Os herdeiros de Abril – que merda de gente!

Já o escrevi aqui há uns anos. O 25 de Abril morreu há muito. Ressuscitá-lo agora seria mais ou menos o mesmo que acreditar, hoje, que Cristo ressuscitou ao terceiro dia. No entanto, há quem queira fazê-lo, ano após ano, seja em editoriais indigentes ou em comemorações pífias, de circunstância. Insistindo num saudosismo estúpido de slogan, convencidos ainda de que “o povo é quem mais ordena”. Aquele povo cantado por Zeca Afonso morreu com esse 25 de Abril mítico que não volta mais. É só ver os seus herdeiros. Que se passeiam por aí, transformando este “sítio” num estendal de transformistas, de eunucos, de saltimbancos políticos, de corruptos, de travestis mentais. Enfim, uma verdadeira comédia humana. Deprimente.A este propósito, o recente congresso do PS foi um festim. A começar por Sócrates, “o alienista do Rato”. “O Alienista” é um conto do escritor brasileiro Machado de Assis cujo protagonista é um médico especialista em doenças mentais que, chegado a uma determinada localidade, decidiu instituir a fronteira entre a lucidez e a loucura. E vai daí começou a internar num hospício todos os que, no seu entendimento, manifestassem por qualquer atitude, algum desvio dessa linha por ele pré-determinada. Assim, internou todos os habitantes dessa localidade por supostos comportamentos idiotas, enquanto o seu era o único que tinha como lógico e lúcido. Ora, eis aqui o padrão mental de Sócrates, “o alienista do Rato”. Que, ao contrário do que acabou por acontecer com a personagem de Machado de Assis, ainda não percebeu que o único louco é ele. E isto porque conseguiu agregar a si uma “agremiação de alienistas pequeninos”, dispostos a garantir que o preto era branco ou que estava um sol radioso quando, de facto, chovia torrencialmente. Foi vê-los e ouvi-los todos, em coro e em sintonia com o “grande líder”, desde esse fóssil político pré-histórico chamado Almeida Santos até à luminária cacarejante cujo ovo genial continua escondido no seu inexplorado recôndito intestinal e que dá pelo nome de António Vitorino. O congresso do PS foi uma exibição deprimente da mais completa imbecilidade solidária.

Depois, neste prodigioso bloco central, temos Pedro Passos Coelho. Dele poderíamos talvez dizer o que Ramalho Ortigão disse, ironicamente, de Fradique Mendes – talvez o mais completo produto da civilização em que nos tem sido dado embeber os olhos. Ou seja, mais um aldrabãozeco que, por isso mesmo, está superiormente apetrechado para triunfar na política. A este geniozinho admiravelmente construído faltava apenas uma ideia, uma só, que lhe ocupasse o cérebro seco. E essa ideia brotou no convite a Fernando Nobre para deputado da nação, garantindo-lhe desde logo a presidência da Assembleia da República. Ora, Fernando Nobre veio a revelar-se, politicamente, um fala-barato, um troca-tintas. Aliás, diga-se, a pessoa ideal para presidir a esse rebanho informe e obtuso que se levanta e se senta aos magotes, em reflexos pavlovianos de obediência cega a inutilidades como Sócrates, Coelho ou Portas, os génios do tal “arco da governação”. Sim, também Paulo Portas, um político permanentemente em pose de galinha poedeira, que acumulou as funções de ministro da Defesa com a de negociante de submarinos e, enquanto líder partidário, parece dar pelo pseudónimo de Jacinto Leite Capelo Rêgo (leia-se com os “ás” abertos), conhecido financiador público do CDS / PP.

No meio desta pluralidade faunística, temos Cavaco Silva, o tal da magistratura activa. Que para pouco mais serve do que colocar umas “paneleirices” ao cachaço de uns velhinhos patuscos no dia 10 de Junho, com a convicção solene de quem está a fazer coisa séria! Agora dirige-se, ou alguém o fará por ele, aos portugueses através do Facebook. Quando em público, alinhava umas palavras em forma de discurso esotérico, “soletra umas solenidades de circunstância” que mistura desajeitadamente com meia-dúzia de banalidades. De forma que, “ler o desígnio de Cavaco é como ler o horóscopo, interpretar o seu silêncio é como olhar as estrelas”, ou seja, um passatempo inofensivo que se tornou profissão.

Assim, podemos dizer que Portugal é, hoje, “um hospício com bandeira e representação na ONU”. Como diz uma canção de José Mário Branco: “Entre a rua e o país / vai o passo de um anão / vai o rei que ninguém quis / vai o tiro de um canhão / e o trono é do charlatão”. E o trono é do charlatão.

Chame-se José Sócrates ou Passos Coelho. Que puto de país! Que merda de gente!

Luís Manuel Cunha in Jornal de Barcelos de 27 de Abril de 2011

Comments


  1. Pelo que pude perceber, o autor está muito zangado com a merda que está. E, “a contrario”, o que não está nesta lista de ódios deve ser o oposto da merda, talvez rosas. É uma pena o eleitorado não ser o povo que mais ordena: para isso seria preciso ir a Barcelos perguntar em quem se há-de votar. Quem não fosse, e recusasse assim ser esclarecido, ia para o Campo Pequeno. Teríamos então rosas.

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