Rankings leva-os o vento

Mais uma vez, saudavelmente, foram publicados os chamados rankings das escolas. Dito de um modo simplista, foi publicada uma lista ordenada de acordo com os resultados obtidos nos exames nacionais. Tal publicação pode e deve ser sempre objecto de reflexão. A verdade é que, graças à sociedade da pseudo-informação em que vivemos, não há verdadeiro debate nem reflexão autêntica, há sobretudo tiques e reacções.

Neste texto, o nosso Pedro Correia exprime preocupações legítimas, fazendo o mesmo nas respostas aos comentários. Também legitimamente, na mesma caixa comentários, o João José Cardoso lembra que, muitas vezes, estamos a comparar o incomparável, tendo em conta que nas escolas privadas é possível escolher ou expulsar alunos, não sendo, ainda, possível esquecer que, muitas vezes, entre o público e o privado há uma diferença brutal no que respeita ao estatuto socioeconómico e/ou sociocultural dos alunos, factores que têm uma grande influência no rendimento escolar, graças a pormenores que vão desde a estimulação precoce até à importância concedida à necessidade de aprender.

Sempre que são publicados os rankings, os meios de comunicação social afadigam-se a entrevistar directores e professores das escolas mais bem cotadas. Invariavelmente, as explicações para o sucesso dos alunos giram em torno dos méritos da própria instituição, com referências ao rigor, à exigência ou ao empenhamento. Nada disso deve ser desvalorizado, porque o facto de lidar com bons alunos não retira mérito a quem os ensina nem às escolas que frequentam, mas a verdade é que há muitas escolas em que a qualidade dos profissionais não será inferior, embora os resultados sejam inferiores, tal como há escolas que já estiveram nos primeiros lugares do ranking e, sem grandes mudanças no corpo docente, desceram vários lugares.

Sem identificar escolas, posso dizer que, por várias vezes, já acompanhei turmas durante os três últimos anos do secundário e os resultados eram diferentes, apesar de se tratar do mesmo professor. Também já me aconteceu estar numa escola cuja população é maioritariamente constituída por jovens de meios desfavorecidos e, num determinado período, houve uma turma com alunos de um estatuto socioeconómico diferente do habitual, com resultados fora do habitual e uma subida brutal no ranking. Para além disso, é importante que se reconheça que pode ser mais meritório levar um aluno limitado a alcançar 10 valores do que ter um aluno privilegiado que obtenha 20.

Há reflexões a fazer e não é aceitável encolher os ombros (e não me parece que os professores o façam, embora seja muito cansativo pregar no deserto), mas também não é possível continuarmos a cair no simplismo de afirmar que uma escola é melhor porque os alunos têm melhores resultados nos exames nacionais. Há muitos factores a ter em conta e as condições de trabalho dos professores não são dos menos importantes, para além de não se poder perceber, ainda, o impacto de tantas e tão más medidas governativas.

A Educação continua a não ser, verdadeiramente, uma prioridade dos cidadãos portugueses e esse é, na verdade, o problema fundamental. Por isso, é fácil ficarmos presos a estatísticas, em lugar de começarmos, finalmente, a pôr em prática soluções, o que, em Educação, não se compadece com a propaganda socrática ou com a inércia crática.

Comments

  1. José Antunes says:

    Gostaria de contribuir para o debate com um aspecto que quase nunca ninguém refere.

    A comparação que é útil é aquela que permite fazer escolhas. Naturalmente que os pais de crianças que frequentam uma escola pública em Faro não pensam em colocar os seus filhos numa escola do Porto, por exemplo.
    Do mesmo modo, quem frequenta a escola pública por necessidade não coloca a hipótese de frequentar uma escola privada cara.
    Mas quem anda numa escola privada e tem dinheiro para escolher gosta de ter um critério aferidor para saber se o colégio que lhe custa uma pequena fortuna consegue os mesmos resultados que outros colégios dentro do mesmo preço. Ou até, se a escola pública da sua região consegue formar alunos com médias semelhantes e custando muito menos aos pais.
    Também quem frequenta a escola pública e pode escolher entre duas ou três escolas na mesma área gosta de ter critérios objectivos que demonstrem a qualidade da escola.
    São estes os dois elementos base para dinamizar a escola: possibilidade de escolha por parte dos pais e critérios que objectivem os resultados. Depois é só liberalizar a gestão e deixar o mercado funcionar.

