Patriotismo e guerra colonial

As recentes, e, na minha opinião, infelizes, declarações de Cavaco Silva sobre a generosidade com que muitos jovens portugueses foram obrigados a participar na Guerra Colonial e as reacções a essas mesmas declarações levam-me a pensar, mais uma vez, sobre o que é ser patriota.

Ao dar como exemplo de generosidade e dedicação à pátria os homens que participaram na Guerra Colonial, Cavaco terá proferido essas palavras, entre outras razões mal disfarçadas, para agradar a antigos combatentes. Resta saber quantos antigos combatentes se terão sentidos elogiados e quantos terá ofendido. É que falar com antigos combatentes não é, necessariamente, falar com pessoas que defendem a guerra colonial.

Por esse país fora, ao longo do ano, há homens que se reúnem aproximados pelos tempos que passaram em África, na guerra. Os antigos combatentes são homens todos diferentes uns dos outros, unidos sobretudo pelo sofrimento e pela camaradagem que o sofrimento tem o condão de originar. Não sei se nessas reuniões se defende, maioritariamente, as virtudes da guerra em que participaram, mas não é isso que está aqui em causa.

A História é feita de momentos grandiosos, mas, por ser humana, é feita, sobretudo, de factos condenáveis, baixos. Humanos, portanto. A História é para ser investigada, não necessariamente exaltada. A Guerra Colonial, na minha opinião, foi negativa, desde logo, por duas razões: foi guerra e colonial. Poucas foram as guerras justas; ter sido colonial foi a necessária prova de que só poderia ser injusta, como a História já está farta de demonstrar, embora a humanidade pouco tenha aprendido.

É difícil enfrentar a História, quando é objectiva? Claro que sim, porque é difícil olhar para os defeitos de qualquer objecto amoroso, pessoa ou pátria. É complicado desmontar uma máquina colonialista? É. A verdade é que outros países conseguiram desfazer-se, com razoável habilidade, desse peso colonial que é também um peso de consciência. Portugal teve à frente dos seus destinos um homem funesto que não quis, não soube ou não conseguiu afirmar-se como um estadista do século XX, antes foi uma excrescência de um século XIX anterior mesmo a Herculano, um século XIX obscurantista, crente no papel providencial de um Portugal que viveu, até 1974 (leiam com atenção: 1974), convencido de que o milagre de Ourique nos tinha predestinado e que os indígenas africanos e asiáticos tinham que se contentar com serem portugueses de segunda, disponíveis para participar em desfiles alegóricos, como, por exemplo, o triste Carnaval da Exposição do Mundo Português de 1940.

A História de Portugal não é grandiosa e não será mais rasteira do que a de todos os outros países colonialistas. É o que é. A História de Portugal, como a História em geral, deve ser conhecida, com todos os erros e abusos incluídos. O discurso que se limita a exaltar a gesta dos Descobrimentos ou as guerras em que participámos tende a esquecer que a coragem dos portugueses no meio das savanas consistiu, também, em massacrar aldeias ou que a valentia lusa no interior do Brasil implicava escravizar índios. O discurso, como habitualmente, pobre e nunca inocente, do Presidente da República é retirado dos piores manuais de História do Estado Novo. É o mesmo Presidente que já deixou escapar expressões como “dia da raça” ou palavras como “Ultramar”.  Tudo isso só pode ser ofensivo para a mesma Democracia que elegeu Cavaco Silva, um homenzinho que parece ter pena de não poder ser um Salazar a tempo inteiro.

Comments

  1. Rodrigo Costa says:

    … Começo por dizer que os Descobrimentos são o grande equívoco que o Pais continua a pagar, porque foram a alternativa ao trabalho que deveria ter sido feito nas infra-estrururas do que deveria ser, de facto, uma nação, um povo com anseios, legítimos, de autonomia —a independência não existe, porque sempre, como pessoas ou instituções, estaremos dependentes de alguém ou de alguma coisa; a liberdade é sempre condicional.

    “Ó glória de vencer! Ó vá cobiça!…”
    Talvez os do Restelo fossem velhos, mas teriam a idade e o aviso que pressentia o futuro. Sabiam que se abandonava o que não estava feito, para partir à descoberta (?) do que, existindo, não existia… Pior ainda, não era o País que partia, mas algumas famílias; aquelas que, subvencionadas pelo erário público, viriam a dividir, entre si, os lucros.

