments

  1. Artur says:

    O Sr. deve passar os dias à cata de mensagens subliminares de fascismo, imperialismo, colonialismo, autoritarismo, reaccionarismo,”opressivismo”, e outros ismos.
    Faz-me lembrar o Ned Flanders dos Simpsons, que passava o dia a ver na televisão à cata de mensagens contra Deus. Neste caso os seus idolos serão outros.


    • Essa vinda de quem acaba no post abaixo de acusar quem é contra o nuclear de estar todo satisfeito com a catástrofe no Japão, é todo um exemplo de coerência, lógica, enfim.
      Esse espírito de afirmar que os outros são isto ou aquilo, só porque lhe parece, conheci-o em janeiro de 1974 nas instalações da Pide/Dgs. Uma forma de estar na vida que pelos vistos continua a fazer escola. E não precisa de nenhum ismo para ser qualificada.

      • Artur says:

        Sr. José, o meu comentário sobre o Nuclear foi no sentido de manifestar o meu desagrado perante a hipocrisia dos visionários a posteriori das desgraças, dos anti-isto e dos anti-aquilo, quando de facto nesta matéria ninguém é inocente. Que moralidade é esta de vir agora aos berros dizer “eu bem vos avisei” visto que na prática também são usufruidores das “energias sujas”? Querem respeitar os mortos? então lamentem-se em silêncio pois a culpa é de todos nós, sem excepção.
        Querem plasmas, carros, conforto, portáteis, etc e anseiam sempre por mais e depois quando as coisas correm mal, lavam ali as mãos para dizerem “eu bem avisei”. Querem progresso tecnologico sem riscos? Não me parece.
        Estamos todos no mesmo barco. Não me parece eticamente aceitável em criticar os efeitos mas todavia acabar por contribuir para as causas.

        Quanto ao seu texto, digo-lhe que essa temática já não convence ninguém. O sr.precisa de se actualizar. Essa doutrina já deu o que tinha a dar. O prometido futuro radioso já teve a sua oportunidade e falhou alarvemente.
        Esse idolo morreu.
        Já passamos pelas democracias proletárias com os seus gulags e as suas “igualdades”; já tivemos o Triunfo dos Porcos; já tivemos o Kundera; já tivemos as exemplares Cuba, China, RDA, Jugoslávia, Chekoslováquia, Bulgária, etc,etc
        Já chega dessa conversa do oprimido vs opressor; da diabolização dos EUA, dos coitadinhos, dos pobrezinhos, dos pequeninos, da Pide, das colónias, do terrível homem branco, etc
        Está na altura de deixar esta tralha para trás. Esta conversa já nem sequer é cool. Expirou o prazo de validade.


        • ahahah. Muito obrigado por me misturar com as Cubas e as Chinas deste mundo.
          A cegueira ideológica, a obsessão em ver o PCP em toda a parte, é tão gira…

          • Artur says:

            Pois lá está, todos os regimes assentes nas ideologias revolucionárias falharam, mas se fosse o Sr. a mandar aí a coisa iria ser diferente.Se iria… Finalmente todos os homens seriam livres, iguais e felizes por toda a eternidade.
            Coragem, siga o exemplo do Sartre e abra a pestana. Ninguém lhe levará a mal se reconhecer que errou na escolha do seu bezerro de ouro.
            Nota: não sou de direita, nem de esquerda, nem de centro, não voto, não sigo qualquer idolo seja terrestre seja ou celeste. Considero-me apenas um livre pensador.


          • É mais a Albânia…


          • A Albânia também é muito chique. Não se trata de quem fez as revoluções as ter feito mal. Trata-se de a História não se fazer quando queremos e como queremos. O tempo é dela.


  2. Ned Flanders eheheheheheheheh Grande Artur.

    Sobre a Horrível guerra Colonial, o video escolhido podia ter sido este que era mais evocativo da efeméride:
    http://www.youtube.com/watch?v=kfhE2D026zo&feature=player_embedded

    Desde já aviso que é demasiado forte para pessoas sensíveis!

