O Que Importa é Escrever…

Tenho vindo a aprender que para escrever artigos de opinião em jornais basta saber juntar letras sob a forma de palavras. Esta é a primeira condição. A segunda condição é agrupar as palavras formando frases; e, coleccionando algumas frases atinge-se a terceira condição. Eis um texto! O que lá vem dito e a sua validade técnico-científica são contas de outro rosário.

Recentemente, Manuel Caldeira Cabral escreveu um artigo de opinião no Jornal de Negócios a falar sobre transportes; abstenho-me de comentar a análise e os pontos de vista do autor sobre o universo vasto dos transportes em Portugal. Mas não posso deixar de questionar a validade técnica de todo um artigo quando, sendo um professor universitário, parece querer fundamentar o seu texto em… artigos de opinião… publicados nos jornais.

Refere o autor que “um maquinista pode chegar a receber mais de 5 mil euros por mês, entre salário, horas extra-ordinárias e outras formas de remuneração”

Terá lido algum artigo de opinião no Expresso? alguma “notícia” no Sol?

Talvez devesse o autor consultar a tabela salarial dos maquinistas… “é fazer as contas”.

Repito: “Declaração de interesses: muitos dos meus amigos e amizades são, ou foram, maquinistas  (…).”

Comments

  1. Sem nome says:

    Não seja falacioso, que isso não é bonito.
    O salário, o melhor, a quantia que um maquinista leva para casa, não tem nada a ver com a tabela que publica o sindicato.
    Da soma de todos os subsídios que o salário integra, levam quase o dobro do salário, que refere, para casa.
    E acredite que sei bem do que falo, já que por dever de ofício, sou obrigado a esmiuçar os salários até aos cêntimos.
    Que tal aceitar um repto: porque não publicar aqui um folha de salário, cortando os dados pessoais só para provar que tem razão?


    • É capaz de ter razão, é capaz.
      Então some o dobro da tabela-base e diga-me quanto falta para os tais 5 mil.
      Depois retire as contribuições e diga-me em que ficamos.

  2. Sem nome says:

    Não tenho aqui presente a quantia correcta, mas é muito dinheiro.
    Se chega aos 5 mil? não conheço caso a caso, dentro dos vários escalões que a tabela integra. Mas dum coisa estou certo: quando se comenta que os salários na CP são elevados e que não assiste aos trabalhadores o direito a fazerem as greves que fazem, prejudicando os utentes e a empresa da forma que o fazem, sou dos primeiros a concordar, depois de, como já referi, por dever de ofício, conhecer a fundo a realidade da CP.
    E refira-se que sou dos que lutaram para que o direito à greve fosse uma realidade


  3. E já agora proponho que seja de alguém com 30 anos de casa, da CP carga num mês em que fez horas e cortes de descanso com fartura e com o subsidio de ferias ou natal ao barulho… Não se arranja melhor do que isto!


  4. A verdade é que todos falam sem saberem do que falam… algo tipico Tuga! Nem o beneficio da duvida dão é logo para a Forca!


  5. Caro,

    Há, de facto, maquinistas a ganhar mais de 5,000 eur/mês… são franceses e ingleses e atravessam o Túnel da Mancha…

    Não se trata, por isso, e usando as suas palavras, de “conhecer caso a caso”. Não há “casos”. Há uma tabela salarial, pode-a multiplicar por dois… ou por três, subtraia as obrigações sociais e diga-me onde estão os tais 5 mil. É disso que fala o autor do texto, é isso que eu comento acima. Nem o autor nem eu falámos de greves.


  6. Se alguém precisar que eu lhe envie a declaração que a empresa me passou para eu entregar em sede de IRS que faça o favor de me enviar um email para amalves@netcabo.pt. Sou maquinista, tenho 21 anos de profissão, 4 diuturnidades, estou no topo da categoria de maquinista técnico, trabalhei muitos dias de folga e muitas horas nocturnas em 2010, nunca faltei nem meti baixa. Aceito de bom grado que me reponham o que falta para os tais 5000 euros mensais. Desconfio que a maioria dos que opinam nesse sentido ficariam sem a totalidade mensal do seu salário e ainda me deveriam muito dinheiro.