    O resto… já todos sabemos. A guerra colonial não difere, em muito, da guerra que, na América, os colonos travaram contra os índios. E, como é sabido, enquanto crianças, assistíamos aos filmes de cowboys, e esperávamos que os peles-vermelhas fossem vencidos, porque a história que nos contavam era a da legitimidade, de todas as legitimidades, do homem branco.

    Para o Ultramar foram muitos jovens contrariados; tal como outros —mais ou menos, não sei!— com uma história que, para eles, fazia sentido; porque tinhamos sido “nós” quem os descobriramos. Logo, aquilo era nosso. Ao mesmo tempo, comemorava-se a Restauração, porque os filipes foram os invasores que ousaram subtarir-nos a liberdade e impor-nos as suas condições…

    Cavaco é uma pessoa de quem, facilmente, se tem pena. Sempre me pareceu um indivíduo sério. Mesmo hoje, continuo a pensar que todas as maldades, que possa dizer e fazer, não é por ser maldoso, mas por ter dificuldades de entendimento.

    Se se lembrarem dos debates televisivos em que participou, inseridos nas duas campanhas para as Presidenciais, ressalta, de todos eles, a imagem de um homem atropelado pela ingenuidade, sem “jogo de cintura”. E todo e qualquer pensamento mais turvo parece-me proveniente da mulher, ela, sim, pessoa esperta. Acho, até, que, sem ela, Cavaco não se candidataria… Acho-o, sinceramente, ele próprio cansado de não saber como posicionar-se.

    Na verdade, o apêlo à união em volta de um ideal —a Pátria— tem todo o cabimento; mas, atendendo ao momento por que a Humanidade passa —Portugal, essencialmente—, é necessário evocar valores mais consentâneos, com alicerces na inteligência; porque os que morreram morreram por uma causa que, como com as naus, lhe impuseram; diferente da causa dos que, como agora, entrincheirados e olhando pela sua vida, contrariam, inclusive, os interesses do País.

    E chegamos à necessidade da intervenção do MFI. Qual é o problema?… Nenhum. Porque não é o povo que perde e independência, mas uns quantos marmanjos que perdem privilégios. É isto o que está a adiar o que muita gente diz ser inevitável.

    Nota: não sou aderente do conceito de “pátria”, porque sempre a entendi como a quinta de meia dúzia. O resto… são servidores; criados que tratam dos quartos, das camas e das mesas dos safardanas.

    Cvaco deveria ir para um SPA.

    • Fernando says:

      Excelente comentário!
      Que me desculpe o lugar-comum, mas assino por baixo.

      • J.Silva says:

