Manuel António Pina sobre as «Novas Oportunidades»

O António Almeida relembrou um post antigo que escrevi sobre as Novas Oportunidades. Um post que se baseava num caso concreto, o do atleta Pedro Póvoa, e que transcrevia parte de uma crónica de Manuel António Pina sobre o assunto.
Porque o tema é muito actual, fui procurar e encontrei o resto da crónica do novo Prémio Camões, publicada em Dezembro de 2008 no JN. Todo o texto, como sempre, é muito bom, mas o final é delicioso.

A propósito do generalizado tratamento de “doutor” em Coimbra, contava-se a história de um barbeiro que, enquanto escanhoava o cliente, metia conversa com ele: “O sr. dr. não é o engraxador que pára lá em baixo na Portagem?” Entretanto todo o país se “coimbrizou” (e o que não se “coimbrizou” está a “bolonhizar-se”) e a piada perdeu-se.
Hoje, no supermercado, devemos dirigir-nos à menina da caixa dizendo: “Pago com Multibanco, sra. dra.”, e à empregada doméstica: “Dra. Irene, sirva o leite-creme”, do mesmo modo que não podemos esquecer-nos de que o lavador de carros pode ser engenheiro pela Moderna ou pela Internacional: “Lavagem completa, sr. engenheiro”.
A revista “Sábado” conta a história de um atleta de “taekwendo” que, sem nunca ter feito o ensino secundário, em poucos meses conseguiu, como tantos outros, um diploma “simplex” do 12.º ano nas “Novas oportunidades” e já está a caminho da Faculdade de Medicina.
Um dia destes, juntamente com um anestesista também “simplex”, estará a operar o leitor num hospital público, os dois cheios de curiosidade sobre o que haverá dentro de uma barriga.

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  1. […] Texto em torno do trolha que um dia quis ser médico e entrou na faculdade pela 'porta dos fundos'. 23 de Maio de 2011 carlosjoseteixeira De cada vez que eleições se avizinham, quiçá à falta de matéria de discussão mais importante, lá aparece um grupo de cidadãos activistas da democracia que direccionam grande parte dos seus esforços argumentativos para o que, na sua opinião, constitui um dos mais flagrantes atentados à vida social: as Novas Oportunidades. Opiniões há-as talvez mais do que as mães, e todas elas assentam em argumentações que variam entre o desprezo pelos que optaram por esta via de ensino, e o desprezo pela via de ensino em si. Convergem na apreciação global e nos resultados que, aparentemente, estão à vista: as Novas Oportunidades são um embuste e os que a elas recorreram não são mais do que burros com diploma. Doutores? Não. Os críticos do sistema afirmam a pés juntos que não poriam nunca a sua vida num cirurgião que tivesse entrado na faculdade de medicina por via das oportunidades. […]