  7. Sem nome says:

    Gostava que não deturpasse palavras e o que foi dito.
    Nunca afirmei ou dei de afirmar que havia maquinistas que ganhasse 5 mi euros/mês.
    O que disse foi que os salários são muito elevados e, note-se já com os respectivos descontos. E é isso que lhes retira, pelo menos a legitimidade moral para fazerem as greves que fazem.
    Aceite o repto que lhe lancei e foi reforçado por outro comentário, no qual foi referido o caso concreto da CP Carga (recuso-me, a entrar em pormenores da minha “sabedoria” por dever ético profissional)


    • Tentando não deturpar as suas palavras:

      “Não seja falacioso, que isso não é bonito.
      O salário, o melhor, a quantia que um maquinista leva para casa, não tem nada a ver com a tabela que publica o sindicato.”
      “Da soma de todos os subsídios que o salário integra, levam quase o dobro do salário, que refere, para casa.”

      A ver ser percebi.
      1) chama-me “falacioso”. Mas vem a seguir sugerir (e bem) que o salário pode ser o dobro da tabela-base. E isso é quanto? E falar em 5 mil, feitas as contas, é ou não “falacioso”, para usar o seu adjectivo?

      2) Se bem percebo o teor do texto original, o apregoado salário de 5 mil (supostamente limpos) é, em si, um excesso. A opinião é do autor… mas baseia-se num dado fictício, como V. parece concordar.

      3) não entendo que, neste caso ou similares, um salário de x valor seja, por si só, “imoral” ou não tenha “moral” para fazer greves. Acredito que saiba que os médicos e os juízes também fazem greves…


    • “Nunca afirmei ou dei de afirmar que havia maquinistas que ganhasse 5 mi euros/mês.”

      Certo! – até conhece a tabela salarial.
      Não obstante chama-me “falacioso” a mim…

    • Rui Resende says:

      Isto é mais um exemplo da mesquinhez TUGA. Querem que uma mentira dita milhões de vezes seja verdade, mas infelizmente, para mim, dizer milhões de vezes que um Maquinista ganha 5000 euros nunca mais é verdade. Há 11 anos atrás a revista Visão disse o mesmo e, para responder, os Maquinistas resolveram enviar por fax os recibos de vencimento. Resultado: a Visão foi obrigada a publicar um desmentido.
      Sou Maquinista da CP Carga, estou há 18 anos na CP, tenho quase todos os recibos de vencimento e estou receptivo a fornecê-los a quem o solicitar. Não tenho vergonha nenhuma em dizer que em Julho ganhei 1280 euros e em Junho 1240 euros. Digo aqui também que não me importo de receber só 900 euros desde que durma todos os dias em casa, não passe nenhuma noite a trabalhar, não me levante de madrugada (n vezes às 4h), não me deite de madrugada (n vezes às 3h), enfim que desde que tenha tempo para conviver, brincar, acompanhar os meus filhos.

      • degardin laurent says:

        bom dia,
        eu sou maquinista frances(mesmo) eu apprendi a vossa lingua a pouco tempo (desculpa pelos erros), era só para dizer que nos em frança temos os mesmo problemos, com os jornalistos, eu acho que essas conversas e só para baixar os salarios, por informar lhe, eu acho que temos de comunicar entre empregados dos caminhos de ferro,há 22 anos que trabalho na sncf como maquinista eu recebo limpo uma medio de 3000 euros/mes fora o irs,em frança um maquinista que começa a carrera recebe uma medio de 2300 limpo e no fim 3300, o tgv depois de 15 anos de serviço minimum entre 3500 e 4000, e no eurostar estes vao no tunel e so fazem a linha paris «»londres «»bruxelle,o accesso a eurostar é igual ao accesso ao tgv faze bom uso destes informacaos.
        um amigo


  8. Não foi reforçar. Pretende apenas reforçar o ridiculo das suas palavras… Salários elevados? Não é o Sr. que anda lá montado dias e dias com milhoes de euros e vidas humanas a sua responsabilidade arriscando ainda a vida graças às espertezas dos condutores Portugueses nas PN e à ma conservação de alguns troços de via!

  9. Sem nome says:

    Querem comparar com um salário de um médico com 10 anos de serviço, no sector público, que tem nas urgências a responsabilidade que tem e teve que estudar os anos que teve?


    • Eu falo por mim: não quero comparar salários ou as responsabilidades de cada ofício.

      Assim como também não me acho no direito de pôr no mesmo saco um salário X pelo direito a fazer greve. Essa ideia é sua.

