Para reflectir

Não sei se Strauss Kahn é ou não culpado do crime que dizem ter cometido. Ainda não houve veredicto e só depois dele sair é que podemos ter a certeza e conhecer as provas e não os boatos. O que me choca neste caso não é o facto de Strass Kahn ter aparecido algemado, desgrenhado, pálido, sem gravata. Isso para mim, sinceramente, não é mais que um fait diver que alguém resolver inventar, falando da “falta de dignidade humana” com que Strauss Kahn foi tratado, para desviar as atenções do que de facto era importante: ele é inocente ou culpado?

O que a mim me choca um bocadinho, tal como sempre neste tipo casos, é a presunção da culpa. O julgamento ainda não acabou mas já todo o mundo o condena. Ainda agora vi uma legião de empregadas de hotel em frente ao tribunal em Nova Iorque. Gritam contra o quê, esta gente? Pedem a condenação de um homem que não conhecem. Saberão elas os contornos do caso? Saberemos nós? E não me venham dizer que isto só acontece nos Estados Unidos porque nós sabemos que não assim. É muito fácil fazer juízos acerca de pessoas que não conhecemos, especialmente quando essas pessoas são políticos, actores, cantores, pessoas cujas vidas públicas e muitas vezes privadas, conhecemos. Se Strauss Kahn for ilibado, quantas pessoas irão acreditar na sua inocência? E se não acreditaram porque é que não o irão fazer?

Comments


  1. Assim é a presunção de inocência! Mas a morosidade da Justiça é que contribui e de que maneira para este tipo de juízos, pois «exige-se» um apurar de culpa imediato. O povo quer é saber se ele abusou ou não, se é não useiro em histórias destas. E como o mal está feito, o que falta mais para haver uma conclusão? A justiça tem que ser feita em tempo real, sob pena deste tipo de julgamentos sumários.

  2. Rodrigo Costa says:

    Caros amigos,

    O problema é as pessoas continuarem a pensar que o Director do FMI ou ou Presidente da América, ou quaisquer personalidades ditas importantes, são ou deveriam ser imunes aos exacerbos do Instinto. Não são. São simples mortais abrangidos pelas mesmas traves-mestras que nos suportam, a todos; logo, sujeitos a todos os achaques.

    Custa a crer que, inocente, o homem reagisse do modo como reagiu; e custa a crer, ainda, que, sendo a figura com a responsabilidade ou responsabilidades que tem, a Justiça Americana, sem provas suficientes e minimamamente convincentes, fosse buscá-lo ao avião, por receio de que se tornasse difícil ou impossível a sua captura, abandonado o País. Para ser franco, não acredito. A este nível, ninguém compra tumultos por tão alto preço.

    O mundo mudou, e, apesar de tudo, os “reis” já não conseguem ficar escondidos, mesmo que possam, é verdade, ficar impunes. Em Portugal, estou certo de que a funcionária do hotel estaria em prisão preventiva, até que jurasse que lhe tinham pago para entrar no “jogo” e tramar o homem.

    Passar-se-ia à fase seguinte: quem teria pago… E se o azar voltasse a encontrar outra figura de “estalo” —o mais provável—, a rapariga teria que aventar outra coisa qualquer, porque o argumento recente continuaria a ferir a pretensão de resolver o assunto.

    Não estão distantes os casos Casa Pia e Friport. É assim que, em Portugal, são tratadas as “vacas sagradas”. Lá fora, é fácil vê-las a serem esfregadas na própria merda. É isto que causa estranheza; é a isto que Portugal não se habitua.

    Por exemplo, há uns anos atrás, uma figura de proa da política portuguesa foi apanhada no Parque Eduardo VII, à 2 da manhã, a conversar com dois miúdos que tinham entre 12 e 14 anos. Dois polícias aproximaram-se, pediram a identificação, e o homem, confiadamente, identificou-se. Apesar de tudo, os agentes decidiram levá-lo para a esquadra. Entre as 3 e as 3,30, telefonou o ministro da administração interna, para que fosse dada ordem de soltura.

    Há uns meses, conversava, sobre isto, em Lisboa, com um amigo que acrescentou serem, ambos, elementos, não muito distantes, da mesma família. O que não é difícil, sendo o Portugal tão pequeno.