        Em 1500 ocupar, desbravar , negociar,evangelizar e colonizar terras na sua maior parte desertas não era crime nenhum. Crime era o esclavagismo que aliás, foi abolido, e a exploração do trabalho. Mas esta também existe aqui hoje na Europa, em Paris e em Lisboa. A cultura portuguesa e a africana iam-se interligando e a miscenejação também. Fomos das Nações menos colonialista em Àfrica. Erros? Todos os cometeram… O nosso problema foi não se ter dado cumprimento ao sonho de Norton de Matos e fazer de Angola um novo Brasil, (o grande erro de Salazar) pois, afinal, nem de lições de descolonização precisávamos, como nos quiseram dar mais tarde os USA desde Kenedy (e não só) incitando os naturais de Angola à revolta, esquecendo-se que eles próprios reprimiram e devastaram tribos inteiras de indios (deixando só alguns para amostra) numa terra que não era deles e que ocuparam pela força. Quase todos os países da europa colonizaram à época. Não faz sentido portanto que se faça a auto-flagelação daquilo que fomos e fizemos no passado o que não deixa de ser um pouco idiota e o que leva, aliás, a incensar por arrastamento, os desertores e os apátridas, precisamente aquilo que os negros não queriam ser. Quem tem valor afinal ? Exemplifiquemos: são os combatentes que foram para Angola em Março de 61, defender a vida e bens dos seus compatriotas, dos brancos e até dos negros vítimas da horda selvagem que se abateu no norte de Angola que provocou em poucos dias mais de 6.000 mortes? A hecatombe foi de tal ordem que até Holden Roberto que se encontrava nessa altura com Kenedi, teve vergonha de se assumir como um dos mandantários do genocídio. Concedemos que a descolonização, mesmo depois dos acontecimentos, pecou por tardia. Todos os países colonizadores, combateram revoltas, justa ou não, e defenderam os seus compatriotas quando isso se impunha. Porque razão o haviamos de fazer por menos?
        O slogan África para os Africanos (negros) é a coisa mais estúpida e mais racista que se forjou ao de cima da terra. Mas ele emergiu por razões de cobiça das grandes potências quer quiseram controlar e roubar, alás com êxito, as riquezas alheias, os direitos dos naturais e históricos de quem já estava.
        Em sintese: escrevam o que quiserem sobre o tema, mas haja um pouco de decoro e vergonha ao fazerem, subreptíciamente, a apologia do esquerdismo irresponsável, porque os que combateram em Àfrica, com vontade ou não, com razão ou sem ela, que entendiam até que a independência, controlada, era o melhor caminho para todos, são mais importantes do aqueles que os criticam. Só por uma razão muito simples. As FA não têm ou não deviam ter ideologias; os militares cumprem com o seu dever para com a Pátria, quando esta o exige, seja em que circunstâncias forem. E porque muitos não pensam assim; porque perderam o sentido do dever em todas as latitudes da vida e só se reconhecem com direitos, é que chegámos aonde chegámos!…

        • Artur says:

          Muito bom comentário J.Silva. Agora sou eu que assino por baixo.

        • António Fernando Nabais says:

          Que grande confusão para aqui vai! Uma coisa é compreender a História e perceber que, de acordo com a mentalidade de determinada época, certos actos, como colonizar ou escravizar, não eram considerados crimes. Outra coisa é, em pleno século XX, como aconteceu com a (falsa) historiografia de direita, transformar isso em actividades quase meritórias, especialmente quando se falava da evangelização à força ou quando se escondiam ou branqueavam alguns acontecimentos. O problema das terras não serem completamente desertas só quer dizer que eram parcialmente habitadas por gente que teria agradecido que não ser incomodada por forasteiros que as pisaram.
          Não percebo o que é ser mais ou menos colonialista, nem é campeonato que me interesse. Basta-me saber que, afinal, como reconhece, foram cometidos erros.
          A descolonização deveria ter começado muito mais cedo, é evidente e todos os países colonialistas precisaram que isso lhes fosse ensinado, muitas vezes, da pior maneira.
          É curioso que reconheça que não há colonização sem violência, chamando a atenção para o que se fez aos índios nos EUA, país que, após a II Guerra, condenou ou apoiou ditadores no mundo inteiro, de acordo com os seus interesses geo-estratégicos e económicos e não em defesa da liberdade dos povos. A URSS, o outro lado do mesmo mal, fez a mesma coisa (por falar em URSS, já lá vamos ao esquerdismo irresponsável).
          A História não pode ser reescrita: fomos como fomos e fomos como muitos outros também foram. No entanto, em que é que olhar para o passado com um olhar crítico é um acto de autoflagelação? Não tenho que pagar pelos abusos cometidos pelos meus antepassados (mesmo que não fossem considerados abusos, à época, eu sei), nem tenho de pedir desculpa. Não tenho é de glorificar o que, na minha opinião, não merece ser glorificado e não me julgo menos patriota (nem mais) por isso.
          Mas quem é que lhe disse que não houve massacres de parte a parte? É evidente que sim e não há guerras limpas. O massacre da UPA foi horrível e morreram, com certeza, muitos inocentes que pagaram a revolta acumulada de séculos. A pergunta que podemos fazer, sempre, é: se não fosse em 1961, quando seria? Podemos fazer, ainda, outra pergunta: qual a responsabilidade de Salazar nesse mesmo massacre? Mais: o que faria você se o seu povo tivesse sido escravizado e inferiorizado ao longo de 500 anos? Quantos indígenas inocentes foram massacrados durante séculos?
          Por trás da UPA estariam outros interesses? Certamente, mas não tem o mundo sido palco de aproveitamentos desses, com os inocentes a pagar em primeiro lugar? Não terão sido anos de políticas erradas que provocaram o ataque às Torres Gémeas? Será que a maioria dos que morreram nesse ataque tinha alguma culpa do que uma longa série de presidentes americanos andou a provocar no mundo inteiro?
          Sejam quais forem as razões, o horror está feito e Portugal participou activamente nesse horror.
          Onde é que fiz a apologia do “esquerdismo irresponsável”? Pensa que concordo, por exemplo, com a cleptocracia disfarçada de esquerda que governa Angola?
          Onde é que critico os militares que participaram numa guerra com a qual a maioria poderia não concordar? Um dos “mistérios” das ditaduras é a cumplicidade praticada pelos cidadãos. Felizmente, vivi a maior parte da minha vida em Democracia. Caso contrário, não sei se não teria para a guerra como muitos da minha família foram e não os respeito menos por isso. O que critico é um Chefe de Estado, no mínimo, ignorante, no máximo, antidemocrata, certamente dotado de uma memória muito selectiva e com uma capacidade para emitir opiniões absolutamente infelizes.
          Decoro e vergonha devia ter quem comenta sem, verdadeiramente, ler.
          Chegámos aonde chegámos, entre muitas outras razões, porque ainda estamos a pagar o preço de um atraso secular, resultado de um direitismo irresponsável que criou um país inferiorizado em tantos aspectos. Faça lá a apologia disso.