  10. Sem nome says:

    Que divertida que está esta caixa de comentários! mais um para entrar no ranking dos mais lidos do Aventar.

  11. antónio domingues says:

    O elevado vencimento do maquinista ferroviário enquadra-se no limbo do mito urbano, comparável, por exemplo à do homem que é seduzido à noite por uma loura numa festa e acorda de manhã numa banheira, drogado e sem um rim…ou o do Elvis estar vivo… ou o homem nunca ter ido à lua, etc.
    Levo sempre isto na desportiva, até porque me faz bem ao ego (e aumenta-me o nº de potenciais namoradas).

    Estes artigos são cíclicos e recorrentes, próprios de gente mesquinha e invejosa, que achando-se eles próprios mal pagos, apontam o dedo, por comparação, a quem acham que ganham demasiado sem o merecer. E arrastam sempre uns “sem nome” na corrente que julgando-se tudo saber não sabem nada.

    Indexar “legitimidade moral para fazer greve” ao vencimento do grevista fez-me… sorrir. Mente brilhante. Como é que nunca ninguém se lembrou dessa?


  12. A minha caixa de correio continua vazia de pedidos. Sempre fomos e continuaremos a ser uma terrinha de palpiteiros sem nome e pouca coragem. Alguns até doutorados em Nottingham.

  13. António Silva says:

    Ó Evaristoooo… Tens cá distooooo?


  14. É, de facto, impressionante a quantidade de banalidades que o sr. doutor manuel de herédia caldeira cabral escreve no seu artigo.

    Não quero discutir a questão dos salários dos outros – coisa que parece ser da manifesta preferência de muitos portugueses – e não tenho muito tempo disponível. Não posso, no entanto, deixar de fazer um breve comentário a uma passagem que parece absolutamente incrível ter sido escrita por um doutorado em Economia:

    Em áreas em que a densidade populacional é baixa, o transporte por autocarro é, em geral, mais eficiente, económico e em muitos casos até mais ecológico (se se tiver em conta todo o impacto de manutenção da via). Nesses casos, não faz sentido manter linhas só porque estas aí foram construídas no século XIX, nem em termos económicos, nem no que toca à justiça social.

    – O maior custo de investimento em transportes em “via dedicada” – como escreve o doutor – é exactamente o da instalação da “via dedicada”, pelo que o abandono de uma pré-existência em favor de uma outra alternativa deve ponderar esta perda de investimento como um acréscimo de custo para a tal alternativa.

    – Dá por garantido (takes for granted) que a falta de rentabilidade de determinadas ligações não pode ser alterada, por exemplo, por reformulação dos serviços indo de encontro às necessidades das populações servidas, ou aumentando as ligações a transportes conexos, ou… (you should know, you name it).

    – Não tomou certamente muita atenção às escolhas dos seus hóspedes ingleses durante o tempo em que terá realizado o seu doutoramento em Nottinghamshire (terá tido que lá estar pelo menos uma vez, para apresentar a dissertação – digo eu…). Segundo os seus critérios este serviço regional seria impossível em Portugal (http://media.northernrail.org/content/detail.aspx?releaseid=318&newsareaid=2) e esta linha devia ser fechada por causa da pouca população (em termos relativos da muito povoada velha Albion) das povoações que serve (http://en.wikipedia.org/wiki/Robin_Hood_Line).

    Nada como uma “Robin Hood Line” para calar um pretendente a “Xerife de Nottingham”, hem? 😉


  15. ó pá!… tem tudo a ver com a necessidade de compor o orçamento. sofre-se do síndroma da classe média alta: gasta-se demais, as expectativas são altas, o salário de funcionário público embora elevado torna-se escasso para o ego desmesurado, o tempo é curto, verte-se a primeira coisa que nos vem à cabeça para justificar a avença. adiante…

  16. Carlos de Sá says:

    Não posso precisar onde li, ou vi, isso; mas lembro-me de um professor de economia (francês, acho eu) defender que aquela “ciência” não tem mais crédito do que a astrologia ou a quiromância. Por outras palavras: o que escreve o senhor doutor Manuel Herédia não terá mais valor do que o que escreve a Maia.


  17. Não sei porque motivo há tanto pudor em falar de salários, ainda mais de uma empresa pública. Não há motivo nenhum para não darem exemplos (basta o salário bruto anual), salvaguardado, claro está, a privacidade individual.