    • António Fernando Nabais says:

      Começando pelo fim, não me parece que a uma actividade como a Educação se possam aplicar princípios cegos importados da Gestão: se não é desejável que o Estado seja uma entidade opressora, é, pelo menos, tão indesejável como deixar a Educação à mercê de critérios como liberalização e “deixar o mercado funcionar”, que, aliás, estão na origem da crise financeira mundial. A Educação tem de ser encarada como uma actividade em que todos os cidadãos se devem empenhar para bem de todos e não só dos próprios filhos. Às escolas devem ser proporcionadas condições e devem ser colocadas exigências relativamente ao serviço que têm o dever de proporcionar, numa sociedade em que a igualdade de oportunidades tem de ser uma realidade ou não será sociedade. Não faz sentido perverter a essência de tudo isso, criando a ideia de que as escolas têm de andar a concorrer, como se estivéssemos a falar de lojas ou de fábricas.
      A Educação não é uma ciência exacta com que se possa garantir resultados e a Escola é um entre vários factores que tornam mais ou menos provável alcançar determinados resultados. O estatuto sociocultural dos alunos é um factor importantíssimo, como é sempre fundamental a participação vigilante dos pais.
      A Escola deve ter como principal objectivo ensinar e não alcançar determinadas médias. É certo que, em princípio, ambos os aspectos deverão estar ligados, mas é importante que haja uma definição da hierarquia.
      Finalmente, o que falta saber é como se deverá avaliar uma escola. Para isso, na minha opinião, os “rankings” são manifestamente insuficientes. Depois, as escolas precisam de tranquilidade e não de estarem a ser governadas por gente que julga ter descoberto a roda a cada momento.

      • José Antunes says:

        “A Escola deve ter como principal objectivo ensinar e não alcançar determinadas médias”
        Para mim este é o ponto essencial da questão.

        Como é que sabemos se uma escola está a ensinar bem as crianças? A melhor forma, quanto a mim, é avaliar externamente todas as crianças e comparar.
        Depois deixar os pais escolher.
        Confiar que os pais sabem escolher o melhor para os filhos. Quanto mais elementos os pais tiverem para avaliar e quanto mais opções de escolha tiverem melhor escolherão.
        Parece-me que cada pai saberá ponderar os diversos elementos que tiver e escolherá conforme a sua consciência. O importante é que detenham o máximo de elementos com o maior de objectividade e possa escolher de um modo esclarecido.
        Em democracia devíamos confiar nas escolhas das pessoas.
        Se fulano quer escolher a escola do filho porque tem uma boa formação em futebol então que o faça. Outros escolheriam com base em critérios como o humanismo, a educação musical, as médias em matemática ou em filosofia. Mas sendo cada um livre, o todo seria melhor e as escolas procurariam oferecer aquilo que a comunidade mais valorizasse.
        O que nós temos agora é que ninguém pode escolher. Excepto os ricos que escolhem ficar à parte e têm melhores notas.

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  2. […] referi, de passagem que o critério que a opinião pública utiliza para avaliar as escolas está limitado aos rankings: segundo esta teoria (que é, na realidade, um reflexo), uma escola é tanto melhor quanto mais […]


  3. […] ter criado um verdadeiro sistema de avaliação das escolas, mas optou por transformar os rankings num instrumento único, quando se sabe que há imensa vida na Educação para além dos […]


  4. […] Na Educação, a febre daquilo a que chamam avaliação, através da publicitação de rankings, entre outros disparates, está a transformar escolas e profissionais de ensino em números e instrumentos vazios e a perverter a ideia de sucesso educativo. […]


  5. […] reduzido a listas e gráficos parece muito simples, sobretudo quando não se quer perceber que a questão do sucesso educativo é um bocado mais complexa. É curioso, a propósito, que tenha havido um estudo em que, por exemplo, se concluía que os […]

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