  3. xico says:

    “…à cobardia dos que não desertaram e partiram para matar”.
    Cavaco não me pareceu bem. Ao autor deste post não lhe encontro adjectivo suficiente.
    Os que partiram sei que estavam dispostos a matar, se preciso fosse, e a morrer para defenderem algo em que talvez acreditassem. Não importa se tinham ou não razão. Eram e foram corajosos. Cobardes é que não.
    Aos que desertaram, talvez tenha havido coragem nesse acto. Não há como prová-lo. Nunca me passaria pela cabeça chamar-lhes cobardes.
    A quem escreve o que escreveu, só pode ser por lhe faltar a coragem de se livrar dos preconceitos.


    • Tirando uma ínfima minoria, ninguém foi para África porque acreditava, mas porque a tal era obrigado.
      Sim a expressão cobarde é provocatória, deliberadamente, por oposição às acusações que fazem aos desertores de serem cobardes, quando essa era na prática a opção mais difícil: o risco até chegar a França, e a certeza de não poder voltar antes que o regime caísse. Ou pior ainda, a acusação de traição à pátria, como se a pátria fosse Salazar e as suas colónias.
      Obrigado por me ter dado a oportunidade de o explicar.

      • xico says:

        Dar-me-ia por satisfeito com a explicação, mas felizmente para si, e para mim, não sabemos a angústia de partir para um destino desconhecido e longínguo para matar e morrer.
        “o risco até chegar a França,…” Pode dizer-me quantos morreram atravessando a inóspita Espanha? E de quem eram filhos os que efectivamente desertaram? E desses, quantos inventaram depois biografias de anti-fascistas?


        • Ir parar com os costados à Trafaria também é um risco, ou não? Ser torturado também é um risco, ou não?
          Quanto ao resto, que interesse tem saber de quem eram filhos? Por acaso conheço muitos desertores que saíram da sua aldeia, embora saiba muito bem que era maior a motivação económica que política para o fazerem.

  4. Artur says:

    Os preconceitos são de facto mais dificeis de arrancar do que as lapas. O discurso do Sr. J.J. Cardoso além de ser pouco original e obsoleto, limita-se a repetir uma certa formatação doutrinária assente precisamente em preconceitos, lugares comuns e alguma desonestidade intelectual.
    É um discurso que ainda vai apanhando alguns revoltados da vida (quase nunca por razões económicas ou sociais, mas antes por terem tido pouca sorte com os progenitores que lhes calhou na rifa). Isto nada tem a haver com o passado colonial. Recorde-se que outros revoltados noutras paragens também se viraram contra os soldados americanos no Vietname.


    • Pode chamar-me o que quiser, repetindo um discurso que conheci nos bancos da escola primária. Até acho graça.
      Quanto aos meus progenitores, a música é outra. Não respondo a filhosdaputa, mas apago-lhes os comentários num instantinho.

  5. Xokapic says:

    O JJ quando não gosta da opinião censura o próximo, em vez de retorquir com argumentação e inteligentsia.


  6. Nunca apaguei comentários por outra razão que não fosse o ataque pessoal, esgotados os argumentos. Faça o favor de provar o contrário.

  7. Rodrigo Costa says:

    … Caro João José Cardoso,

    Peço desculpa, mas penso que não lhe assiste a razão de chamar cobardes a todos os que foram combater para o Ultramar, porque nem todos eram sufucientemente esclarecidos —quem era?— para, em consciência, se negarem a ir —não é o meu caso, porque não fui; não fui mobilizado.

    Pelo contrário, também posso dizer, sem receio, que muitos dos que desertaram fizeram-no por medo, e não por consciência política. Não lhes chamo cobardes, porque entendo que todos os soldados têm o direito a negarem-se à participação em guerras que não despoletam. Sempre achei, inclusive, que, quando os governos dos países se desentendem, devem ser os governantes, e quem mais quiser, a encontrarem-se para a estalada.

