A Arte de não quererem saber

Depois dos britânicos se terem recusado a tomar parte no acordo que foi elaborado ontem pode-se adivinhar a reacção de toda a Europa. De facto, ingleses pobre e mal agradecidos que nem o euro têm, ai ai que chatice. Pois. Isto é um acordo económico e eles nem o euro têm. Sinceramente, se eu fosse ao David Cameron nem lá tinha posto os pés porque no fundo não é nada com eles. Vamos pensar, agora. Cameron fez isto para consumo interno.Sarkozy não gosta, Passos lamenta-se? Pois, mas basta olhar para as headlines dos jornais ingleses para saber qual a opinião. Aliás enquanto os jornais europeus (veja-se o público que nas primeiras linhas desta notícia) tratam o resultado como se este tivesse sido uma derrota de Cameron, os jornais ingleses tratam isto como uma corajosa tomada de decisão por parte do PM britânico. Ainda não fui à caixa de comentários do Telegraph mas não preciso porque já estou mesmo a imaginar.
É óbvio que Cameron já sabia que ia fazer isto. Sarkozy e Merkel já sabiam que ele ia fazer isto. Cameron não decidiu isto no “heat of the moment” (porque toda eu sou dada a anglicismos). Esta decisão de veto ao novo acordo foi planeada de antemão com os civil servant de Downing Street. Disto não há dúvida. Foi a resposta que ele arranjou para tentar que os britânicos lhe perdoassem o facto de nunca ter feito o referendo ao tratado de Lisboa.
Se Cameron tivesse aceite isto sem protestar, nunca iria ser re-eleito. Se tivesse concordado em fazer o referendo, este rapidamente tornar-se-ia no referendo “vamos ou não sair da UE” e não no referendo “aceitam o novo acordo secção B da alínea A sobre o qual não percebem nada mas que também ninguém vos vai explicar”.
A mim nada disto me choca. Ao contrário da maioria, penso que os ingleses não vão sair da UE nos tempos mais próximos. Não enquanto a UE lhes trouxer benefícios (que trás). Mas ao mesmo tempo também me parece óbvio que há coisas que os ingleses não vai engolir, coisas que, do ponto de vista deles, os prejudica- como aliás é óbvio a qualquer pessoa que conhece a mentalidade e a História inglesa (sim porque isto tem raízes históricas, tão certinho como a malta da catalunha não gostar da malta de Madrid).
Porque é que isto lixa muita gente? Os britânicos sempre foram assim a bem ou a mal. No fundo, há algum ressentimento: Quantos países da Europa não gostariam de poder fazer este tipo de coisa mas não fazem? Porque não podem. Os ingleses são Europeus quer queiram quer não. Um inglês é bretão, normando, viking, celta, germânico. Mas não são da União Europeia, esta é a diferença. E no fundo eu pergunto. Que diferença vai fazer? Não vai haver revisão do tratado mas vai haver um pacto orçamental que será consagrado “num tratado internacional a concluir até Março entre os 17 membros do euro” o que na prática vai dar á mesma mas sem o Reino Unido.
A mim só me preocupa, á lá britânica, que as universidades inglesas mantenham a igualdade no preço das propinas no que respeita aos estudantes da UE (que pagam a mesma propina que os estudantes nacionais do RU). O resto vai continuar na mesma, vão ver.
PS: Nada disto muda a minha opinião do Cameron. Continua a ser um incapaz.

Comments

  1. MAGRIÇO says:

    Não me leve a mal, mas gostaria de dar um contributo para o seu excelente comentário. Os ingleses, na sua (deles!) chauvinista opinião, não são europeus: é bem conhecida aquela história do corte de comunicações com a Europa, devido a um temporal, em que a comunicação social nativa informava que “a Europa está isolada do RU”. Por outro lado, nem todos estão de acordo com a decisão de Cameron, uma vez que a Irlanda do Norte, a Escócia e o País de Gales já se pronunciaram contra ela e fizeram saber do seu desagrado por nem sequer terem sido consultados sobre tão relevante questão. Pelos vistos, a Grã-Bretanha ainda não ultrapassou os fantasmas do colonialismo.


    • Nem do colonialismo nem do apartheid nem da arrogância – fiquem lá onde quizerem e não xateiem E não esqueçam quem os livrou das guerras mundiais mas também, o que “cobraram” quando, nas guerras que outros paises europeus sofreram, mas não eles como foram “solidários – A a vez de se ser atacado e/ou ajudado, parece que deveria calhar a todos, mas perante os supremos interesses da “ilha”, não há mais “outros” – Mas não rejeitam o “cheque da agricultura”, têm apartheid do euro – são ainda colonialistas, e nem sei se são, apenas ilhéus, que bem exploram quando lhes interessa, a maior parte da sua commonwhealth – Tanto se fala
      em tudo “autosustentável” mas pelos vistos parece que não são – conveniências ?? interesses ?? e falam muito bem “inglês” e mais nada – foi um português tratar-lhe dos dinheiros do Lloyds, trabalhou que me um cão até adoecer, e despediram-no – voltaram atrás se calhar e readmitiram-no, se calhar porque não havia “inglês” à altura de suas majestades – colhem onde houver que colher

  2. LUCINO PREZA says:

    Com um ar muito british e fleumáticos,” the inglish men” foram sempre um povo traiçoeiro e, sempre a espera que algo caia do céu…. Vejam o que eles fizeram com o tratado do mapa Cor de Rosa… Arrogantes, mal criados e estúpidos até se esquecem que, os EUA nada querem com a raça inglesa por serem traiçoeiros e que, por afinidade, os americanos que também não são grandes “espingardas”, os livraram das acções “hitlerianas”. Mas, infelizmente, o ser humano é pródigo em se esquecer das ajudas de terceiros. Quem tinha razão, foi o compositor português Alfredo Keil que ao escrever a letra do nosso hino Nacional, a última estrofe era: CONTRA OS BRETÕES, MARCHAR, MARCHAR… Contudo e mais uma vez, tal como os nossos governantes de agora mal formados, sem sentido de estado e presunçosos, continuando a reboque do inimigo para se saciarem das sobras que aqueles deitam para o chão, vai daí aos coices, mudaram para Contra os canhões, marchar, marchar com medo que os papões ingleses nos cortassem tais migalhas.

    • MAGRIÇO says:

      É sempre gratificante constatar que nem todos se deixam influenciar pela obsessão compulsiva de muitos de que a Inglaterra é um exemplo a seguir. Tem virtudes, algumas, e defeitos, muitos. O Lucino já apontou certeiramente alguns, mas não são só os portugueses (alguns!) que olham com desconfiança o reino de Sua Majestade: já em 1793 o Marquês de Ximenes dizia que o RU não tinha amigos, só interesses económicos, e chamava-lhe até “a Pérfida Albion”. E tem razão, a letra do hino foi alterada, no tempo, se não me engano, do Estado Novo.

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