“Porque eu morro…

Se passa um dia só e não te vejo” E a voz delicodoce do “cantor de sonhos” espraia-se numa suavidade lânguida, de um erotismo angelical. E as balzaquianas mamalhudas, matronas vermelhuscas de calores menopáusicos, desfraldam as banhas, reviram os olhos, baloiçam os úberes até ao umbigo e abanam as ancas opulentas num último estertor de excitação. É um alucinante delírio orgásmico colectivo, num clímax que se prolonga como num eco: “Porque eu morro…” Pois é. “Esqueçam tudo o que a musa antiga canta / Que outro valor mais alto se alevanta” – Camões, “Os Lusíadas”. “Tony! Tony! Tony!… Faz-me um filho, Tony.” E o Tony: “Porque eu morro…”. Num refrão angustiadamente repetido. E um patusco, roxo como um fígado, disfuncionalizado da histeria colectiva: “Faz lá um filho à gaja, pá. Antes que morras…” Fizeram o mesmo pedido ao Quim Barreiros, não sei se antes, durante ou após o chupanço “nas tetas da cabritinha”. E a resposta segundo o próprio: “Eu fazer, fazia, o pior é que a gaita já não ajuda muito”. É o Portugal português, o “incrível país da minha tia / trémulo de bondade e de aletria”, no entendimento de Alexandre O’Neill.Porque eu morro…

Esta Assembleia Municipal, esta política, estes deputados, matam-me. Digam-me? Como se poderá sobreviver à eloquência queque e rebarbativa de José Maria Cardoso? Ou ao acacianismo conselheiral de Manuel Mota? Ou à gravidez intelectual de Domingos Araújo, cada vez mais prenhe de ciência política? Ou ao franciscanismo político da CDU? Ou à pálida “infecção de banalidades” do CDS? Ou ainda, hossana nas alturas, aos momentos inefáveis de Costa Araújo que, do seu “trono coruscante”, conduz os trabalhos com a atitude de inacessível recato e que apenas se deixa ver aquando da necessidade absoluta da demonstração criadora da sua função intelectual? Ou seja, quando se oferece aos deputados embasbacados pelo fulgor que emana da sua actividade criativa de pensador! E não faltará muito que “vão vir” charters carregados de chineses, de malaios, de hotentotes, aprender com Costa Araújo como se dirige uma assembleia neste universo político povoado maioritariamente por cafres! Costa Araújo, deixem-me dizê-lo porque só isso me faz resistir ainda, é, insofismavelmente, um dos barcelenses mais interessantes e mais sugestivos do século XXI.

Porque eu morro…

Quando ouço o senhor José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa. O jotinha do PSD. O fiscal de obras da Câmara da Covilhã. O ministro do Freeport. O engenheiro da Independente. O colega de universidade de Armando Vara. Os amigos comuns do sucateiro Godinho. O malabarista dos sonhos. O homem que jurou nunca governar com o FMI e que logo depois anunciou ter feito um bom acordo de governo com o… FMI! Garantindo ao país que, nesse acordo e graças a ele e só a ele, os portugueses não teriam de pôr crocodilos a voar, minhocas a dançarem a lambada, porcos a fazerem o pino e que não haveria tsunamis dia-sim-dia-não. José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa. O Sousa. Do PS, Partido do Sousa. E mais o Santos, o ministro das Finanças. Empalhado. A saberem muito bem do que precisamos. “Precisamos de merda, senhor Sousa / E nunca precisámos de outra cousa”. E eles ali, ambos, a comprovarem a satisfação das nossas necessidades colectivas. E o apelo: “A Nação confiou-lhe os seus destinos? / Então, comprima, aperte os intestinos; / Se lhe escapou um traque não se importe / Quem sabe se o cheirá-lo nos dá sorte? / Quantos porão as suas esperanças / Num traque do ministro das Finanças?… / E quem viver aflito, sem recursos / Já não distingue os traques dos discursos”. De facto, distinção impossível nos discursos do Sousa, o primeiro-ministro (ainda) de Portugal. “País dos gigantones que passeiam / a importância e o papelão, / inaugurando esguichos no engonço / do gesto e do chavão. / E ainda há quem os ouça, quem os leia, / Lhes agradeça a fontanária ideia”! Alexandre O’Neill, uma vez mais.

Porque eu morro…

…Se passa um dia só e não te vejo… E a voz delicodoce do “cantor de sonhos” espraia-se numa suavidade lânguida de um erotismo angelical. Canta Tony, canta. “Derrama no meu coração / a tua incerta voz ondeando”, disse Fernando Pessoa. “Tony, és o meu antidepressivo”, dizem elas. E tu, Sousa, “vai à mercearia e compra ameixa seca / p’ra o intestino a ameixa é levada da breca!”. Digo eu. Com a colaboração do O’Neill. Fica sempre bem, não acham? Afinal de contas, dizem, é tudo a mesma merda!

Luís Manuel Cunha in Jornal de Barcelos de 11 de Maio de 2011.

Comments


  1. “Todos ao Encontro Nacional de
    Militares”

    Os farsolas andam a cutucar o ninho dos marimbondos.
    Depois, queixem-se…

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