    Eu pergunto se acha que o Manuel Alegre é um herói ou um parasita?… E não lho pergunto por ter desertado, mas por ter uma vida sem fazer um corno e a viver à custa do Estado. Não acha que, para bem do erário púiblico, e de outros erários, deveria ter desertado, logo que regressou?…

    Se, após o 25 de Abril, muitos militantes ditos de “erquerda” tivessem desertado, talvez o País não chegasse ao estado em que está; e nem estou, sequer, a defender a “direita”, mas a acusar que se refugiaram nos partidos que davam jeito, os de “esquerda” —repito o que, noutros comentários, e a propósito, tenho dito: nunca votei nem estou recenseado; limito-me a assistir à brincadeira; porque, desde o Rossio, que era onde eu estava, na manhã de 25 de Abril, eu tinha o pressentimento de que a coisa não ia dar certo; nunca acreditei que houvesse tantos cordeiros, tanta solidariedade e altruísmo.

    Vou acabar contando uma história verdadeira. Um pouco extensa, mas vale a pena, porque permite olhar a diferença de procedimentos —alguns procedimentos, é claro—, entre a ditadura e a “democracia”:

    A minha mãe começou a trabalhar, ainda não havia pensões de invalidez. Por invalidez, foi aposentada. Quando eu nasci, em 1952, já ela era, como se dizia na altura, “doméstica”.

    Em 1966/7 ou 8, não posso precisar, saiu um decreto que permitia às pessoas na situação da minha mãe, desde que fosse feita prova de terem trabalhado, aceder à reforma —devo acrescentar, por ser relevante, que sou proveniente de uma família pobre; com pai analfabeto (era normal, ao tempo), e a minha mãe tinha a terceira classe.

    Foi feita a exposição para o Gabinete do Presidente do Conselho de Ministros, era, então, Presidente do Conselho, Marcelo Caetano. A exposição não feita por ninguém especial; foi feita por um senhor que, no lugar, sabia tratar desse tipo desse tipo de coisas.

    Contra as expectativas da minha mãe… pouco tempo após, a resposta veio. Propunha que se pedise à Caixa Nacional de Pensões a documentação necessária, que comprovasse o facto de a minha mãe ter trabalhado. Eu tinha 18 anos; a minha mãe nunca tinha saído de muito longe de casa, e o meu pai, para além da dificuldade em ler e escrever, não podia abandonar o “trabalho”.

    Como não abundava o dinheiro, fui, à boleia, do Porto a Lisboa. Eram umas 15, 30 / 16 horas, entrei na Caixa Nacional de Pensões. Abeirei-me do balcão e fiz o pedido da dita documentação. Como resposta, ao fim de alguns minutos de procura, o funcionário repondeu-me que não tinha lá nada.

    Como não sou de desistir com facilidade, e achei que havia ali qualquer coisa que não me agradava, saí de lá e dirigi-me ao Ministério das Corporações, na Praça de Londres. Misturando a minha ousadia com ingenuidade, entrei e dirigiu-se-me um funcionário, que me perguntou o que eu pretendia. Com a maior das naturalidades —hoje rio-me—, respondi que queria falar com o Senhor Ministro das Corporações…!!!

    O homem esboçõu um sorriso e perguntou-me, para quê. Expliquei-lhe o que se tinha passado, e, de imediato, olhou para o relógio de pulso e disse-me que, àquela hora, os serviços públicos estavam a fechar, mas que, no dia seguinte, logo pela manhã, regressasse à CNP, voltasse a fazer o pedido, dizendo que ia sob orientação do Ministério das Corporações… Passdei toda a noite às voltas, porque não tinha dinheiro para a pensão. A pé e a comer castanhas assadas. Mas valeu a pena. Meu caro!…, foi num abrir e fechar de olhos. Por milagre, a documentação estava lá. Esta é a história.

    Hoje, em democracia, escreve-se e não há, sequer, resposta. Em democracia, nesta democracia, Você corre o risco de chegar a uma repartição do Estado e ver, colado na parede ou numa coluna, de forma bem visível, aquela ladainha de “aqui não há milagres, tudo leva o seu tempo”…

    • Artur says:

      O Manuel Alegre não fez um corno, alto lá!!
      Então não escreveu umas coisas numa campanha publicitária qualquer a um banco?

      • Rodrigo Costa says:

        … E um poema ao Figo —já que estamos a fazer contas!… E alguém vai ter de fzer —ou já fez— por ele, para pagar as dívidas da campanha.


  8. Quanto a Manuel Alegre, pela razão que invoca, estamos de acordo.

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