        • Rodrigo Costa says:

          Caro José Silva,

          Limitando-me, apenas, aos “colonizadores” e aos “erros” cometidos, a diferençã é que Portugal, como paìs, não tirou, como âncora de futuro, partido disso. Como se pode perceber, de todos os países colonizadores, Portugal é o que está em pior estado. Por quê?… Porque, a par da colonização, ingleses, franceses, alemães e holandeses nunca perderam de vista o cuidado com o seu ponto de partida, os seus países; e é por isso que, visitando-os, se percebe a diferença de tempo e de trabalho nos seus espaços de origem.

          No meu entendimento, é isto o que pesa na diferença de qualidade de vida entre o nosso e os países referidos… O que eu quero dizer é que o problema não são os “erros” cometidos, mas o erro de não se ter tirado partido dos “erros” que se cometeu. Os outros, enquanto paises, tiraram. No nosso caso… apenas algumas famílias.

          Quanto aos deveres para com a Pátria, clarifico a minha posição, apesar de já ter sido suficientemente explícito: que lute por ela quem nela e dela mama. Não será lógico?

  2. Anmtónio Francisco says:

    Se me é permitido comentar, não concordo com algumas opiniões- Sou a escalrecer que não fui para o Ultramar porque a sorte esteve comigo. Tinha uma especialidade que não permitiu que fosse. Sou modesto e na altura não tinha a cultura que adquiri poateriormente. Contudo, e cerca de três anos depois fui, porque senti que devia conhecer o NOSSO PORTUGAL. Fui voluntário, para Vila Cabral- Moçambique, permaneci no mato cerca de vinte e três meses, junto ás populações que, sinto protegia do terrorismo ou pseudo-terrorismo, e NUNCA me senti como EXPLORADOR como foram apelidados os que por ali passaram.Se amealhei alguns cobres foi por não ter onde os gastar ou esbanjar. Esse dinheiro, embora pouco, deu para eu suportar as despesas do meu casamento, igualmente modesto, para o qual não recebi nem uma galinha. Dirão assim. Porquê? Seria orgulho ?. Não! Era pobreza e eu senti que os meus pais, pobres, não poderiam dar-me aquilo que os meus restantes irmãos, mais oito, teriam direito a reclamar. Assim tenho ORGULHO em dizer que sou patriota, não explorador e ter tido boas relações com os portugueses, brancos ou pretos, que vivem, viveram e hão-de viver até ao fim dos seus dias. Interrogo-me. Que vida será daqueles que amavam PORTUGAL ? (brancos ou pretos), Hoje estarão melhor que do tempo do apregoado Fascismo? Quem é racista?

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