    Seguindo os links do OP, para um maquinista nas condições do António Alves e contabilizando 1 período diário de seis horas de condução, com 400km e 22 dias/mês (tudo valores, na minha opinião muito exagerados) dá-me um salário bruto final de: 2700 EUR. Daqui há a remover pelo menos a SS e o IRS. Pelo que ficará pelos 1700EUR limpos.

    É, infelizmente, um salário alto para Portugal, mas para um maquinista não sei se será um salário decente. Afinal de contas dele depende uma grande parte da segurança dum comboio onde se pode dar o caso de transportar muito mais gente que um 747, ou carga no valor de dezenas de milhões de euros (e depois da reforma não há prémios…). Digamos que não se compara à responsabilidade de um manga de alpaca que faça contabilidade ou coisa parecida.


  18. Caro Hélder, é um bocado menos. Nem todos os dias são de condução com tantos km de linha. Há dias de manobras, reservas, etc. Mas o valor a que chega pode ser dado como um exemplo correcto. Ainda há gente que sabe fazer contas. Também é doutor em economia? 🙂

    P.S. – Não vale a pena bater mais no homem. Errare humanum est 😉


    • Bom, doutor em economia não sou, mas temos de ter cuidado. Como vão as coisas se nos descuidamos, zás, lá somos feitos doutores. Assim se mostra que este país não muda muito com o passar dos séculos.

      Quanto aos valores, calculei que fosse uma carga de trabalho exagerada que seria compensada pelos subsídios que não incluí (almoço, suponho que haja subsídio de dormida e coisas desse género).

    • Um Maquinista says:

      Não vale? Lamento discordar, mas vale. É que com este tipo de conversa, o Zé Povinho pensa que todos os maquinistas são uns lordes e que ganham o valor referido, o que é falso. Aqui no suburbano de LIsboa, com 17 anos de serviço, 3 diuturnidades, a cumprir a escala em vigor e sem trabalhar descansos e/ou feriados, este ano de 2011 ainda não ultrapassei os 1400€ limpos/mês (excepto o mês do subsídio de férias). Se há quem ganhe os 5000€/mês, é porque anda todo o mês ‘ligado’. E se isso acontece é porque a empresa quer.


      • mesmo todo o mês ‘ligado’ não seria possível tal verba. o mês não tem dias suficientes para tanto dinheiro ;-). na altura das greves a empresa deve ter pegado num daqueles casos em que o homem trabalhou 30 dias seguidos, acumulou nesse mês o subsídio de natal ou férias e ainda recebeu uns atrasados e atirou com isso demagogicamente e, também, desonestamente para a comunicação social. depois até profs universitários emprenham pelos ouvidos.

  19. Um Maquinista says:

    ‘Se até profs universitários emprenham pelos ouvidos’, ora estamos a falar de pessoas que deveriam ter uma cultura geral um pouco acima da média… Imagina-se o que acontece com resto daquelas pessoas com uma cultura um pouco abaixo da média… notícias deste calibre só servem para envenenar, mais nada!

  20. zacarias says:

    No limite inferior temo um maquinista com 3 anos de casa, trabalhando apenas 8 horas por dia e uma media de quilómetros moderada, com 21 dias de férias, fazendo apenas 1 periodo de trabalho diário, sem ter feito horas extraordinárias, leva para casa 1409,53 euros.

    No superior temos um inspector chefe de tracção, com 21 anos de casa, no mesmo regime de trabalho leva para casa 2513,07 euros

    Entrando em horas extra (+2 horas diarias) e com mais 10% de periodos de trabalho mensais
    o inspector chefe de tracção já leva 2659,99 euros.
    O maquinista levaria 1491,93

Trackbacks


  1. […] aqui. Partilhar:FacebookTwitterMaisRedditDiggStumbleUponGostar disto:GostoBe the first to like this […]


  2. […] É, de facto, impressionante a quantidade de banalidades que o sr. doutor manuel de herédia caldeir… escreve no seu artigo. […]


  3. […] seria interessante reler dois textos: este e este. partilhar:Facebook Esta entrada foi publicada em política nacional, com as tags direito à […]


  4. […] assunto já tinha sido tratado no Aventar, veja aqui e aqui. partilhar:Facebook Esta entrada foi publicada em sociedade, transportes, com as tags comboios, […]

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.